Esse tal de Natal…
Samarone Lima
Recebi muitas mensagens desejando Feliz Natal, e retribuo com todo o carinho, mas com uma ponderação: é um período do ano que considero esquizofrênico.
Desde pequeno achava esquisito, na adolescência confirmei e depois, já adulto, nunca entendi o Natal. Aceito explicações as mais diversas.
Pode ser mesmo um trauma. Teve um Natal que meu pai se arretou com alguma coisa, e quebrou minha carreta que seria presente de Natal. Pisou a carreta e todos os carros, uma frota deliciosa vinda diretamente da Wolkswagem, creio.
Depois ele se arrependeu e resolveu me levar para comprar outra carreta. Ganhei uma maçã e fui com ele, na garupa da bicicleta. No caminho, a maçã caiu, e doeu mais que a carreta. Os psicólogos explicam essas coisas direitinho, e os psicanalistas vão mais longe, com acusações de complexos os mais diversos.
Estou em Petrolina, terra do saudoso Marcel “Despedida em Las Vegas” Tito. São 10h53 e o comércio está à beira de uma guerra civil. Olhei no jornal de hoje. Vai ter shopping no Recife funcionando de 9h às 23.
Fico olhando essa confusão toda e lembro que minha avó Zeneuda fazia um presépio, todo ano. O lago era um espelhinho, com areia ao redor. Tinha um menino Jesus lá em casa, num lugar bacana. É uma lembrança boa, porque depois do Natal, ela guardava o presépio embulhado em jornal, e no ano que vem tinha mais.
Depois que minha avó morreu, não teve mais presépio, pelo menos que eu saiba.
Meu irmão Paulinho não vai passar o Natal em Fortaleza, ao lado de sua mãe, que também é a minha, porque a TAM empombou tudo na reta final.
Me surgiu uma dúvida existencial de máxima grandeza: que diabos eu fiz, naquele Natal de muitos anos atrás, para meu pai pisotear a minha carreta e todos os carrinhos?
Vamos que vamos. Não vejo a hora de chegar ao Recife, cidade lendária.
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