Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Os dois ladrões-meninos e o poeta

12 de dezembro de 2006, às 15:59h por Samarone Lima

Chama-se Gustavo o irmão que ganhei da vida, quando morava em São Paulo, no final dos anos 90. Dividimos apartamentos, fizemos viagens, varamos madrugadas em conversas intermináveis, deciframos as ruelas daquela Buenos Aires distante e tão próxima. Descobrimos novos poetas, tomamos porres homéricos, choramos nossas dores-de-cotovelo, e depois começamos a viajar pelo mundo. Eu pela América Latina, ele pela Itália, em busca do seu Ítalo Vida Calvino.

Um dia, fomos fazer o supermercado, em plena avenida Angélica, Higienópolis, ali onde moram os Fernando Henrique da vida. Enchemos um carrinho miúdo, certamente utilizado para colocar coisas de crianças, e depois saimos, como se algum carro estivesse à nossa espera.

Fomos descendo a avenida de mansinho, sem combinar nada, fomos descendo, certos de que escutaríamos aquele famoso “ei, rapaz, para onde você vai com esse carrinho!”, mas não perceberam nossa fuga sorrateira. A partir do segundo quarteirão, éramos duas crianças descendo uma das principais avenidas de São Paulo com seu novo brinquedo. Cada um que estava mais feliz, se pendurando no carrinho e dando gritos de iurrruuuu….

O carrinho ficou na cozinha durante muito tempo. Era um sucesso colocar coisas neles, contar a história e rir muito.

Houve também um episódio bem menos sucedido, uma tentativa tosca, de minha parte, de afanar um exemplar de “A dama e o cachorrinho”, de Tchekov. Não contava com a infelicidade, o rude golpe do destino, de ter apenas um exemplar na livraria, coisa notada rapidamente por um astuto vendedor. À saída da livraria, recebemos aquele “ei, rapaz!”, de um vendedor exaltado, louco por briga. Tchekov quase nos custou uns sopapos, ali vizinho à PUC, onde Gustavo tocava seu doutorado.

No albergue de San Telmo, em Buenos Aires, passávamos o dia conversando sobre a vida, olhando os turistas e seus mapas.Eu, Gustavo e Daniel Raton, uma das figuras mais incríveis que conheci nesta vida. Eram horas sem pressa, sem rumo e sem turismo, falando de livros, pessoas, sentimentos, relembrando nossas coisas. Formávamos, junto com a Érika e a Cláudia o que ele, Daniel, denominava o “Petit Group”, que enchia de felicidade o velho argentino, acostumado a ficar recolhido em seu quarto, lendo e fumando sem parar. Nunca mais vimos Daniel, aquele velho pilantra, que me lembra muito um personagem do Lawrence Durrell, em “O Quarteto de Alexandria”.

Escrevo essas notas soltas, entre uma cidade e outra do semi-árido alagoano, porque hoje me deu uma saudade imensa do meu velho amigo, que está morando em Brasília. Justamente hoje fiquei sabendo que ele finalmente abriu seu blog de poesias.

Então fui ler. E descobri que meu irmão virou um poeta.

Quero somente compartilhar com vocês:

www.razaopoesia.zip.net

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Quem levará flores para Pinochet?

11 de dezembro de 2006, às 9:50h por Samarone Lima

Recebi o telefonema de Daniel Buarque, que foi meu aluno da Católica, sobreviveu bem ao trauma, e está agora no site da Globo, fazendo suas matérias. Me informou que o general Augusto Pinochet tinha finalmente morrido. Eu estava ocupado demais, desfazendo uma mala e arrumando outra, para seguir viagem. Ele queria uns contatos chilenos, porque entrevistei muita gente que lutou contra a ditadura do tirano de lá, mas como estou terminando uma mudança, todos os cadernos de pesquisa sobre o Chile estavam em alguma caixa. Foi mal, Daniel, na próxima ajudo.

Depois, o camarada Amaury me entrevistou, para saber o que eu achava da morte do ditador. Conversamos um bocado, e o filminho passou de novo em minha cabeça. Era o final de 1999, e cheguei a Santiago para um curso de uma semana num lugar espetacular, chamado Cajon del Maipo. Éramos uns 15 pesquisadores de toda a América Latina. No final das contas, passei mais de 45 dias perambulando, com minha mochila nas costas. Passei um final de ano em Chiu Chiu, um vilarejo com 250 habitantes, e o reveillon foi em meio a um ritual indígena que mexeu com tudo por dentro.

Um dia, fui visitar o túmulo de Salvador Allende, o presidente morto no Palácio La Moneda, naquele maldito 11 de setembro de 1973. É um túmulo enorme, uma grande homenagem do povo chileno, e sempre tem flores novas, gente fazendo alguma homenagem.

Saí caminhando no meu galope manso, até que cheguei a uma pequena tumba, uma daquelas gavetas minúsculas, que chamava atenção por ser mais colorida e ter muitas, mas muitas flores. Então me aproximei e vi o nome do morto: Victor Jara. Foi morto logo depois do golpe, no Estádio Nacional. Morto não, ele foi massacrado.

Fiquei sentado, fiz minhas orações e na cabeça, ele cantarolava “Te recuerdo amanda”, “Cigarrito”, entre tantas canções que fizeram parte da história do povo chileno. Lembrei das tantas pessoas que eu tinha entrevistado, para meus livros, e que tinham sido presas, logo após o golpe. Todos eram sobreviventes. Ali, bem perto, estava a lista dos desaparecidos, gravadas em uma enorme pedra. Uma pedra de lembrança, saudade e dor.

Poucos dias depois, acompanhei o comício do candidato socialista, Ricardo Lagos. Ele disputava com um tal Lavin, ligado ao grupo de Pinochet. Estava quase dando um empate técnico, e todos temiam a volta por cima da turma do general. Na alameda principal de Santiago, umas duzentas mil pessoas. Lá pelas tantas, a multidão começou a saltar. Todos cantavam:

“Y va saltar/y va saltar
y quién no salta/es Pinochet”.

Uma maré humana começou a saltar. Crianças, velhos, grávidas. Quem não saltasse era Pinochet. Eu dei uns pinotes que vou dizer.

Ricardo Lagos ganhou a eleição. Estava em São Paulo, e liguei para uns amigos chilenos. Era uma festa completa no país. Era o fim de um ciclo.Numa tradução fajuta, a frase mais gritada por um dos amigos foi a seguinte:

“Mandamos o puto embora”.

Após o telefonema de Daniel, a conversa com o jornalista, fiquei um bom tempo lembrando daquela tarde, escutando Victor Jara, no cemitério de Santiago.

Não sei quem vai colocar flores no túmulo de Pinochet, mas cá entre nós… coitadas das flores.

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O dia em que cheguei a Esperança

6 de dezembro de 2006, às 16:56h por Samarone Lima

Já são vários dias na estrada, acompanhando uma Caravana do Unicef. Chegamos, a troupe de artistas faz uma festa imensa com a criançada, palhaços e pernas-de-pau arrancam sorrisos generosos, vou tomando nota de tudo, entrevistando gente. Após a festa, o prefeito recebe um selo de “Município Aprovado”, e seguimos para outro canto. Já fomos para Bananeiras, Picuí, Araruna, voltamos para Bananeiras, hoje chegamos em Esperança. Isso só na Paraíba. Depois vem Pernambuco e Alagoas, que conheço bem. Escrevo de Picuí, porque as lan house de Esperança e Bananeiras são lentas, e não dá para postar nada.

O fato é que eu estava louco para chegar a Esperança. Só o nome da cidade valia a pena. Já imaginaram a pergunta:

“Você é de onde?”

“Esperancense”.

Eu faria uma licença poética e responderia:

“Sou esperançoso”.

Chegamos a cidade hoje, às 9h04 e pensem num sol do Semi-Árido paraibano. Num lugar simples, o prefeito João Delfino e quase todos os vereadores. Um carro de som foi designado para acompanhar a Caravana. Tocava o “Tema da Vitória”, aquela música quando o Ayrton Sena ganhava, o que atrapalhou deveras o trabalho musical da Banda Sinfônica Prefeito Luís Martins de Oliveira, fundada a 1 de dezembro de 1973, atualmente com 24 músicos. Passamos pelo Supermercado Esperança, Sapataria Esperança, Esperança Temperos, e finalmente o Educandário Santa Catarina de Alexandria, uma santa que inclusive eu desconhecia por completo.

Alguém foi designado para ir soltando fogos, o que me preocupou intensamente, porque tinha muita criança no caminho. Chegamos ao Ginásio Vovozão. Parecia dia de clássico. Estava lotado até a tampa. Os palhaços e pernas de pau fizeram a alegria da criançada. Fiquei anotando tudo. Fiquei sabendo que em 2001, apenas 89,01% das mulheres faziam pré-natal. Ano passado, o número passou para 97,35%.

São muitos dados bacanas que o Unicef acompanhou e cobrou, antes de fornecer o afamado Selo, que dá um cartaz danado para a cidade.

Mas o meu negócio é gente. Conversei com o senhor Thierry Walquer, aluno da terceira série. Antes que me perguntem, o nome dele é esse mesmo, igual ao francês que lascou a gente na Copa. Ele resolveu, por conta própria, fazer uma rádio na Escola Municipal Professora Maria Lopes, e conseguiu o apoio da diretora. Todo dia, na hora do recreio, que aqui é 15h30, tem o programa dele, do Thierry, que tem um sorrisão imenso de bom. O camarada, um gordinho simpaticíssimo e voz de locutor, coloca músicas, dá recados, avisos sobre a coleta seletiva de lixo. E não tem esse negócio de construtivismo , piagetismo, nada, é na raça mesmo.

“Meus colegas estão adorando”, diz.

Das 27 escolas do município (5.100 alunos), 17 já têm conselhos escolares registrados. Recebem verba diretamente do MEC, sem passar pela mão do Prefeito, um tal Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), do Governo Federal, que eu nem sabia existir. Aliás, cada vez mais que viajo pelo interior do Nordeste, especialmente o Semi-Árido, concorco mais com meu amigo Inácio França, jornalista da maior estirpe. Há brasis que não se encontram e nem sabem um do outro. Tem ricaço no Recife que gasta R$ 3 mil num almoço naquele restaurante Leite, e tem escola, por aqui, que faria uma revolução na cidade com metade desse dinheiro.

Foi uma manhã inteira de apresentações. Vi o Corpo de Danças Xique-Xique, um aluno de uma escola tocou flauta doce (a insuperável Asa Branca, música predileta de qualquer tocador de flauta doce), vi os alunos de uma creche dançarem, vi os alunos da APAE se apresentarem, vi a Capoeira de sempre, vi o coral “Cantando Esperança”.

Vi mais que isso. Vi professores com os olhos brilhando com seus alunos, vi gente simples bem vestida, vi mães contentes porque os filhos estão sabendo ler, vi uma escola entupida de livros já para o ano que vem.

Saímos do Vovozão depois do meio dia, o sol nos cascos. O negócio é cansativo, não dá tempo nem chegar, fazer amizades, que o ônibus do Unicef já está saindo para outra cidade. Até dia 23, serão mais 28 cidades, creio, que andam se enchendo de esperança.

Vou correndo, que a Caravana está saindo. Perdão pelos erros, é que estou escrevendo às pressas, nem deu tempo falar do agente de saúde de Picuí que quase me fez chorar, mas isso é coisa para outro dia, quando a poeira baixar.

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Peripécias de um eterno viajante

5 de dezembro de 2006, às 0:31h por Samarone Lima

Essa minha paixão por mapas e viagens não termina nunca. O objetivo era chegar em Bananeiras, no interior da Paraíba, algumas dezenas de quilômetros depois de Campina Grande, para mais um trabalho de campo – acompanhar a caravana “Selo Município Aprovado”, um projeto do Unicef.

Para começar, perdi o último carro para Campina Grande. Fiquei no TIP a ver navios. Vendedor de passagem, no Brasil, só sabe dizer duas coisas: “O último carro saiu agorinha”, seguido do famoso “sei não”.

É preciso ir a uma banca de revistas para comprar um mapa. O vendedor diz que não tem mapa do Nordeste. Fuça-se as revistas, e lá está, um belo mapa do Nordeste. É fundamental não falar nada, porque ele está certo. Não tinha mapa nenhum, eu é que encontrei.

É preciso retornar com o mapa, mostrar a gloriosa cidade de Bananeiras. Marca-se a cidade com um círculo, de caneta preta.

“Amigo, preciso ir para esta cidade. Não posso passar a noite no TIP” (para não recifenses: Terminal Integrado de Passageiros, e fica no inferno da pedra).

O camarada lembra de um ônibus para Caruaru, depois um para Campina Grande, saindo uma da madrugada. O ônibus sai 21h30, dá tempo tomar uma sopa bem quente, com pão, a R$ 2,50.

Embarca-se. Todos os relógios do TIP estão quebrados. O terminal é sujo e abandonado. Ao lado, é importantíssimo viajar um jovem com seu filho pequeno, de até um ano. O menino me olha e começa a chorar. Lembro que preciso aparar a barba. O pai mal sabe o que é uma chupeta. Daqui a pouco, o menino está soltando berros. Antes de Caruaru, já quero saltar com o carro em movimento.

Enfim, na segunda rodoviária, busca-se o ônibus para Campina Grande. Só duas horas da manhã. Às 4h estarei em Campina Grande. Com sorte, toma-se um café com a turma da viagem. Perambula-se pela rodoviária. Compra-se uma revista. É meia noite, e de madrugada, o ônibus demora vinte dias para chegar.

Banheiro a R$ 0,50, café, leitura. Depois, um Todinho, outro café. Aparece uma lan house. Em todo canto do Nordeste agora tem lan house. Postagem no Blog. Ao meu lado, dois computadores ligados, todos no Orkut.

Algumas mulheres dormem no cimento, esperando algum ônibus. Duas lanchonetes estão abertas, com aquela conversa sem rumo das madrugadas em rodoviária. Estava escrevendo umas besteiras no velho caderno, um bebinho quis moeda. Ah, amigo, você já bebeu demais, penso em dizer, mas dou uma moeda. Que bafo!

Descubro que tenho uma tia e duas primas em Caruaru, mas é o fim da picada ligar tarde da noite para ficar só um pedacinho. A TV está ligada, num volume altíssimo. O Jô Soares ainda acha que tem alguma graça.

É preciso seguir. Bananeiras, me aguarde. Acabei de olhar no mapa. A cidade fica entre Solânea, Pirpirituba, Cacimba de Dentro e Belém.

Lembrei agora que meu pai costumava usar mapas, nas muitas viagens familiares. O cérebro da gente é um mistério. Faz associações malucas. Ontem mesmo, lembrei de uma sova que levei no Natal, onde minha carreta foi quebrada sem pena. Agora estou lembrando dos mapas das viagens da minha infância. Ah, acabo de lembrar que meu pai tinha um mapa do Campeonato Brasileiro. A cada rodada, marcava religiosamente os pontos dos times. Eu achava aquilo o máximo.

Deve ser associação livre, o que às vezes ocorre com o ser humano, e até com o ser desumano.

Ou é só lembrança mesmo, e a gente inventa de complicar. Mas a imagem do mapa é mais bonita que a da carreta. Fico com o mapa e vou por aqui, tangendo meu destino.

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Na estrada, mais uma vez

4 de dezembro de 2006, às 19:18h por Samarone Lima

Estimados leitores,

Estou de novo na estrada, para acompanhar a “Caravana Selo da Cidadania”, promovido pelo Unicef/Escritório do Recife.

Tão logo apareça uma lan house na região de Bananeiras ou Ararunas, na Paraíba, mandarei minhas notinhas habituais. Depois seguiremos para Esperança, e acho que é o melhor lugar do mundo para se escrever crônicas de viagem. “Estou aqui em Esperança, com meu grau de esperança um palmo acima da média”, pode ser o início do próximo texto. Vamos ver. Tudo vai depender das paisagens e das caras que vou encontrar, das histórias, das palavras e dos silêncios, fora o cheiro na venta.

Enquanto isso, informo que o famoso evento do “Amigo Secreto”, típico e obrigatório do mês de dezembro, está ajudando muito o autor a alavancar as vendas de “Estuário”. Só na semana passada, vendi 13 exemplares. Seu Vital, no Poço da Panela, vai vendendo bem também. Não esqueça do seu amigo secreto, heim?

Frase da minha coleção:

“Quando alguém diz “eu tenho alma”, é como se o rio dissesse: “eu tenho água”.
(Bert Hellinger – anotado no mural de um consultório)

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