Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

janeiro 2007
D S T Q Q S S
« dez   fev »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Arquivos


Usuários online


Diversos e dispersos

31 de janeiro de 2007, às 0:45h por Samarone Lima

Vou ao encontro do Abel Menezes, na livraria Cultura, já que a Livro 7 fechou e café em shopping center é fogo. O Abel está indo para São Paulo, fazer um doutorado sobre os xamãs urbanos, sob orientação do Edgard de Assis Carvalho, o mesmo que orientou Gustavo. Está bem na fita.

Abel escreveu o novo prefácio de “Zé”, que, reza a lenda, será reeditado pela Massangana, se o Mário Hélio ainda se lembrar. O prefácio atual é uma coisa incrível, um fenômeno editorial. Um dos prefácios mais terríveis da nossa gloriosa língua. O leitor tem que atravessar o prefácio, se esgueirar, pular, fazer acrobacias, até chegar ao primeiro capítulo. Abel conheceu o Zé. A história não vou contar, para criar mais suspense.

Leio o texto, é muito bom. Fala da geração que caminhou com armas nas mãos, mas também dos que passaram pelo pelo zen, tantra, meditação, linguagem binária, amor livre, era de Aquarius etc. Fala de tudo um pouco, e acaba falando do amor, que é o grande barato. Com esse prefácio, o Paulo Coelho que se cuide.

Lá pelas tantas, surge uma frase adorável:

“Neste momento não podemos aceitar a provocação dos desalmados nem sermos tragados pelos deprimidos”.

Conversa vai, conversa vem, colocamos nossos noves fora em dia, até que Abel me solta essa:

“É preciso a gente transformar o dia em uma obra de arte”.

E depois, a mudança em um conceito arraigado no juízo da gente:

“Tempo é arte”.

Vai, Abel, ser artista da vida…

***

Estou num bar no centro do Recife. Peço uma cerveja e fico ali, com aquela cara de quem não quer nada, já querendo. Ao lado, meu bloquinho de notas e a caneta, com a ponta afiadíssima. Fico somente à espera.

“A sobrinha da minha mulher foi deportada dos Estados Unidos. Tava tirando onda e voltou com uma mão na frente, outra atrás”, disse um camarada, fumando seu Hollywood e tomando umas.

“As mulheres americanas são muito feias. Ôs mulher feia”, completou o outro, usando assim mesmo, o “ô”, no plural.

“Ô sheike, cadê minha macaxeira?”

O sheike não deu muita bola.

“Esse negócio de direitos iguais, não é assim não. Cada um com seu direito. Já visse água se misturar com óleo?”.

Antes que me mandem email me esculhambando, informo que a frase é de um camarada, no balcão. O portador não merece pancada, já diz o velho Vital.

“Tive três maridos. O primeiro morreu, o segundo está vivo e o terceiro morreu agora. Estou viúva do meu segundo marido”, diz uma negona imensa.

Ante de sair, ela diz assim, na cara dura:

“Vou ali, dar uma”.

**

“Me dá aí um galfo, menino”.

“Galfo não tem não, tem garfo”.

“Ele é o melhor professor de português daqui”.

**

“Sabia que o Marcus Tamandaré vai para o Corinthians ganhando sessenta mil reais por mês?”, informa um camarada.

“E eu, o que tenho a ver com isso?”, responde o outro, com um pedaço de galinha boca afora.

**

Vou almoçar com meu amigo Peste, ali no Bairro do Recife. Lá pelas tantas, ele me informa o seguinte:

“Às vezes, o coração engana feito um moleque”.

**

Descobri que minha mãe pede descontos até em loja de R$ 1,99.

**

E um amigo me confessou o seguinte, após tomar uma decisão importante na vida:

“Eu nunca fui macho, mas agora quero ser homem”.

Voilá.

Postado em Crônicas | 2 Comentários »

De tudo ficou um muito

30 de janeiro de 2007, às 15:21h por Samarone Lima

Não sei quem me mandou este comentário-poema.
O fato é que ele resume um pouco a vida e o momento, o tudo e o muito pouco que vejo e sinto.
Mais tarde boto uma crônica nova.
Fiquemos com Drummond, creio, que até os 32 anos, achava que não tinha feito nada certo na vida, e que tudo estava dando errado.
Quem sabe, na verdade, quando está certando ou errando?
Outro dia recebi um texto de uma amiga, falando dos 23 anos, quando declarou amor perpétuo ao camarada que amava. Isso faz muito tempo. O tempo fez outras promessas.
Estou falando demais. Vamos ao poema.

Samarone.
***

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Postado em Crônicas | 3 Comentários »

Conciliação

25 de janeiro de 2007, às 20:37h por Samarone Lima

De repente, a memória é uma esfera cintilante, que percorre corpos e terras, e dela não temos domínio. Somos anfíbios repletos de tristezas, contradanças, alfabetos remendados, colados ao vidro da sala. O menor sol desliza para as estrelas, no movimento contrário. A lua sai do mar enrugada e cansada.

Olho nos olhos de minha mãe, vejo os de minha avó. Estão aqui, estão ali, nas fotografias que vou contrabandeando, pegando emprestado para sempre, para colocar em minhas entranhas.

Volto à pedagogia das perguntas. Não sei a hora em que nasci, prejudicando terrivelmente o possível mapa astral, que me diria o ascendente e pedaços do rumo. Soube que houve muita perda de sangue, como se eu já começasse brigando, rangendo, esperneando, sem ter ainda a minha ração de palavras para prover.

Dos meus antepassados, vou garimpando os meus pedaços. Uma cômoda cheia de gavetas era meu labirinto. Aos três anos, vi a porta da casa aberta, e fui embora, pensando que era assim mesmo, a vida, uma porta aberta pronta para seguir. Ora, não é assim que fazem os cães? Mas perdi meu faro e fui encontrado muito longe, num espeço que já nem me lembro.

Ouço conselhos melhores que os livros de auto-ajuda, mas eles escapam sempre, então peço ajuda ao alto.

Mas no fundo, não há respostas, simplificações. Só a memória habita, pondera, refaz. Não sei nada. O que havia me prometido agora me escapa.

Lembro do dia em que prometi nunca voltar. Caminhei assim, como um irreversível, até que meus exércitos nem mais sangravam, de tantos combates perdidos.

Então parei. A esperança não tinha escapado com os fiapos de luz – estava apenas fora do lugar.

Descobri, e quase me acalmei. De derrota em derrota, até a cambalhota.

Postado em Crônicas | 8 Comentários »

Testando….

25 de janeiro de 2007, às 20:29h por Samarone Lima

O blogger está cheio de frescuras, estou gastando mais tempo tentando postar as coisas do que escrevendo.

Recebi há pouco a assistência técnica do Anizio, e parece que deu certo.

Segue o teste, para ver se deu tudo certinho. Vou tentar usar fotos, de vez em quando.

Samarone Lima

Postado em Crônicas | Sem comentários »

Aos oitenta, dando dribles nas doenças e chupando balinha de menta

22 de janeiro de 2007, às 16:53h por Samarone Lima

Não há alívio maior que este.

Hoje de manhã, após olhar os exames, a tal “cintilografia óssea de corpo inteiro” e a “ressonância magnética da coluna lombar”, o médico, o ortopedista André Flávio, balançou positivamente a cabeça e descartou uma palavra muito feia, chamada “metástase” ou câncer, na brava tia Flocely, que completa 80 anos nesta quarta, salve salve. As duas vértebras quebradas são fruto da osteosporose mesmo, aliadas a duas quedas.

Depois, o nefrologista Rafael Pacífico, um dos médicos mais atenciosos que já tive a oportunidade de conhecer, olhou os exames, as taxas, a tal creatinina (nunca pensei que fosse me preocupar tanto com a taxa de creatinina), e nem citou a palavra “hemodiálise”. A pressão estava alta, ele refez a programação dos remédios, perguntou como estava a vida da tia, que ele só chama de Maria (de fato é Maria Flocely, mas todos só chamam mesmo de Flocely). Hemodiálise, por enquanto, não entra nas estratégias para manter o único rim supimpa. Ula-la…

Voltamos para casa aliviados. Rosa, que é o braço direito e esquerdo de tia, comprou umas balinhas de menta, para o caso de tia tossir muito, na viagem de volta. No CD, Tom Jobim cantava “Águas de Março”, que ela gosta muito. Lá pelas tantas, na Imbiribeira, tia me deu um pedaço de sua barra de cereais.

Quarta-feira, a tia completa 80 anos. Maria Floceli Ulisses da Silva avisou aos quatro ventos que não quer festa, mas o doutor Rafael lembrou que não é todo mundo que completa 80 anos, uma data tão bacana. Tia sorriu.

Acho que só três ventos escutaram.

Prometemos que não vamos fazer festa, mas tratei de alardear secretamente aos vizinhos, que prometem vir, a passo lento, meio adágio, trazendo algo, além da presença. Aquele negócio básico de nordestino, de cada um levar um pedacinho de alguma coisa, que no final dá uma coisa linda. Neide perguntou se era bom a gente fazer uma pequena cerimônia religiosa, eu disse que sim, porque no domingo, tia fica defronte à TV e reza, acompanhando a missa. Além disso, tem um pequeno altar, com vários santos. Ela tem fé.

Tratei de escanear várias fotos delaa, em momentos distintos de sua vida, com a ajuda de Renato. Vou imprimir e dar um álbum de presente. Acho que ela vai gostar.

Amanhã, chegam de Fortaleza dona Ermira, que vem a ser minha mãe, e Beta, irmã da dona Ermira, logo, minha tia. Tia Antonieta vem de Caruaru, mas já avisou que vai passar somente o dia, pois está cuidando da neta. A mãe de Rosa ficou de fazer uma torta especial, de presente. Das Neves vai trazer, tenho certeza, um bolo de rolo. É o melhor bolo de rolo do Brasil, garanto.

Já falei da amadíssima tia Flocely, neste pequeno espaço da Internet, muitos leitores vão até dizer que sou meio repetitivo, mas eu nem ligo (na verdade, tem leitor que está ficando repetitivo).

Não é todo dia que uma criatura linda, aos 80 anos, dá um pontapé no câncer, um drible na hemodiálise e volta para casa chupando balinha de menta. Isso sim, é uma celebração da vida.

Almoçamos no restaurante Kancela, com “k” mesmo, aqui no Cabo. O calor estava de rachar tudo, mas a galinha estava meio salgadinha, tia adorou sair do cardápio sem sal que Rosa agora comanda.

Rosa, por sua vez, achou a melhor comida do ano. Não foi ela quem cozinhou, né?

Para a tia Flocely, com amor.

Postado em Crônicas | 14 Comentários »

« Artigos anteriores