Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Dois picolés

19 de janeiro de 2007, às 14:36h por Samarone Lima

Estou no ônibus Centro do Cabo, que saiu do Cais de santa Rita. O calor derrete tudo. Um passageiro leva um cachorro pequeno dentro de uma caixa. O cachorro começa a latir na metade da viagem. Lá em Pontezinha, começa o engarrafamento de sempre, e a letargia dos passageiros acaba com a entrada fulminante de um vendedor de picolés. Ele fala muito, diz duzentos sabores, frutas inclusive não catalogadas pela ciência, mas registradas em sua luta pela sobrevivência. Para sobreviver, o brasileiro cria mundos.

Vários passageiros compram picolés. Peço um da graviola. Vem embaladinho num saco de papel. O vendedor conversa alto com o cobrador, faz uma análise profunda sobre a decisão da Copa de 2006. O Zidane deu uma cabeçada no italiano porque o cara queria subornar ele, em plena decisão da Copa.

“Se o Brasil fosse para a final, se vendia. Tchau para o louro do Brasil”.

Essa parte não entendi.

Lá pelas tantas, o chachorro começa a ganir.

“Ele está com calor”, diz o vendedor.

O motorista se vira, olha, repara, o trânsito está parado, ele parece ser um bom criador de cães.

“Que raça é essa?”

Ninguém arrisca um palpite.

“É raça de cachorro mesmo”, responde o vendedor.

“Abre a caixa, para entrar um arzinho”, diz.

“Se abrir mais a caixa, ele rasga”, responde um velho, dono do animal.

O ônibus inteiro fica por conta do cachorro.

Latidos e ganidos à parte, ficamos todos, bovinamente, lambendo nossos picolés. O Cabo às vezes parece mais distante que Calcutá.

Então reparei em dois meninos, negrinhos, na faixa dos 7 a 9 anos, irmãos certamente. A mãe, uma senhora pançuda, estava de pé, ao lado deles. Também era negra.

Os meninos olhavam para mim. Pensei em oferecer um picolé a cada um, mas fiquei pensando. E se a mãe achar ruim? E se eles acharem que estou tratando eles como pedintes ou algo assim? Esse “e se” idiota, que não leva a gente para canto nenhum.

Botei minha viola no saco e fiquei mamando minha graviola.

Um sujeito gordo, de óculos, que estava sentado ao lado dos meninos, olha para picolezeiro. Faz um gesto com a cabeça, apontando com o queixo para os garotos. O rapaz do picolé vai lá no fundo e traz dois picolés de morango.

Os meninos abrem um sorriso, mas olham para a mãe. Ela faz que sim com a cabeça, olha para o senhor e agradece. Olha para os meninos e fala:

“Não vão agradecer não, é?”

Os meninos se viram para o senhor, muito sério, e dizem, quase num coral:

“Obrigado”.

O homem não responde. É, como já disse, um homem sério demais para responder coisas como “obrigado”.

É a mãe quem abre o saco do picolé. Os meninos são muito tímidos e bonitos.

O homem come o restinho do seu picolé. Tem a sabedoria de não ter pudores.

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