Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

Apresentação


Livros do Autor


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Calendário

janeiro 2007
D S T Q Q S S
« dez   fev »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Arquivos


Usuários online


Aos oitenta, dando dribles nas doenças e chupando balinha de menta

22 de janeiro de 2007, às 16:53h por Samarone Lima

Não há alívio maior que este.

Hoje de manhã, após olhar os exames, a tal “cintilografia óssea de corpo inteiro” e a “ressonância magnética da coluna lombar”, o médico, o ortopedista André Flávio, balançou positivamente a cabeça e descartou uma palavra muito feia, chamada “metástase” ou câncer, na brava tia Flocely, que completa 80 anos nesta quarta, salve salve. As duas vértebras quebradas são fruto da osteosporose mesmo, aliadas a duas quedas.

Depois, o nefrologista Rafael Pacífico, um dos médicos mais atenciosos que já tive a oportunidade de conhecer, olhou os exames, as taxas, a tal creatinina (nunca pensei que fosse me preocupar tanto com a taxa de creatinina), e nem citou a palavra “hemodiálise”. A pressão estava alta, ele refez a programação dos remédios, perguntou como estava a vida da tia, que ele só chama de Maria (de fato é Maria Flocely, mas todos só chamam mesmo de Flocely). Hemodiálise, por enquanto, não entra nas estratégias para manter o único rim supimpa. Ula-la…

Voltamos para casa aliviados. Rosa, que é o braço direito e esquerdo de tia, comprou umas balinhas de menta, para o caso de tia tossir muito, na viagem de volta. No CD, Tom Jobim cantava “Águas de Março”, que ela gosta muito. Lá pelas tantas, na Imbiribeira, tia me deu um pedaço de sua barra de cereais.

Quarta-feira, a tia completa 80 anos. Maria Floceli Ulisses da Silva avisou aos quatro ventos que não quer festa, mas o doutor Rafael lembrou que não é todo mundo que completa 80 anos, uma data tão bacana. Tia sorriu.

Acho que só três ventos escutaram.

Prometemos que não vamos fazer festa, mas tratei de alardear secretamente aos vizinhos, que prometem vir, a passo lento, meio adágio, trazendo algo, além da presença. Aquele negócio básico de nordestino, de cada um levar um pedacinho de alguma coisa, que no final dá uma coisa linda. Neide perguntou se era bom a gente fazer uma pequena cerimônia religiosa, eu disse que sim, porque no domingo, tia fica defronte à TV e reza, acompanhando a missa. Além disso, tem um pequeno altar, com vários santos. Ela tem fé.

Tratei de escanear várias fotos delaa, em momentos distintos de sua vida, com a ajuda de Renato. Vou imprimir e dar um álbum de presente. Acho que ela vai gostar.

Amanhã, chegam de Fortaleza dona Ermira, que vem a ser minha mãe, e Beta, irmã da dona Ermira, logo, minha tia. Tia Antonieta vem de Caruaru, mas já avisou que vai passar somente o dia, pois está cuidando da neta. A mãe de Rosa ficou de fazer uma torta especial, de presente. Das Neves vai trazer, tenho certeza, um bolo de rolo. É o melhor bolo de rolo do Brasil, garanto.

Já falei da amadíssima tia Flocely, neste pequeno espaço da Internet, muitos leitores vão até dizer que sou meio repetitivo, mas eu nem ligo (na verdade, tem leitor que está ficando repetitivo).

Não é todo dia que uma criatura linda, aos 80 anos, dá um pontapé no câncer, um drible na hemodiálise e volta para casa chupando balinha de menta. Isso sim, é uma celebração da vida.

Almoçamos no restaurante Kancela, com “k” mesmo, aqui no Cabo. O calor estava de rachar tudo, mas a galinha estava meio salgadinha, tia adorou sair do cardápio sem sal que Rosa agora comanda.

Rosa, por sua vez, achou a melhor comida do ano. Não foi ela quem cozinhou, né?

Para a tia Flocely, com amor.

Postado em Crônicas | 14 Comentários »