Conciliação
Samarone Lima
De repente, a memória é uma esfera cintilante, que percorre corpos e terras, e dela não temos domínio. Somos anfíbios repletos de tristezas, contradanças, alfabetos remendados, colados ao vidro da sala. O menor sol desliza para as estrelas, no movimento contrário. A lua sai do mar enrugada e cansada.
Olho nos olhos de minha mãe, vejo os de minha avó. Estão aqui, estão ali, nas fotografias que vou contrabandeando, pegando emprestado para sempre, para colocar em minhas entranhas.
Volto à pedagogia das perguntas. Não sei a hora em que nasci, prejudicando terrivelmente o possível mapa astral, que me diria o ascendente e pedaços do rumo. Soube que houve muita perda de sangue, como se eu já começasse brigando, rangendo, esperneando, sem ter ainda a minha ração de palavras para prover.
Dos meus antepassados, vou garimpando os meus pedaços. Uma cômoda cheia de gavetas era meu labirinto. Aos três anos, vi a porta da casa aberta, e fui embora, pensando que era assim mesmo, a vida, uma porta aberta pronta para seguir. Ora, não é assim que fazem os cães? Mas perdi meu faro e fui encontrado muito longe, num espeço que já nem me lembro.
Ouço conselhos melhores que os livros de auto-ajuda, mas eles escapam sempre, então peço ajuda ao alto.
Mas no fundo, não há respostas, simplificações. Só a memória habita, pondera, refaz. Não sei nada. O que havia me prometido agora me escapa.
Lembro do dia em que prometi nunca voltar. Caminhei assim, como um irreversível, até que meus exércitos nem mais sangravam, de tantos combates perdidos.
Então parei. A esperança não tinha escapado com os fiapos de luz - estava apenas fora do lugar.
Descobri, e quase me acalmei. De derrota em derrota, até a cambalhota.
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