Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

Apresentação


Livros do Autor


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Calendário

janeiro 2007
D S T Q Q S S
« dez   fev »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Arquivos


Usuários online


Conciliação

25 de janeiro de 2007, às 20:37h por Samarone Lima

De repente, a memória é uma esfera cintilante, que percorre corpos e terras, e dela não temos domínio. Somos anfíbios repletos de tristezas, contradanças, alfabetos remendados, colados ao vidro da sala. O menor sol desliza para as estrelas, no movimento contrário. A lua sai do mar enrugada e cansada.

Olho nos olhos de minha mãe, vejo os de minha avó. Estão aqui, estão ali, nas fotografias que vou contrabandeando, pegando emprestado para sempre, para colocar em minhas entranhas.

Volto à pedagogia das perguntas. Não sei a hora em que nasci, prejudicando terrivelmente o possível mapa astral, que me diria o ascendente e pedaços do rumo. Soube que houve muita perda de sangue, como se eu já começasse brigando, rangendo, esperneando, sem ter ainda a minha ração de palavras para prover.

Dos meus antepassados, vou garimpando os meus pedaços. Uma cômoda cheia de gavetas era meu labirinto. Aos três anos, vi a porta da casa aberta, e fui embora, pensando que era assim mesmo, a vida, uma porta aberta pronta para seguir. Ora, não é assim que fazem os cães? Mas perdi meu faro e fui encontrado muito longe, num espeço que já nem me lembro.

Ouço conselhos melhores que os livros de auto-ajuda, mas eles escapam sempre, então peço ajuda ao alto.

Mas no fundo, não há respostas, simplificações. Só a memória habita, pondera, refaz. Não sei nada. O que havia me prometido agora me escapa.

Lembro do dia em que prometi nunca voltar. Caminhei assim, como um irreversível, até que meus exércitos nem mais sangravam, de tantos combates perdidos.

Então parei. A esperança não tinha escapado com os fiapos de luz - estava apenas fora do lugar.

Descobri, e quase me acalmei. De derrota em derrota, até a cambalhota.

Postado em Crônicas |

8 Comentários

  1. Anonymous Disse:

    A memória, o menor sol - e a lua que sai do mar enrugada e cansada. Família da conciliação. Lindo, poeta, na busca e seguindo.

    Beijos
    Bianca

  2. Anonymous Disse:

    A idade da razão

  3. Anonymous Disse:

    imshalaaa…

  4. Anonymous Disse:

    ah, samarone lima
    troco todo o meu corpo, tudo o que tem dentro e fora dele, pela poesia, que nos prende à vida e nos liberta a alma.
    un petit bisou pour toi

  5. Anonymous Disse:

    Vixe, Sama! Cada crônica uma emoção maior. Passa por NH pra gente conversar um pouco. Abração do mano PH

  6. gustavo Disse:

    para o imbecil que escreveu aqui certa vez dizendo que tu “faz tipo”, desejo a ele apenas isso que tu mostra aqui de forma tão singela: uma dose de alma, um pouco de paz, algumas buscas, um coração tranquilo…

    G.

  7. Anonymous Disse:

    Sama,
    Andei dando um tempo na net. Vez em quando, escrevo para os amigos e só. Assim, não vi nada além da minha caixa postal nos últimos tempos. Soube por uma amiga comum do carnaval que fizeram por vc ter usado as palavras “frango e viado” numa crônica, quanta frescura!!!!!!! E quando eles, os frescos, chamam os heteros de “bofe”, “racha” ou “trava” ? Isto é ofensa ou uma simples e conhecida forma de identificarem os homens e mulheres de opção sexual diferente da deles? Quem lhe conhece sabe que você é incapaz de ofender sequer um torcedor do Sport, quanto mais uns insanos e desvairados que anônimamente lhe agridem com palavras loucas nesta maravilha que é o Estuário. Como dizia minha mãe: “Palavras loucas, ouvidos moucos”.
    Beijo solidário
    Naire

  8. Anonymous Disse:

    De tudo ficou um pouco
    Do meu medo. Do teu asco.
    Dos gritos gagos. Da rosa
    ficou um pouco.

    Ficou um pouco de luz
    captada no chapéu.
    Nos olhos do rufião
    de ternura ficou um pouco
    (muito pouco).

    Pouco ficou deste pó
    de que teu branco sapato
    se cobriu. Ficaram poucas
    roupas, poucos véus rotos
    pouco, pouco, muito pouco.

    Mas de tudo fica um pouco.
    Da ponte bombardeada,
    de duas folhas de grama,
    do maço
    ― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

    Pois de tudo fica um pouco.
    Fica um pouco de teu queixo
    no queixo de tua filha.
    De teu áspero silêncio
    um pouco ficou, um pouco
    nos muros zangados,
    nas folhas, mudas, que sobem.

    Ficou um pouco de tudo
    no pires de porcelana,
    dragão partido, flor branca,
    ficou um pouco
    de ruga na vossa testa,
    retrato.

Conversinhas

Nota: A moderação de comentários está ativada e isto pode retardar a publicação do seu comentário. Por favor, não envie o seu comentário novamente.