Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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De tudo ficou um muito

30 de janeiro de 2007, às 15:21h por Samarone Lima

Não sei quem me mandou este comentário-poema.
O fato é que ele resume um pouco a vida e o momento, o tudo e o muito pouco que vejo e sinto.
Mais tarde boto uma crônica nova.
Fiquemos com Drummond, creio, que até os 32 anos, achava que não tinha feito nada certo na vida, e que tudo estava dando errado.
Quem sabe, na verdade, quando está certando ou errando?
Outro dia recebi um texto de uma amiga, falando dos 23 anos, quando declarou amor perpétuo ao camarada que amava. Isso faz muito tempo. O tempo fez outras promessas.
Estou falando demais. Vamos ao poema.

Samarone.
***

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

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