Um quase amor de Carnaval
Samarone Lima
Ônibus Rio Doce/Dois Irmãos, domingo à noite. Defronte ao Centro de Convenções, uma multidão nas paradas de ônibus. Esou absolutamente sozinho, no ônibus, e o cobrador cochila com vontade.
Entram três jovens. Dois rapazes e uma moça, belíssima.
Ele sentam. Ela está com o pé ferido.
“Ai, está sangrando”.
Um rapaz senta no banco de trás e fica segurando o pé da moça, uma das mais belas do Recife.
O outro senta ao seu lado, a segura, fica alisando seus cabelos, como se cuidasse de uma criança. Ela está meio bêbada e fica repentindo “está doendo tanto”.
Os dois rapazes ficam nessa disputa. Um segurando o pé, o outro alisando seus cabelos. O do pé está em ligeira desvantagem.
Lá pelas tantas, o rapaz dos cabelos começa a avançar na pontuação. Os breves alisados caminham para carinhos. O outro solta o pé, se dando por vencido.
Saem beijinhos de leve. Ela esquece o ferimento e o ônibus segue. O cobrador, a essa altura, está totalmente acordado, aguardando um final feliz.
E então, o ônibus passa defronte a um supermercado, e a moça tem um tilte. Dá um pulo, como se o pé estivesse perfeito, e tudo fosse somente manha.
“Minha parada!”
Ela dá um pulo, dá o sinal, o ônibus pára quase imediatamente, ela desce assim, de sopetão.
Menos de cinco segundos, e fim de um caso de amor.
O rapaz que alisava seus cabelos fica perplexo. Pela cara, acho que nem o telefone da moça ele anotou.
O que segurava seu pé, olha e diz:
“Mas tu é muito tabacudo”.
Eu e o cobrador nos entreolhamos, achando o desfecho meio doloroso para os dois rapazes.
E terminou assim mesmo, aquele final brusco, quando mal termina o filme, e acendem a luz na cara da gente.
E ainda nem chegou o Carnaval…
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