Envelhecimento precoce em pleno Carnaval e a beleza do Frevo Jazz
Samarone Lima
Definitivamente, estou envelhecendo. Hoje, terça-feira de Carnaval, estou no Cabo de Santo Agostinho, batucando esta pequena crônica. Há um silêncio completo ao redor, um silêncio bom, calmo, desejado. Aqui-ali, um passarinho solta uns gorjeios, porque gorjeio é uma palavra ótima para o texto ficar mais bonito. Há pouco, o amigo José Neves me ligou. Conversamos uma aguazinha e deu para escutar o canto de um sabiá que ele tem. O Sabiá já foi vice-campeã em dois torneios e participou de concursos na Paraíba e outros estados que não lembro.
Conversas sobre pássaros num dia como hoje, é sinal da passagem do tempo. Em outros anos, já estaria feito um danado, pinotando nas ladeiras de Olinda, gritando pela milésima vez “Olinda/Quero cantar/A ti/Esta canção”, a história dos coqueirais, o teu sol, o teu mar, faz vibrar meu coração, a sonhar, etc. Mas não sei, hoje deu cansaço, preguiça, ou uma mistura em doses iguais das duas coisas.
Descobri também que gosto muito de ficar olhando o povo, aquela alegria acelerada e visceral. O encanto da multidão chegando. Este ano, esbarrei na turma da Naire, que olhava o Galo da Madrugada, de uma bela sacada. Me chamaram, e como não precisava de credencial para subir, fui lá, dar uma olhadinha. Tinha cerveja gelada, tira-gosto e bom papo, fora o Tom, neto dela, fazendo arruaças mil. Conversa vai, conversa vem, acabei ajudando a criar o Blog da Naire, que merece uma lida:(www.turbantedanaire.blogspot.com).
Fiquei um bom tempo olhando o povão passar, voltando do Galo, lá pelas 3h21 da tarde. É um troço que me encanta, essa ausência de padrão nas belezas e feiúras. Mulheres gordinhas, com suas minúsculas bermudas (não sei como se escreve short no plural), pouco ligando para as gorduras, as estrias, a barriga proeminente. Estão ali é para a diversão, a festa, não querem saber se ficou tudo em cima, se vão comentar. Vi fantasias lindas, feitas somente com o improviso, o delicioso exercício da criatividade.
Há, é claro, uma tara recifense, que é querer aumentar o tamanho das coisas, mas isso é o de menos. Outro dia, cismaram que o Galo da Madrugada levava um milhão de pessoas às ruas, cantaram loas porque o negócio entrou para aquele chatíssimo Guiness Book, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Este ano, vi em um dos jornais daqui, que eram dois milhões de pessoas acompanhando o bloco, e achei que estão tendo surtos. E não fica ninguém em casa não, é?
Do baixo da minha prosopopéia, eu peço: menos. O Galo é feito de milhares de singularidades. Querer contar é olhar pelo vício dos números, esquecendo do lirismo fundamental de toda grande festa coletiva. Famílias inteiras passam fantasiadas, sorrindo. Há pais bêbados que se tornam crianças. Surgem apaches de todos os lados, caboclinhos em cada esquina, guerrilheiros com suas boinas, burrinhas as mais diversas.
Talvez por isso, por causa deste meu envelhecimento precoce (37 anos e meio), me esbaldei em um dos mais belos momentos da programação cultural deste ano: o Recife Frevo Jazz, na tarde de sábado, logo após o Galo.
Eu estava me deslocando para o “Acho é Pouco”, quando esbarrei em um amigo, com seu inseparável Rum Montilla.
“Vamos aqui, ver uma coisa”.
Como sou amante do acaso, fui com ele. Estava começando uma apresentação daquelas, naquela rua onde fica o Bar Central, que esqueci. Caramba, velho esquece das coisas mesmo, visse? Sete grandes músicos (só lembro do Nando Rangel e do maestro Edson Rodrigues) entraram num jazz que me deixou sem voz. Aceitei que estou ficando velho, deixei o “Acho é Pouco” para outro dia, puxei um banquinho e fiquei, curtindo um dos melhores show do ano, num palco no meio da rua.
E então aconteceu o momento mais lindo da festa. Centenas de pessoas voltavam do Galo, absolutamente mamadas. Homens sendo equilibrados pela esposa, crianças no ombro, bem vermelhas, quatro amigos com os cabelos pintados de loiro, homens barrigudos usando fraldas patéticas, aquela coisa louca.
Eles esbarravam no Jazz, misturado com Frevo, e começavam a dançar.
Fiquei fazendo o que faz uma pessoa que envelhece: olha, em silêncio.
Lá pelas tantas, um velhinho chegou perto do palco. Estava descalço, sem camisa e usava uma calça verde, mais antiga que seus cabelos brancos. Era o mais bêbado que todos do Galo. Ele ficou dançando, em êxtase. Ao seu lado, cinco moças negras, daquelas bem gordonas. Elas estavam disfarçadas de policiais da Roccam, com boina, óculos escuros e tudo o mais que a Roccam adora. Quando vinha chegando gente, elas davam um famoso “baculejo”, à procura de nada, só de folia.
O velhinho escapou da polícia feminina, mas não escapou do Frevo Jazz. Ele se esbaldou, dançando muito. Eu aceitei a chegada sutil da minha velhice carnavalesca.
Para Beto Rezende, um amigo que vejo pouco, conspirador do Frevo Jazz.
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