Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Mini-lembranças familiares

27 de fevereiro de 2007, às 23:38h por Samarone Lima

Meu pai botava bem alto o som, às sextas-feiras, o Altemar Dutra ocupava a casa inteira, e ele tomava sua bicada. Teve uma época em que a Alcione fez muito sucesso, e dominou tudo. “Não posso mais alimentar a esse amor tão louco, que sufoco…” Era um sufoco mesmo. Eu acho que ele sentia alguma dor muito íntima, que só cabia a ele sentir, mas o som era alto demais, e não dava para ver direito.

Meu tio Ademar morreu bem moço, com 32 anos, creio. Era caminhoneiro, e de longe, o tio mais bacana, junto com tio Ademar (só que tio Ademar sempre foi muito malucão). Ele dirigia o caminhão frigorífico da Transportadora Polar, que a gente subia em cima e ficava brincando. Eu não subia muito, porque tinha medo de altura. Quando tio Ademar morreu, eu fiquei triste, mas acho que não entendia ainda o que era a morte, porque não sofri. Tristeza é uma coisa, sofrimento é outra.

Meu irmão, o Tonho, fugiu para casar. Viajou para Brejo Santo, uma cidade onde moramos. Fui lá dar o apoio, e quando ele foi avisar à família, por telefone, começou a suar muito, parecia uma bica. Nunca vi uma pessoa ficar tão suada sem fazer um exercício. As emoções molham, creio.

Treinei futebol de salão, karatê e natação, em épocas distintas. A melhor época, porém, foi quando comecei a correr de manhã com o Neto, nosso vizinho. Encontramos um coroa maluco, que resolveu ser nosso treinador, e era cada carreira que eu vou dizer. Um dia parei minha carreira de futuro maratonista, o Neto continuou. De vez em quando ele corre uma maratonazinha, aquele puto. O nome disso é inveja retroativa (e o Neto é bem dizer da família, então vale).

Meu pai era totalmente contrário à história do karatê, tanto que não liberou para a compra de material esportivo. Minha mãe foi economizando da feira, tirando um trocado daqui, outro dali, escondendo, fazendo mágicas, até que conseguimos comprar um kimono. Foi com ele que passei da faixa branca para amarela, depois para a vermelha. Se eu fosse disciplinado, hoje seria faixa preta, uma besteira inacreditável.

Minha tia Antonieta só consegue dirigir buzinando. Daqui na esquina ela já teria dado três buzinadas. Não sei o motivo.

Minha tia Beta faz o melhor bolo mole do Brasil. Tia Beta é viúva do tio Ademar. Quando vou a Fortaleza, sempre tem bolo mole me esperando.

Acho que tem uns vinte anos que não vejo a tia Ideusuite, também conhecida como “Tia Bibi”. Não sei o motivo do apelido.

Meu primo Rogério, quando era pequeno, foi apelidado de “Din Din”. O apelido tinha tudo a ver.

Meu pai tinha a mania de conferir todos os ítens das compras, depois de chegar do Romcy, que era o Bompreço de Fortaleza. Eu nunca entendi aquilo, mas essas coisas de família são assim mesmo, a besteira é querer ficar entendendo.

Meu irmão, o Paulinho, sabia todas as capitais do Brasil antes mesmo de falar “casa”. Aquilo era uma comoção na família, mas eu achava uma besteira imensa. Hoje ele nem sabe as capitais todas e é muito mais inteligente.

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