Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima


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Estou escapando por um fio

30 de março de 2007, às 11:26h por Samarone Lima

Amigos leitores, pela leitura dos jornais de Pernambuco, cada dia descubro que estou vivo por um fio, um acidente, um descuido ou excesso de atuação do meu anjo da guarda.

Na terça-feira, lendo o Diário de Pernambuco, descobri que foram assaltados 1.822 ônibus, na Região Metropolitana do Recife (dados da EMTU). Eu, que sou um passageiro contumaz, fiquei de cabelos em pé, o que chega a ser uma redundância. Então escapei mesmo fedendo, porque não estava em nenhum desses coletivos.

A coisa começou a ficar complicada mesmo quando olhei a lista das dez linhas mais assaltadas. A lendária “Centro do Cabo”, que utilizo umas três vezes por semana, abocanhou o segundo lugar (a EMTU não revelou quantas vezes os passageiros foram vítimas de assaltos). Novamente, eu não estava. A minha bucólica linha de ônibus, que percorre estafantes 35 quilômetros, só perdeu em assaltos para a linha “Zumbi do Pacheco/Barro”.

Fui olhar o restante das linhas, e quase choro. A linha “Cabo/Cohab” pegou o quinto lugar, e a linha “Cabo/Aeroporto”, que utilizo quando chego de viagem, ficou em nono lugar. Rapaz, estou metido numa baita fria!

Como sou muito curioso, fui ver as dez vias com maior frequência de assalto. Em primeiro lugar, a BR-101 Sul, que é o caminho para ir ao Cabo, onde estou morando. Já acendi minhas velas e fiz as primeiras orações, pedindo proteção extra.

A matéria diz que vão gastar um dinheirão com câmeras nos veículos. Hoje, 383 ônibus já têm câmeras. Até o final do ano, vão instalar outras 617 e mais 300 rastreadores. Até o final do ano, querem botar câmeras na frota toda, 2.700 veículos. Ou seja, aquela lenga-lenga de sempre, esse negócio de botar equipamentos, para tapar o sol com a peneira, de termos certamente uma das mais violentas e piores polícias do Brasil.

De formas que se você, caro leitor, estiver em seu possante carro na BR 101-Sul, e passar pelo ônibus Centro do Cabo, saiba que pode estar passando por um camarada em apuros, tentando esconder seus trocados para os ladrões não levarem tudo.

Mas pelo menos estou sendo filmado, uma coisa inútil, mas eu adoro coisas inúteis, o Manoel de Barros aproveita coisas inúteis para a poesia.

“Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última”.
(Manuel de Barros)

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Lembranças do início de uma guerra sem fim

29 de março de 2007, às 18:56h por Samarone Lima

Ando assistindo muito o Chaves, e vejo que eles reprisam muito os programas. Nesses dias corridos em que luto para sobreviver, dar aulas e pagar as contas, recorro ao método-chaves para não ficar escrevendo bobagens, pela absoluta falta de tempo.
Vai uma crônica que escrevi quando começou a guerra do Busch contra o povo do Iraque.
Não lembro a data. Sei que morreram milhares de pessoas, e isso é imperdoável.
Samarone
***
A guerra e a escuridão

Por Samarone Lima

Era uma noitinha bucólica, com os pais trazendo filhos das escolas em bicicletas e cães vagando à procura de algo. Na mercearia de seu Vital, as vendas de sempre – pão, big-big, geladinho, vassoura, pedaço de charque, queijo, os primeiros pedidos de cerveja ou os “quartinhos” alvissareiros. Encontrei os amigos para um cafezinho, e começamos a conversar nossas besteiras de sempre, quando alguém lembrou que em duas horas, no máximo, iria começar a guerra de Bush contra o Iraque, era preciso buscar uma TV.

Ficamos a imaginar como seria uma cidade sendo bombardeada. Trouxemos isso para nossa realidade. Aviões norte-americanos soltando bombas poderosas em cima da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, destruindo casarões, vilas, a venda de seu Vital, nosso campinho de futebol. Pensamos nos amigos e crianças que morreriam e deu até uma tristeza, mesmo que momentânea, imaginar essas criaturas – que são quase nossos filhos também, de tanta ternura nos abraços, de tantos sorrisos – mortas inocentemente.

Começou a chover e nossa filosofia do anoitecer foi interrompida por uma explosão que veio dos céus. Corremos todos para dentro da mercearia de Vital e súbito, a escuridão chegou ao Poço da Panela. Houve um curto-circuito e a fiação elétrica começou a estourar, fazendo um barulho enorme. Enormes clarões manchavam a noite, e ficamos parecendo uns patetas desarmados na trincheira de Vital, tentando encontrar uma saída. Dona Beata, que estava na rua, estremeceu. Marcos Careca saiu à procura de fios no chão, para vender mais tarde.

Muitas horas depois, descobrimos que uma árvore tinha encostado nos fios, provocando aquela onda de estouros, que se alastrou pelo quarteirão inteiro. Seu Vital disse, com os olhos arregalados, nunca ter visto aquilo em 33 anos no Poço. Ficamos na escuridão completa, e para relaxar, sentamos e pedimos um “Detergente” (bebida produzida por vital, com cachaça, mel e limão). Acendemos velas e fomos relembrar tudo, exagerando um pouco a cada minuto.

Acho que foi neste momento, enquanto estávamos rindo à luz de velas e tomando uma aguardente com cajá, que começou o bombardeio ao Iraque. Alguém lembrou novamente, e nossa impotência permitiu pouca coisa, além de um brinde à paz e votos de que os norte-americanos entrassem pelo cano. A guerra nos encontrou com a pouca mas suficiente luz das velas.

Horas depois, quando a Celpe começou a reparar o estrago, ficamos na calçada tomando um vinho e ralhando com preço de nossas contas de eletricidade. Renata providenciou um colchão para Lucas e peguei minha cadeira de balanço. Grão de Bico começou a recitar seus belos poemas.

Era era uma noite de lua cheia, e ali no Poço, a paz estava em cada olhar, cada gesto, no sono inocente de Luquinha, em nosso impotente desejo de que as bombas sobre o Iraque fossem apenas um sonho ruim, que a guerra tão desejada pelos norte-americanos, por algum milagre, não passasse de um curto-circuito, uma falta de luz.

Foi pouco, mas foi tudo o que desejamos.

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Bruno, o filho de uma pequena história de amor

25 de março de 2007, às 13:02h por Samarone Lima

Em dezembro de 2004, publiquei na coluna “Estuário”, do JC On Line, a crônica “Pequenas histórias de amor – volume I”. Fez um sucesso danado, porque é daquelas histórias que atravessam o tempo, sem perder a essência. Não citei os nomes, porque tudo estava ainda muito delicado, e o mais importante não era propriamente os nomes, mas o que estava por trás de tudo, que era o amor.

Neste sábado, fui ver o Bruno, filho de Inácio e Geórgia, fruto dessa pequena história de amor. O garoto, mesmo puxando ao Inácio, é lindo. A mãe estava zen, totalmente zen, para não dizer feliz, totalmente feliz. Bebi três cervejas, comemos costela no bafo com os avós e depois fui embora.

Repito a crônica, numa pequena homenagem ao Inácio, à Geórgia e ao Bruno.

E continuo chamando de pequena história de amor. É parte do meu encanto permanente com as coisas miúdas, do tamanho de uma semente.
***

Pequenas histórias de amor – Volume I

Recife, 24 de dezembro de 2004.

Ele descobriu que a amava quando tinha 15 anos, em 1984. Ela estudava na mesma turma, e quando entrava na sala de aula, ele cantarolava intimamente “pela luz dos olhos teus”, porque havia algo de encantador nos seus olhos, no que eles diziam, uma ternura que cativava aquele coração tão moço. Ele lembra, vinte anos depois, do dia em que ela fez circular um caderninho para os amigos deixarem mensagens, e atravessando a fronteira da timidez, escreveu “você é meu único e definitivo poema”. Depois disso, eles desencontraram.

Ele entrou na faculdade e, como me disse há poucos dias, se distraiu das coisas do amor. Conheceu outras mulheres, se encantou com algumas, mas nenhuma tinha aqueles olhos. Se reencontraram anos depois, quando ela terminou a faculdade. A última cena deste novo contato foi ela se beijando com um sujeito, no baile de formatura. Como queria estar naquele lugar!

Os dois casaram e não se viram mais. Aqui e ali, nos encontros com os amigos da turma, uma notícia esporádica. Somente em 2001 voltaram a se ver, num encontro dos velhos amigos, para cativar lembranças. Na primeira vez que o viu, depois de tantos anos, ela comentou com uma amiga– “o menino virou homem”. A resposta da amiga acendeu alguma chama que ela nunca percebera – “o teu apaixonado chegou”. Surpresa em saber daquele amor silencioso, ela ficou em silêncio, achando-o mais belo.
“Aquela frase da amiga foi um sopro divino”, me disse ele, repassando os detalhes da história, enquanto tomávamos uma cerveja.

Mas a vida seguia outros cursos. Tinham compromissos, casamento, filhos. Em 2002, voltaram a se encontrar. Pare ele, já não era tão fácil olhá-la nos olhos. E a turma, sem perceber que alimentava um sentimento que parecia perdido, colaborou para que voltassem a se ver. Um novo encontro, em 2003, serviu para que ele confirmasse que aquele menino estava vivo, dentro de sua alma, querendo amar plenamente.

Em 2004, por uma desculpa qualquer que sempre encontramos, quando queremos algo de verdade, almoçaram juntos. Ao final da longa e cativante conversa, ela perguntou:

“Você sentia alguma coisa por mim naquela época?”

“Eu era muito apaixonado por tu”, respondeu ele.

Algo rompera na timidez dele. Ela agora sabia de algo secreto, que ele trazia há muitos anos. Voltaram a falar de literatura, cinema, dos caminhos profissionais, mas algo já tinha sido dito, e era irreversível. Pronunciaram, timidamente, o nome do amor.

Quando se encontraram novamente, nada mais poderia ser feito. Os dois se queriam tanto, que quando ele a abraçou, sentiu que estava protegido, acolhido, que aquele era o melhor lugar do mundo para estar.

Os mundos que viviam exigiam outras respostas. Sim, os compromissos, outros laços haviam sido firmados em duas décadas. Ela foi mais incisiva. “A partir de hoje, morreu”, disse, na despedida. “Essa história acaba por aqui”, repetia, muito séria.
“Como vou te tirar de dentro de mim?”, perguntou ele.

Nas longas semanas de silêncio, ele também fazia o esforço. Ao final do dia, se perguntava – “será que pensei nela hoje?”. Sim, era a resposta. Sua dúvida era saber se, em algum momento do dia, ela tinha pensado nele, para que os pensamentos se encontrassem, em algum ponto da cidade.

No último encontro dos amigos, ele bebeu para chegar ao bar com o coração entorpecido, para que a alma não o traísse. Escolheu um ponto da mesa em que não pudesse vê-la. Decidiu que não a olharia, em hipótese alguma, durante toda a noite. O cumprimento formal, gelado, era a tentativa dos dois de administrar algo que era quente, muito quente, por dentro. Ela confessaria, dias depois, que quando o viu, suas pernas tremeram. Agradeceu a Deus por estar sentada. Na despedida, ele a olhou de longe e acenou. Viu aqueles mesmos olhos e desejou cantar “pela luz dos olhos teus”.

Naquele fração de segundos, o sentimento desvendou os dois. Nada mais poderia ser feito. No dia seguinte, se falaram. Era preciso fazer algo. “Não consigo te tirar de dentro de mim”, confessou ele.

Sim, eles fizeram as escolhas e tomaram decisões. Não podiam abrir mão do sagrado, da calma que sentiam estando juntos, da plenitude que encontravam em cada palavra. Num dos encontros, ele falou ao seu ouvido o poema “Teresa”, de Manuel Bandeira. “Os céus se misturaram com a terra/E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas”, diz o final do poema, que parecia ser o que viviam. Céus e terras se misturavam.

Vinte anos depois, eles decidiram assumir o amor.

E quando estava a terminar esta crônica, me chegou um email de um amigo, com o pequeno trecho de um poema do Drummond:

“Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?”

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Anotações finais no Planalto Central

22 de março de 2007, às 7:42h por Samarone Lima

De Taguatinga-DF

Pequenas anotações aleatórias ao final do périplo por Brasília, Taguatinga e adjacências:

*O Governo do do Distrito Federal gastava R$ 120 milhões por mês com gasolina, outros tantos milhões com carros alugados. O novo governador cortou esse gasto e pagou os salários atrasados e décimo terceiro dos professores.

*Em Taguatinga, você coloca o pé na pista, e os carros vão parando, quase como um freio automático ligado no seu pé de pedestre. É uma emoção profunda, para quem é recifense, e só consegue atravessar uma avenida com a ajuda de um semáforo ou algum guarda. Vejam a ironia: quase fui atropelado no estacionamento de um shopping.

*Um amigo disse que a comida típica de Brasília é o pastel da rodoviária.

*Há quatro semanas, em um shopping do Distrito Federal, teve um “campeonato de arremesso de chinelas”, no terraço de um shopping. Não sei o nome do vencedor, estou tentando localizar no Google, colocando as palavras “chinelas+arremesso+Brasília”. Aguardemos.

*Sou informado que anualmente a cidade organiza uma “Corrida de bonecos Gigantes”. Para minha felicidade, fui informado que “O Homem da Meia Noite” ganhou o tri-campeonato. Dá-lhe Olinda!

*Um amigo dá aulas em um curso para jornalistas que vão concorrer a uma vaga na Câmara. São duas aulas semanais. Salário: R$ 6 mil.

*Irênio Alves Ramos, de 25 anos, foi preso na tarde do dia 20 de março, enquanto assistia a uma audiência pública no Congresso Nacional sobre “milho transgênico”. Era procurado desde 2005 por roubo, e condenado a seis anos e meio de prisão. Além dele, outras nove pessoas que repondem a algum tipo de inquérito, estavam na audiência.

*A cidade dos concursos tem um jornal só com os concursos do mês. Dei uma olhadinha. Há vagas para o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) para programador e técnico admnistrativo. Salários de R$ 3,5 mil e 2,5 mil.

*Uma amiga de um amigo meu paga R$ 3 mil por mês em uma Universidade.

*O ingresso para o show da Marisa Monte custou R$ 200,00.

*No jornal “Aqui”, fiquei sabendo que a primeira ambulância foi projetada em 1792 pelo barão Dominique Jean Larrey, médico de Napoleão Bonaparte. Foi criada para retirar os soldados do campo de batalha, sem aumentar seus ferimentos. Deve ter nascido aí o SAMU.

*Há algo maravilhoso em Brasília: os flamboyants que surgem do nada, e enchem os olhos de beleza.

*Bem, vou tratar de arrumar a mochila. Chega de vagabundagem.

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Anotações sobre dois vagabundos numa mansão do Lago Norte, em Brasília

19 de março de 2007, às 15:54h por Samarone Lima

De Taguatinga, DF.

Já fui a um templo de Umbanda, onde o caboclo me olhou e falou tudo sobre minha vida, já colocaram tarô e acertaram coisas sobre meu passado, presente e previsões para o futuro, já fui ao Parlamento das Religiões, um espaço imenso, para todos os credos. O Distrito Federal é um dos lugares mais espiritualizados do Brasil. Tirei uns dias para resolver umas coisas por aqui e encontrar amigos do coração, e a viagem enveredou pela sendas do misticismo. Saravá!

Ontem, fui convidado com meu amigo Gustavo para um sarau, numa das mansões do Lago Norte. A promessa era de um sarau-concerto com músicas do Astor Piazolla. Aceitamos de imediato, principalmente por conta do bandoneon do argentino.

Duas horas de carro, errando os caminhos, trocando quadras e setores, até que chegamos. O garagista, José Carlos, um sujeito negro de olhos baixos como os faróis de um Fusca 73, abriu o portão sem pressa. Ele tinha a lista dos convidados numa prancheta. Nossa amiga, que nos convidou, deu os nomes. O José Carlos perguntou se eu era Antônio Carlos, respondi que sim, entramos. Gustavo estacionou seu Ford K fechando a passagem para outros carros. Não vamos demorar, não vai atrapalhar ninguém, foi o que pensamos. Fizemos xixi no jardim mesmo.

O sarau era no primeiro piso da mansão. Já foram numa mansão? É mansão mesmo, amigos, com o “m” maiúsculo e uns três caseiros. Não cheguei a ver os cães e outros animais de toda mansão.

Quando chegamos lá, ao primeiro andar, descobri que éramos, disparado, o menor PIB da festa. Um menino tocava piano, acompanhado pela professora. Polkas, mazurkas, sonatas etc. Ele, o rapaz, tocava afetado. Aplausos frios, gelados, o que não é bom para um início de carreira.

Olhamos a vista. À frente, o famoso Lago Norte. Do outro lado, o Congresso Nacional. Fizemos logo amizade com os músicos que iriam tocar Piazolla, tão lisos quanto a gente. Músicos, vagabundos e poetas sempre se dão bem. Fizemos nosso boteco num canto mais afastado e ficamos reparando o movimento.

“É Krieg que ele está tocando”, comentou Gustavo, se exibindo.

O violinista concordou. Se os dois estivessem mentindo, eu não saberia. Fiquei na minha.

Ao final de uma sonata, creio, veio uma mulher chateada.

“De quem é o Ford K, que está atrapalhado a saída do meu carro?”

“Mal cheguei, já estou atrapalhando”, sussurrou Gustavo.

“Vai ter comida legal aqui”, lembrou o camarada do violoncelo. “Tudo na vida tem seu preço, ja diz o Orson Wells”, completou.

Não sei se foi Orson Wells ou Oscar Wilde, não anotei direito. Foi um deles, pode ter certeza. Se não foi, deve ter sido algum avô, quando a gente era pequeno.

Olho a casa. Está aqui, reunida, uma pequena parcela da elite do Distrito Federal. O lustre da casa é mais caro que meu orçameto para 2007. O mais pobre aqui vai para a Europa de mês em mês. A mesa está sendo entupida de comida. Tem vinho já dentro daqueles baldes de prata.

Eis que surge o personagem mais importante da noite, o garçom. Esbarra na mesa, quase acaba o concerto. Adoro garçom desastrado, contanto que não derube a sopa em cima de mim. Caramba, que papo de pobre esse negócio de sopa!

No intervalo, informam que está sendo servido um “pequeno lanche”. Imaginem se fosse grande. Fartura total. Bacalhau era o prato mais barato. O guardanapo era chiquérrimo, dava medo até de pegar. O vinho surge com aquela cara boa, de vinho importado. Mais que isso, de graça. Pego uma taça, estendo para uma senhora, peço um gole.

“O copo de vinho não é esse, filho”, diz ela, reconhecendo de longe um vagabundo.

“Mas não faz mal”, respondo.

Ela me serve a contra-gosto.

Gustavo dá os parabés à professora de piano pelo concerto.

“Obrigada, mas a professora é minha irmã”.

Não damos uma dentro.

O garçom reconhece os seus. Se aproxima com mais vinho. Chama-se Aristides, veio do Maranhão para Brasília em 1977. Falo que já morei em Imperatriz, também no Maranhão, ficamos amigos de infância, ele já vai no segundo casamento, “primeiro com uma potiguar, agora com uma mineira”. Até o final da festa, não faltou nada para os vagabundos.

Voltamos para nosso boteco, na varanda. O amigo violinista vem com seu instrumento, pedimos para ele tocar “Carinhoso”, ele manda ver. A noite vai ficando bonita, fazemos nossa festinha à parte, dá uma emoção danada escutar Carinhoso assim, no meio da frieza da festa. Pergunto se ele sabe tocar o hino do Santa Cruz no violino, mas ninguém é perfeito, fica para a próxima.

Nosso amigo do Violoncelo começa a segunda parte do sarau baixo-astral, acompanhando um pianista recem-chegado. O pianista explica o seguinte, antes de começar a tocar:

“O violoncelo, alegoricamente, é como se estivesse fazendo o Canto dos Cisnes, e o piano é a água”.

Ele começa a tocar “O Lago dos Cisnes”, creio, ou é o “Canto do Cisne Negro”, do Villa-Lobos, estou ficado péssimo de memória. Aristides me oferece mais vinho. Desconfio que ele quer me embebedar. Uma senhora meio obesa passa com a tatuagem dos dois filhos nas costas, que dizem ser a última moda em Brasília.

“Estou levado meus filhos nas costas”, diz.

Espero que não cobre a fatura depois.

É hora de escapar. Descubro que o José Carlos é filho de uma baiana com uma mineira.

Na volta para Taguatinga, Gustavo me explica que Brasíia e a cidade que tem mais árvores por habitante do Brasil. Acho que ele deixou o Xingu fora dessa.

Faz um vento bom, aquela brisa. Paramos num posto de gasolina, copramos duas cervejas e voltamos para casa, conversando besteiras e coisas da vida.

Para mim, a figura da noite foi o Aristides, que é de Bacabau.

Bacabau, para quem não sabe, fica perto de Santa Inês. Em Santa Inês eu fui muito, quando era pequeno, e morava em Imperatriz, no Maranhão. Agora me deu uma dúvida: será que visitei Bacabau e não lembro?

Aristides iria gostar de saber disso.

Para Pedro, recifense vagabundo e poeta, que está no Planalto Central disfarçado de jornalista.

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