Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

Apresentação


Livros do Autor


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Calendário

março 2007
D S T Q Q S S
« fev   abr »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Arquivos


Usuários online


Pequenas metáforas

15 de março de 2007, às 21:56h por Samarone Lima

Essa é uma crônica antiga, de 13 de maio de 2005, quando eu escrevia para o JC On Line. Foi incluída no livro “Estuário”, que ando vendendo a conta-gotas. Acho que serve para o momento, enquanto arrumo as malas para ir a Brasília.
***

Aprendi a andar de bicicleta numa Monareta roxa, quando morávamos em Imperatriz, no Maranhão. Lembro com uma riqueza de detalhes o dia da compra da bicicleta, e até hoje o nome “Monareta”, significa algo que transita entre o presente e o aprendizado. Porque bicicleta, para criança, é festa, mas é lição. Tem que aprender a se equilibrar, começar a seguir devagar e depois pedalar. Num instante, aquelas mãos importantes que davam segurança, ajudavam a sustentar, já não estão. É a hora de pedalar sozinho, cabelo ao vento, sentindo a liberdade da viagem solitária. Minha filosofia de sandália havaiana e bermudão informa – bicicleta foi a primeira metáfora que aprendi na vida. Não conheço ninguém saudável que não tenha levado suas quedas, antes de seguir sozinho.

Nesta mesma época, fomos informados (eu e os dois irmãos mais velhos), que faríamos uma viagem para um lugar muito longe e bonito. Passamos uma madrugada inteira surtados, separando brinquedos, objetos, separando roupas, não lembro se discutimos ou se brigamos, e amanhecemos exaustos mas eufóricos. As nossas bagagens estavam prontinhas. Parecia que estávamos a caminho do Everest, dado o volume de roupas e brinquedos. Estávamos tomando nosso cafezinho básico, quando fomos informados que a viagem fora cancelada por algum motivo que também não lembro. Depois disso, eu só acredito numa coisa quando ela acontece. Não sei se isso tem alguma metáfora, pode ser só trauma mesmo.

Lá pelos 11 anos, já morando em Fortaleza, tinha uma viagem de trem rumo ao Crato, meu torrão natal. O trem era azul, e por isso, foi batizado popularmente de “Sonho azul”. Caramba, quando eu recebia a informação que viajaríamos no “Sonho Azul”, a vida ficava imediatamente azul. Eu ficava um menino azul. Acho que não tem metáfora nenhuma aí, só beleza e saudade.

Não lembro bem a idade, mas a cena me deixou paralisado. Era uma guerra na Nicarágua, creio, e um repórter vem se arrastando pela rua. Ele está com uma bandeirinha branca na mão, uma frágil bandeirinha branca, que significa paz, vem se arrastando e está desarmado. Estou vendo a cena, tenho uns 12 anos, talvez, sei lá. Vem um soldado, se aproxima e dá um tiro à queima-roupa na cabeça do jornalista. Fiquei muito chocado com a cena. Não entendia como o soldado podia fazer aquilo com alguém indefeso. Metáfora da maldade humana, talvez, mas acho também que não era o momento de ver aquilo. Eu também era muito indefeso.

Isso foi aos 18, quando tinha acabado de chegar ao Recife. O dono da empresa onde eu trabalhava sabia que eu gostava de escrever poesias nas horas vagas. Certo dia, terminando de montar umas prateleiras numa farmácia, todo sujo, fodido, cansado, fedido, vi o camarada chegar com sua maleta de couro. Ele se aproximou, deu um sorriso e falou, olhando de cima pra baixo:

“Tás vendo o que é poesia?”

Foi só sacanagem mesmo, acho que não tem metáfora. Mas informo que ainda escrevo poesia sim.

Estava com 24 anos, feliz da vida no meu primeiro jornal, quando meu chefe resolveu botar pra quebrar em mim. A solada foi tão grande, que só me restava pedir demissão ou aceitar que uns fodem e outros serão sempre fodidos, como bezerrinhos, ou como as focas, que batem palma por tudo. No dia em que fui saindo de casa, quando morava com minha tia-avó, Flocely, ela me sorriu e disse:

“Quem se abaixa muito, as calças aparecem”.

Ao invés de ir para a redação, fui direto ao departamento de pessoal e pedi demissão. No dia seguinte, chegou uma proposta para trabalhar em São Paulo. Tem metáfora ai? Tem sim. A palavra amorosa, dita no momento certo, fica grudada na alma.

Trabalhava num jornal em São Paulo, e uma amiga estava com o avô, muito querido, na UTI, ela sofrendo muito. Até que um dia, cheguei à redação e recebi a informação:

“O avô de Camila morreu”.

Nunca sei o que dizer na hora da morte. Geralmente fico mudo, dou um abraço, porque detesto dizer “meus pêsames”. No outro dia, encontrei Camila de repente, e falei, sem perceber:

“Deu zebra, né, Camis?”

Pensei logo “que merda eu falei”. Ela falou do avô, relembrou coisas dele, a conversa foi mansa e triste. Mais mansa que triste, penso. No dia seguinte, ela chegou à redação com uma camisa que tinha uma zebra. Disse que lembrou de mim, porque tinha tratado a morte do avô com leveza. A metáfora da morte como “zebra”, que parecia fora de propósito, acabou nos tornando mais próximos.

Então vou fazer o seguinte – vou aqui fechar os olhos, rever aquela monareta roxa, me ver dentro daquele “Sonho Azul”, seguindo para o Crato, e fazendo aquela viagem com os manos, para o lugar distante e bonito. Depois, vou rever Camila, tia Flocely, e colocar todas as pessoas queridas dentro do mesmo vagão. E quando algo der errado em minha vida, algo muito triste e doloroso, vou dizer:

“Deu zebra”.

Tentando ser mais manso que triste, mas lembrando do sonho, que é sempre azul.

Postado em Crônicas | 12 Comentários »