Bruno, o filho de uma pequena história de amor
Samarone Lima
Em dezembro de 2004, publiquei na coluna “Estuário”, do JC On Line, a crônica “Pequenas histórias de amor - volume I”. Fez um sucesso danado, porque é daquelas histórias que atravessam o tempo, sem perder a essência. Não citei os nomes, porque tudo estava ainda muito delicado, e o mais importante não era propriamente os nomes, mas o que estava por trás de tudo, que era o amor.
Neste sábado, fui ver o Bruno, filho de Inácio e Geórgia, fruto dessa pequena história de amor. O garoto, mesmo puxando ao Inácio, é lindo. A mãe estava zen, totalmente zen, para não dizer feliz, totalmente feliz. Bebi três cervejas, comemos costela no bafo com os avós e depois fui embora.
Repito a crônica, numa pequena homenagem ao Inácio, à Geórgia e ao Bruno.
E continuo chamando de pequena história de amor. É parte do meu encanto permanente com as coisas miúdas, do tamanho de uma semente.
***
Pequenas histórias de amor – Volume I
Recife, 24 de dezembro de 2004.
Ele descobriu que a amava quando tinha 15 anos, em 1984. Ela estudava na mesma turma, e quando entrava na sala de aula, ele cantarolava intimamente “pela luz dos olhos teus”, porque havia algo de encantador nos seus olhos, no que eles diziam, uma ternura que cativava aquele coração tão moço. Ele lembra, vinte anos depois, do dia em que ela fez circular um caderninho para os amigos deixarem mensagens, e atravessando a fronteira da timidez, escreveu “você é meu único e definitivo poema”. Depois disso, eles desencontraram.
Ele entrou na faculdade e, como me disse há poucos dias, se distraiu das coisas do amor. Conheceu outras mulheres, se encantou com algumas, mas nenhuma tinha aqueles olhos. Se reencontraram anos depois, quando ela terminou a faculdade. A última cena deste novo contato foi ela se beijando com um sujeito, no baile de formatura. Como queria estar naquele lugar!
Os dois casaram e não se viram mais. Aqui e ali, nos encontros com os amigos da turma, uma notícia esporádica. Somente em 2001 voltaram a se ver, num encontro dos velhos amigos, para cativar lembranças. Na primeira vez que o viu, depois de tantos anos, ela comentou com uma amiga– “o menino virou homem”. A resposta da amiga acendeu alguma chama que ela nunca percebera – “o teu apaixonado chegou”. Surpresa em saber daquele amor silencioso, ela ficou em silêncio, achando-o mais belo.
“Aquela frase da amiga foi um sopro divino”, me disse ele, repassando os detalhes da história, enquanto tomávamos uma cerveja.
Mas a vida seguia outros cursos. Tinham compromissos, casamento, filhos. Em 2002, voltaram a se encontrar. Pare ele, já não era tão fácil olhá-la nos olhos. E a turma, sem perceber que alimentava um sentimento que parecia perdido, colaborou para que voltassem a se ver. Um novo encontro, em 2003, serviu para que ele confirmasse que aquele menino estava vivo, dentro de sua alma, querendo amar plenamente.
Em 2004, por uma desculpa qualquer que sempre encontramos, quando queremos algo de verdade, almoçaram juntos. Ao final da longa e cativante conversa, ela perguntou:
“Você sentia alguma coisa por mim naquela época?”
“Eu era muito apaixonado por tu”, respondeu ele.
Algo rompera na timidez dele. Ela agora sabia de algo secreto, que ele trazia há muitos anos. Voltaram a falar de literatura, cinema, dos caminhos profissionais, mas algo já tinha sido dito, e era irreversível. Pronunciaram, timidamente, o nome do amor.
Quando se encontraram novamente, nada mais poderia ser feito. Os dois se queriam tanto, que quando ele a abraçou, sentiu que estava protegido, acolhido, que aquele era o melhor lugar do mundo para estar.
Os mundos que viviam exigiam outras respostas. Sim, os compromissos, outros laços haviam sido firmados em duas décadas. Ela foi mais incisiva. “A partir de hoje, morreu”, disse, na despedida. “Essa história acaba por aqui”, repetia, muito séria.
“Como vou te tirar de dentro de mim?”, perguntou ele.
Nas longas semanas de silêncio, ele também fazia o esforço. Ao final do dia, se perguntava – “será que pensei nela hoje?”. Sim, era a resposta. Sua dúvida era saber se, em algum momento do dia, ela tinha pensado nele, para que os pensamentos se encontrassem, em algum ponto da cidade.
No último encontro dos amigos, ele bebeu para chegar ao bar com o coração entorpecido, para que a alma não o traísse. Escolheu um ponto da mesa em que não pudesse vê-la. Decidiu que não a olharia, em hipótese alguma, durante toda a noite. O cumprimento formal, gelado, era a tentativa dos dois de administrar algo que era quente, muito quente, por dentro. Ela confessaria, dias depois, que quando o viu, suas pernas tremeram. Agradeceu a Deus por estar sentada. Na despedida, ele a olhou de longe e acenou. Viu aqueles mesmos olhos e desejou cantar “pela luz dos olhos teus”.
Naquele fração de segundos, o sentimento desvendou os dois. Nada mais poderia ser feito. No dia seguinte, se falaram. Era preciso fazer algo. “Não consigo te tirar de dentro de mim”, confessou ele.
Sim, eles fizeram as escolhas e tomaram decisões. Não podiam abrir mão do sagrado, da calma que sentiam estando juntos, da plenitude que encontravam em cada palavra. Num dos encontros, ele falou ao seu ouvido o poema “Teresa”, de Manuel Bandeira. “Os céus se misturaram com a terra/E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas”, diz o final do poema, que parecia ser o que viviam. Céus e terras se misturavam.
Vinte anos depois, eles decidiram assumir o amor.
E quando estava a terminar esta crônica, me chegou um email de um amigo, com o pequeno trecho de um poema do Drummond:
“Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?”
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25 de março de 2007, às 16:27h
que pode um homem senão na vida amar?
que pode um homem na vida senão buscar o amor, o seu…
mesmo que ridículo amor
ainda assim…amor.
agora o amor tem o nome de Bruno
e em tantos nomes que tem
jamais deixará de ser Uno.
25 de março de 2007, às 17:26h
Parabéns a Inácio e Geórgia, Sama, e a Bruno também por ser fruto do amor.Felicidades! Beijos. Magna
Obs.:bom demais reler esta história.
25 de março de 2007, às 20:33h
ao amor. por amor. com amor. tudo. sempre. o passo. o beijo. o gesto. a cor. o silêncio. podes ouvir a sua voz? sentes o seu cheiro? então sim, estás vivo.
sim, estás vivo! essa é das minhas preferidas.
un petit bisou pour toi
25 de março de 2007, às 21:28h
Sama, meu querido, lembro daquele dia em que foi publicada essa pequena história de amor. Seu texto é tão lindo que relendo hoje, senti a mesma emoção. E o amor de Inácio e Geórgia tinha mesmo que originar Bruno, bendito fruto. É bom partilhar de fatos tão humanos e, ao mesmo tempo, tão divinos que só o amor é capaz, como o brilho dos olhos, o tremor das pernas, o acelerar do coração… e o nascimento de uma nova vida. Parabéns a você, poeta. Parabéns a seus amigos que acabam sendo também nossos. Que a força desse amor seja capaz de espalhar uma centelha de paz nesse mundo tão conturbado e tão violento.
Um cheiro, de mãe.
26 de março de 2007, às 8:10h
Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar
Meu amor juro por Deus
Me sinto incendiar
Meu amor juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais la ra ra ra…
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor e só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar
26 de março de 2007, às 8:21h
“Sobre essa cidade eu já estou pronta
Pra viver a minha idade
Pra entender a liberdade
Pra contar pros nossos filhos
Uma história de amor
E até, quem sabe, pra fazer o amor
E é bem capaz de gente ser assim…”
A Tarde - Francis Hime (trecho)
Beijinho, Bruno.
Adri
26 de março de 2007, às 10:11h
Ótimo, os leitores todos estão no clima amoroso.
Viva!
Samarone
26 de março de 2007, às 13:44h
Perdão, amei!
Devo pedir perdão aos deuses por amar demais?
Assim como o pecado, o amor dói, castiga
É um demônio disfarçado de anjo
Que me encanta, me engana, me cega, me deixa vulnerável demais para perceber que…
É um demônio disfarçado de anjo
Que deseja minha alma, os meus olhos, os meus sentidos.
Peço perdão à minha alma por ter pecado
Se coragem tive em amar, que a dor me console
Até que ame novamente.
26 de março de 2007, às 13:51h
“…e que a minha loucura seja perdoada, pois, metade de mim é amor e a outra metade também”.
Oswaldo Montenegro
26 de março de 2007, às 16:53h
Georgia e Inácio, parabéns pela história que vcs se permitiram escrever. Essa história tão linda sobre o amor!
Parabéns pelo fruto dessa história, o Bruno. Que ele seja bem vindo e traga muita paz pra todos vcs.
E vc Samarone, parabéns por nos proporcionar novamente o prazer de reler esse texto.
Abraços a todos vcs.
27 de março de 2007, às 0:59h
Li “Pequenas histórias de amor – Volume I” no JC e acho que foi ali que me encantei com vc!
Muito bom reler!
27 de março de 2007, às 12:48h
Deu-se que a beleza, compartilhada no momento certo, ficou grudada na alma da gente.
Adri
28 de março de 2007, às 10:42h
Vixe, que chega fiquei toda arrepiada.
29 de março de 2007, às 18:38h
ô meu deus…
meu coração se encheu de ternura agora…
9 de abril de 2007, às 12:16h
Siempre que visito o resido por algún tiempo en algún lugar de Brasil, siento el amor de una forma muy viva. Lembro de Natal, de Recife, de Porto Alegre, de Rio de Janeiro, de Niteroi. É como si o amor fosse o mesmo, mais com cara diferente e nome diferente. Sinto que na realidade é o mesmo amor, ou talvez um grande e hermoso sentimento de se sentir amado. Obrigado don Samarone! Desde o Caribe um grande e cálido abraço!
12 de abril de 2007, às 16:02h
Um amor calmo, manso…
O que pode ser melhor que isso?