Estou escapando por um fio
Samarone Lima
Amigos leitores, pela leitura dos jornais de Pernambuco, cada dia descubro que estou vivo por um fio, um acidente, um descuido ou excesso de atuação do meu anjo da guarda.
Na terça-feira, lendo o Diário de Pernambuco, descobri que foram assaltados 1.822 ônibus, na Região Metropolitana do Recife (dados da EMTU). Eu, que sou um passageiro contumaz, fiquei de cabelos em pé, o que chega a ser uma redundância. Então escapei mesmo fedendo, porque não estava em nenhum desses coletivos.
A coisa começou a ficar complicada mesmo quando olhei a lista das dez linhas mais assaltadas. A lendária “Centro do Cabo”, que utilizo umas três vezes por semana, abocanhou o segundo lugar (a EMTU não revelou quantas vezes os passageiros foram vítimas de assaltos). Novamente, eu não estava. A minha bucólica linha de ônibus, que percorre estafantes 35 quilômetros, só perdeu em assaltos para a linha “Zumbi do Pacheco/Barro”.
Fui olhar o restante das linhas, e quase choro. A linha “Cabo/Cohab” pegou o quinto lugar, e a linha “Cabo/Aeroporto”, que utilizo quando chego de viagem, ficou em nono lugar. Rapaz, estou metido numa baita fria!
Como sou muito curioso, fui ver as dez vias com maior frequência de assalto. Em primeiro lugar, a BR-101 Sul, que é o caminho para ir ao Cabo, onde estou morando. Já acendi minhas velas e fiz as primeiras orações, pedindo proteção extra.
A matéria diz que vão gastar um dinheirão com câmeras nos veículos. Hoje, 383 ônibus já têm câmeras. Até o final do ano, vão instalar outras 617 e mais 300 rastreadores. Até o final do ano, querem botar câmeras na frota toda, 2.700 veículos. Ou seja, aquela lenga-lenga de sempre, esse negócio de botar equipamentos, para tapar o sol com a peneira, de termos certamente uma das mais violentas e piores polícias do Brasil.
De formas que se você, caro leitor, estiver em seu possante carro na BR 101-Sul, e passar pelo ônibus Centro do Cabo, saiba que pode estar passando por um camarada em apuros, tentando esconder seus trocados para os ladrões não levarem tudo.
Mas pelo menos estou sendo filmado, uma coisa inútil, mas eu adoro coisas inúteis, o Manoel de Barros aproveita coisas inúteis para a poesia.
“Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última”.
(Manuel de Barros)
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