Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Viva a vida!

30 de abril de 2007, às 16:59h por Samarone Lima

Caros leitores,

Depois de 11 dias de hospital, 1.018 quilômetros rodados, acabo de retornar ao Cabo, com a tia-avó Floscely, que recebeu alta. Ela é mesmo raçuda, aos 80 anos.

Vou tomar umas e outras para comemorar.

Amanhã volto às crônicas.

Viva a vida!

Samarone.

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Quando tudo fica azul

25 de abril de 2007, às 19:56h por Samarone Lima

Madrugada no hospital todo mundo sabe como é. Aquele silêncio, aquele clima de que algo está em suspenso, como se o sono da gente tivesse um lençol amarrotado, sem caber no corpo, ou um travesseiro de pedra, com a ponta no cocoruto da gente.

A enfermeira Áurea está dormindo, não sei onde anda o enfermeiro-chefe, lembro que minha mãe é auxiliar de enfermagem, e já sinto um carinho enorme por todos os que viram madrugadas no mundo. Dou uma volta, dá uma pena acordar, mas tenho que acordar, para trocar lençóis, ver o soro da tia, essas coisas de quem tem um parente num hospital.

Depois de um vuco-vuco intenso, tudo se acerta, tia sente dores mas não reclama, é raçuda mesmo, veio de Exu, misturou-se com as entranhas do Crato, então o sangue é quente e forte, cheio de fibra misturado com seu caráter.

Quando a enfermeira vai saindo, tia se vira e fala, com seu humor divino:

“Precisando de qualquer coisa, é só falar comigo”.

Todos rimos: eu, a enfermeira e a tia, de 80 anos.

Começamos a rir. Acho que eram duas da madruga, mais uns minutinhos, que não curto hora exatinha.

Perguntei no seu ouvido, bem no ouvido, se estava tudo bem.

“Está tudo azul”, respondeu ela, antes de cochilar.

De um lado, o soro. De outro, um negócio no dedo, marcando a pulsação. Mil dores nas costas e uma hemodiálise agendada para a tarde, e do nada surge um “tudo azul”.

De repente, ficou mesmo tudo azul, demos um pontapé na maré braba, já pensamos na alta.

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Carta ao amigo

23 de abril de 2007, às 22:18h por Samarone Lima

Amigo, já não quero o auto-controle
de quem carrega rédeas de estimação
venho de um budismo cansado
de uma yoga incompleta
os olhos já não se impacientam
se envaidecem o tempo de um eclipse

Sei de alguns cabelos brancos
como os fios de minha ausência
o desejo expirado por uma cama
de campanha
onde o corpo se desdobra às cegas

Tentei de tudo para avançar centímetros
como um pelotão à espera da ordem de ataque
de um comandante já falecido

Bebi água salobra de corpos
que me encontraram indefeso

Minha porcelana é como a tua:
há dias em que me quebro
nas mãos de uma velha criada
e não sei juntar os pedaços
com meus ossos trêmulos e em farelos

Pouso meus olhos
em algum lugar fácil
e sinto a textura de uma estação abandonada
a Gare de Astapolvo do poeta perdido

Aqueço derrosta na algibeira
escuto sentenças como uma mãe
que recebe golfadas do filho ausente

Ali onde nasci já não existem palavras
mas um trem que admite minha presença
sem documentos, sem bagagens, sem ânsia de nada

Vou por aqui, amigo
levou tuas cartas como um abrigo
e termino a noite com um soluço
no intervalo entre dois vagões
onde está um moço que foge da guerra
e fuma seu cigarro antigo
no intervalo das batalhas por viver

Cabo de Santo Agostinho, 20 de abril de 2007

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Onde estão os médicos?

23 de abril de 2007, às 21:39h por Samarone Lima

Desde quinta-feira faço uma peregrinação com uma tia-avó de 80 anos, com problemas renais, que resultaram num processo de hemodiálise, uma infecção urinária e muitas dores. Ao final de todo este processo, exausto, eu me pergunto:

Onde estão os médicos?

Não se trata apenas de ser um atendimento em hospital público (minha tia é aposentada pelo estado como diretora de escola), porque no sábado à noite, conseguimos uma transferência para um hospital particular. Os procedimentos médicos são semelhantes: frios, alheios, rápidos. Para muitos, o paciente é um incômodo.

Desconfio que a exemplo do Jornalismo, a Medicina está meio esquizofrênica: perdeu-se do humano.

Tia Flocely foi atendida por vários médicos, em diferentes plantões. Estive ao seu lado, em todos eles. Apenas uma, de um total de cinco ou seis, teve a coragem de olhá-la nos olhos e perguntar, com carinho, como estava se sentindo. Tia me olhou, surpresa, e depois comentou:

“Essa médica é diferente, né?”

Seria cômico se não fosse trágico, mas relatei a uma médica do Ipsep todo o caso da tia, o problema renal crônico, a falta de apetite, ânsias de vômito, o que indicavam uma falência do rim, e a médica não teve dúvidas:

“Isso deve ser uma virose”.

Aproveitou e passou remédios para verme.

Hoje, a consulta durou cronometrados quatro minutos e meio. Tia reclamou de dores fortíssimas nas costas, o médico, que parecia ter marcado uma pelada à beira da praia com os amigos do dominó, apertou com tanta força, que ela deu um grito e se arrependeu. Ele saiu sem dizer até logo. Creio que foi buscar suas chuteiras.

Algo estranho está acontecendo. Falta aos médicos uma pequena, mínima, essencial delicadeza. Aliás, algumas delicadezas. Perguntar o nome do paciente. Olhá-lo nos olhos. Dizer um bom-dia. Colocar uma mão no ombro. Isso não tem a ver com salários, más condições, excesso de plantão. Tem a ver com o compromisso básico da Medicina, que é cuidar dos seres humanos. Tem a ver com o trato com pessoas que estão sofrendo, e querem, às vezes, apenas uma palavra de conforto, de carinho.

No meio deste vendaval, aparece a doutora Bebete Molina e o Rafael Pacífico. Não fosse a delicadeza, a gentileza, a atenção e disponibilidade deles, nem sem como estaria a Flocely – nem eu.

Mas continuo com a minha pergunta, após cinco dias percorrendo hospitais e enfermarias:

Onde estão os médicos?

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O segredo

20 de abril de 2007, às 17:17h por Samarone Lima

O dia fatal chegou. A tia-avó começou a hemodiálise, depois de uma semana em crise renal. Como sempre, ela enfrentou com raça o vendaval, a notícia, o catete, as duas horas com a máquina limpando o sangue, a noite infernal no Hospital do Ipsep, outra hemodiálise no dia seguinte. Rosa, seu braço direito há mais de dez anos, soltou lágrimas silenciosas, quando a Flocely entrar para a primeira sessão, um choro triste, da alma, inconsolável. Esses que sofrem em silêncio é que salvam o mundo.

Durante dois dias, acompanhei as jornadas da tia, vendo o sofrimento dos que dependem de ambulâncias, os que chegaram aos 60, 70 anos com as muitas seqüelas do que País como o nosso faz com seu povo. Não é o caso dela, felizmente, mas estivemos juntos, neste mundo dos doentes.

À noite, na sala da hemodiálise, cansado de ler, de tomar notas para eventuais crônicas, rabiscar poemas sem futuro, me deparei com um senhor, na faixa dos 65 anos. Tinha acabado de sair da sua sessão de hemodiálise, estava em uma cadeira de rodas. Não tinha ninguém esperando por ele. Era calvo, mais para branco, cansado, tinha uma sobra de barba e usava bigode. Era um homem gasto pelo tempo, ou por alguma coisa que agora não sei o nome.

Ele comeu a janta, servida em uma quentinha. Comeu sem pressa, mas sem fome, sem ritmo, aos bocados, como um passarinho com dentes. Ao lado, a secretária do Sassepe, eu, uma senhora que de tempos em tempos falava com alguém da família aos berros, e uma TV, ligada na programação da noite. Chovia muito no Recife e fazia frio até na alma, por causa do ar-condicionado.

O homem terminou de comer, botou as sobras da quentinha junto à mesinha do café, a essa hora sem café, e não vi se ele limpou a boca com a dobra da camisa. Depois ficou quieto.

Então ele me olhou, e pela primeira vez nos encontramos. Sei reconhecer olhares, e esse camarada tinha um desamparo cravado na alma. Era um olhar triste, sustentado por alguma dor. Resisti por alguns segundos, mas doía muito encarar tanta tristeza. Era como se ele quisesse (ou precisasse) dizer algo importante para um desconhecido, que pousava pela primeira vez em seu território. Havia nele um desejo de confissão.

Depois ele baixou os olhos, certamente desapontado com minha falta de sustentação. Mas eu me perdoei, porque às vezes dói essa partilha. E uma retribuição que deixa coisas na gente. Nesta noite, eu não tinha muito a oferecer, a não ser meu desalento.

Mais tarde, chegou sua esposa e o irmão, creio. O trataram com aquela alegria de quem está vivo, após uma sessão de hemodiálise, num dia de chuvas grossas no Recife, onde tudo fica inundado. O cobriram bem, para não molhar um curativo, que fica no pescoço.

À saída, sua esposa pediu meu guarda-chuva emprestado, para o marido não se molhar. Emprestei com um sorriso. Ele foi saindo, sendo empurrado na cadeira de rodas do hospital.

Ele entrou no carro sem um pingo de chuva no corpo. Estava protegido, eu sei, mas havia algo de abandonado nele.

Me deu a impressão de que aquele homem não tinha ninguém que o escutasse. Talvez fosse esse o segredo que não escutei.

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