As lembranças como flores
Samarone Lima
Se eu fosse escrever um livro de auto-ajuda, iria ser algo do tipo “Escute as histórias dos velhos de sua família”. Mas não tenho planos de adentrar no ramo da auto-ajuda, de formas que me limito às minhas cronicazinhas de sempre, aqui neste Blog, que agora vai com 62 leitores (soube que a Bete da Mata e a Ana Luiza estão lendo também).
É porque ando tendo longas conversas com a minha tia-avó, dona Flocely, que rompeu em janeiro a casa dos 80. De saúde, não vai nada bem. O único rim, descoberto ano passado, está capengando, as dores na coluna são imensas, fora as noites de insônia. Mas a cabeça continua bem, ela lembra de tudo. Quando esquece o nome de um parente distante, um primo em algum lugar ermo, acha que está sem memória nenhuma.
A janta é sempre o melhor momento, quando estamos sozinhos, a TV está desligada, a rua é silenciosa, e tem grilo por todo lado, no terreninho ao lado da casa. Mas grilo é um animal sentimental, baixa o tom na hora do sentimentos. Pergunto algo simples, sobre o meu avô, por exemplo, que não conheci. Então a tia começa a contar diversas histórias da família, coisas que eu nunca imaginava. Fala como era meu avô, aventureiro, que gostava de andar pelo mundo, e morreu moço, no Rio de Janeiro. Outro dia, encontrei uma foto dele, foi aquele impacto, algo do tipo “então é você, meu velho…”
Não troco nenhum noticiário, nenhuma novela, nenhum filme pelas conversas com a tia. Outro dia fiquei sabendo da história de amor do meu pai e minha mãe, um troço incrível, que envolveu o afastamento intencional para o Cabo minha avó não queria o romance), uma carta mandada de amor que chegou por um amigo misterioso, pretendentes rondando etc. No final, minha mãe se invocou, disse que o cara era aquele mesmo, e voltou para o Crato, onde o fato foi consumado. Graças a Deus, porque se ela tivesse ficado por aqui, eu poderia nem ter nascido, para escrever minhas besteiras.
Para que servem essas histórias, essas lembranças?
Servem para me situar no mundo, para entender certas coisas de minha família, olhar com mais afeto as pessoas que construíram esta teia, que me ajudaram a ser quem sou, com as qualidades e defeitos. Acho que entra perdão no meio de tudo, a gente aprende a ver, pelas histórias de vida, as limitações de cada um, situado em um tempo, em um contexto.
Talvez esteja compensando intimamente esta falta dos velhos em minha vida. Não conheci os avôs, convivi somente com minha avó Zeneuda (irmã de Flocely), e esporadicamente pedia a bênção à minha avó, Waldelice. Os velhos sempre ensinam as coisas de outro jeito, meio que por parábolas, e gosto muito disso.
Na verdade, gosto de gente velha. Não suporto essa frescurite de “Terceira Idade”, ou “Melhor Idade”. Velho é uma palavra linda, que tem força. Gosto de cidades velhas, de rostos envelhecidos, de cabelos brancos, das rugas. Cada ruga tem sua história, sua dor, sua saudade. Gosto de livro velho, de foto velha, de carro velho, de rua velha. Gosto da palavra velho.
Quem não tem um “velho amigo?”. Quem não chama com carinho “Meu velho”, o seu pai? Quem não lembrou do “velho e bom” fulano de tal, que era o tio mais querido da família?
Dizem alguns da família e amigos mais próximos, que vim ao Cabo de Santo Agostinho, a 35 quilômetros do Recife, para “cuidar da tia”, que está com muitos problemas de saúde, cansada etc. É como se fosse uma filantropia fajuta, que não me agrada.
Estou ajudando uma pessoa que amo muito, levo ao médico, vejo a pressão a cada três dias, mas está havendo, na verdade, uma troca.
A tia me dá de presente as suas lembranças, e eu as recebo como quem ganha flores no meio de uma tarde triste.
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