O segredo
Samarone Lima
O dia fatal chegou. A tia-avó começou a hemodiálise, depois de uma semana em crise renal. Como sempre, ela enfrentou com raça o vendaval, a notícia, o catete, as duas horas com a máquina limpando o sangue, a noite infernal no Hospital do Ipsep, outra hemodiálise no dia seguinte. Rosa, seu braço direito há mais de dez anos, soltou lágrimas silenciosas, quando a Flocely entrar para a primeira sessão, um choro triste, da alma, inconsolável. Esses que sofrem em silêncio é que salvam o mundo.
Durante dois dias, acompanhei as jornadas da tia, vendo o sofrimento dos que dependem de ambulâncias, os que chegaram aos 60, 70 anos com as muitas seqüelas do que País como o nosso faz com seu povo. Não é o caso dela, felizmente, mas estivemos juntos, neste mundo dos doentes.
À noite, na sala da hemodiálise, cansado de ler, de tomar notas para eventuais crônicas, rabiscar poemas sem futuro, me deparei com um senhor, na faixa dos 65 anos. Tinha acabado de sair da sua sessão de hemodiálise, estava em uma cadeira de rodas. Não tinha ninguém esperando por ele. Era calvo, mais para branco, cansado, tinha uma sobra de barba e usava bigode. Era um homem gasto pelo tempo, ou por alguma coisa que agora não sei o nome.
Ele comeu a janta, servida em uma quentinha. Comeu sem pressa, mas sem fome, sem ritmo, aos bocados, como um passarinho com dentes. Ao lado, a secretária do Sassepe, eu, uma senhora que de tempos em tempos falava com alguém da família aos berros, e uma TV, ligada na programação da noite. Chovia muito no Recife e fazia frio até na alma, por causa do ar-condicionado.
O homem terminou de comer, botou as sobras da quentinha junto à mesinha do café, a essa hora sem café, e não vi se ele limpou a boca com a dobra da camisa. Depois ficou quieto.
Então ele me olhou, e pela primeira vez nos encontramos. Sei reconhecer olhares, e esse camarada tinha um desamparo cravado na alma. Era um olhar triste, sustentado por alguma dor. Resisti por alguns segundos, mas doía muito encarar tanta tristeza. Era como se ele quisesse (ou precisasse) dizer algo importante para um desconhecido, que pousava pela primeira vez em seu território. Havia nele um desejo de confissão.
Depois ele baixou os olhos, certamente desapontado com minha falta de sustentação. Mas eu me perdoei, porque às vezes dói essa partilha. E uma retribuição que deixa coisas na gente. Nesta noite, eu não tinha muito a oferecer, a não ser meu desalento.
Mais tarde, chegou sua esposa e o irmão, creio. O trataram com aquela alegria de quem está vivo, após uma sessão de hemodiálise, num dia de chuvas grossas no Recife, onde tudo fica inundado. O cobriram bem, para não molhar um curativo, que fica no pescoço.
À saída, sua esposa pediu meu guarda-chuva emprestado, para o marido não se molhar. Emprestei com um sorriso. Ele foi saindo, sendo empurrado na cadeira de rodas do hospital.
Ele entrou no carro sem um pingo de chuva no corpo. Estava protegido, eu sei, mas havia algo de abandonado nele.
Me deu a impressão de que aquele homem não tinha ninguém que o escutasse. Talvez fosse esse o segredo que não escutei.
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