Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Quando tudo fica azul

25 de abril de 2007, às 19:56h por Samarone Lima

Madrugada no hospital todo mundo sabe como é. Aquele silêncio, aquele clima de que algo está em suspenso, como se o sono da gente tivesse um lençol amarrotado, sem caber no corpo, ou um travesseiro de pedra, com a ponta no cocoruto da gente.

A enfermeira Áurea está dormindo, não sei onde anda o enfermeiro-chefe, lembro que minha mãe é auxiliar de enfermagem, e já sinto um carinho enorme por todos os que viram madrugadas no mundo. Dou uma volta, dá uma pena acordar, mas tenho que acordar, para trocar lençóis, ver o soro da tia, essas coisas de quem tem um parente num hospital.

Depois de um vuco-vuco intenso, tudo se acerta, tia sente dores mas não reclama, é raçuda mesmo, veio de Exu, misturou-se com as entranhas do Crato, então o sangue é quente e forte, cheio de fibra misturado com seu caráter.

Quando a enfermeira vai saindo, tia se vira e fala, com seu humor divino:

“Precisando de qualquer coisa, é só falar comigo”.

Todos rimos: eu, a enfermeira e a tia, de 80 anos.

Começamos a rir. Acho que eram duas da madruga, mais uns minutinhos, que não curto hora exatinha.

Perguntei no seu ouvido, bem no ouvido, se estava tudo bem.

“Está tudo azul”, respondeu ela, antes de cochilar.

De um lado, o soro. De outro, um negócio no dedo, marcando a pulsação. Mil dores nas costas e uma hemodiálise agendada para a tarde, e do nada surge um “tudo azul”.

De repente, ficou mesmo tudo azul, demos um pontapé na maré braba, já pensamos na alta.

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