Quando tudo fica azul
Samarone Lima
Madrugada no hospital todo mundo sabe como é. Aquele silêncio, aquele clima de que algo está em suspenso, como se o sono da gente tivesse um lençol amarrotado, sem caber no corpo, ou um travesseiro de pedra, com a ponta no cocoruto da gente.
A enfermeira Áurea está dormindo, não sei onde anda o enfermeiro-chefe, lembro que minha mãe é auxiliar de enfermagem, e já sinto um carinho enorme por todos os que viram madrugadas no mundo. Dou uma volta, dá uma pena acordar, mas tenho que acordar, para trocar lençóis, ver o soro da tia, essas coisas de quem tem um parente num hospital.
Depois de um vuco-vuco intenso, tudo se acerta, tia sente dores mas não reclama, é raçuda mesmo, veio de Exu, misturou-se com as entranhas do Crato, então o sangue é quente e forte, cheio de fibra misturado com seu caráter.
Quando a enfermeira vai saindo, tia se vira e fala, com seu humor divino:
“Precisando de qualquer coisa, é só falar comigo”.
Todos rimos: eu, a enfermeira e a tia, de 80 anos.
Começamos a rir. Acho que eram duas da madruga, mais uns minutinhos, que não curto hora exatinha.
Perguntei no seu ouvido, bem no ouvido, se estava tudo bem.
“Está tudo azul”, respondeu ela, antes de cochilar.
De um lado, o soro. De outro, um negócio no dedo, marcando a pulsação. Mil dores nas costas e uma hemodiálise agendada para a tarde, e do nada surge um “tudo azul”.
De repente, ficou mesmo tudo azul, demos um pontapé na maré braba, já pensamos na alta.
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25 de abril de 2007, às 23:46h
Querido Samarone,
Desejo que sua tia fique bem de saúde para continuar espalhando esse bom humor que vc descreve que lhe é peculiar.
Força e muito bom para tornar as coisas azuis.
Abraços,
Eu
26 de abril de 2007, às 0:36h
Samarone… sou seu velho fã desde que vc era colunista do JC… suas cronicas me inspiram… hoje estou como sua tia: internado… mas bem longe da minha terra querida (estou no rio de janeiro), longe das pessoas que gosto e realizando um tratamento duro (estou fazendo um transplante de medula…), assim como vc resolvi escrever sobre isso : http://www.diariodeumtransplante.blogspot.com, desejo sorte a você e a sua tia… continue escrevendo suas belas cronicas… elas me inspiram a continuar vivendo… abraços…
26 de abril de 2007, às 8:58h
Samarone, sua tia é guerreira e bem humorada, como você tem mostrado sempre. Ela vai sair dessa e, como Carlos Pena Filho, pintar tudo de azul como ela vê a vida. Continuo ligada, mandando minhas melhores energias para vocês dois, tão unidos e tão queridos por nós seus fiéis leitores.
Um cheiro de mãe.
26 de abril de 2007, às 16:00h
Querido Samarone,
muita paz nesse momento. Tudo fica mais fácil quando enfrentamos com humor. Desejo a sua tia muita sorte, e belos dias azuis.
Beijo no coração.
26 de abril de 2007, às 17:17h
Sama,
felizes esses dias em que podes compartilhar dores e sorrisos com essa alma querida e sábia que é a tua tia…
Aproveita bem! Porque são essas coisas que fazem a vida reluzir.
um abraço desses silenciosos e longos pra tu, visse?
26 de abril de 2007, às 22:04h
Saúde, mil vezes saúde!
Hoje vi um arco-íris e mando de presente pra tia Flocely para tudo ficar colorido!
Pega aí !
Beijos
Gabi
27 de abril de 2007, às 8:28h
Samarone, que figura maravilhosa a sua tia Flocely. Com toda essa energia positiva emanando por aqui, ela se recupera logo, logo. Força aí, meu véi!!
29 de abril de 2007, às 23:10h
Sama,
Saudade, grande amigo!!! Tu lembra de mim? Vania, amiga de Carol, de Salvador, que esteve o ano passado hospedada em sua casa na ocisão do festival de cinema, e que depois, rapidamente, em junho, a gente se encontrou na rodoviária de Recife. Tu lembra? Perdi teu e-mail, por isso não fiz contato… vamos se falando. Manda seu e-mail. Lamento pelo que você e sua tia estejam passando, mas, certamente, tudo ficará bem! Força e luz! Quando tiver um tempinho, vai no meu blog. Não consigo atualizar sempre, mas quero que me dê a sua opinião. (www.vaniadiass.blogspot.com)
Ah, em junho, passarei o São João aí com a minha mãe. Vamos se encontrar??
Beijocas