Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Mudanças

19 de abril de 2007, às 22:11h por Samarone Lima

Essa mania da inquietude às vezes me dá um trabalho…

Bem, vejam aí o novo visual do Blog, que consegui fazer não sei como, futucando as teclas do computador do Renato.

Aceito comentários.

Mais tarde escrevo algo decente – ou indecente, tanto faz.

Samarone Lima

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Distraídos venceremos

16 de abril de 2007, às 17:52h por Samarone Lima

Ontem saiu o cheque da escola em que ensino, e segui a passos largos para o Itaú, aqui no Bairro do Recife, que os habitantes locais chamam de Recife Antigo. Como sou enfezado com aquelas portas giratórias, vi a placa “Itaú”, entrei rápido, sem pestanejar, com cara de antigo correntista, os dois soldados fizeram de conta que não era comigo.

Lá pelas tantas, depois de 26 minutos na fila, comecei a reparar na turma que esperava a vez. Era um pessoal meio remediado, fiquei pensando que pobre agora tem conta não só em banco, mas no Itaú, que tem um lucro absurdo, aquele Olavo Setúbal de besta não tem é nada.

Olhei mais, reparei mais, e vi uns cartazes:

“Abra sua poupança na Caixa”.

Reparei nos detalhes e depois de consultar dois clientes, descobri petrificado que tinha entrado na agência da gloriosa Caixa Econômica Federal. Pior: tinha ficado quase meia hora na fila, sem perceber. Vem pra Caixa você também, vem!

Saí de fininho, para não arranhar minha imagem de distraído crônico. O banco Itaú ficava ao lado. Tinha somente entrado na porta errada. Ah, meus 63 leitores, não fiquem rindo, galhofando, todo mundo já entrou na porta errada, alguma vez na vida. Meus amigos psicólogos, se comportem!

No Itaú, a muito custo (todos os caixas saem para almoçar, justamente na hora do almoço, quando a gente pode ir ao banco), troquei o cheque e fiquei pensando “caramba, como sou distraído”.

Se os distintos leitores acham que isso é um absurdo, basta saber que minha mãe outro dia pegou o carro da minha irmã, um Pálio, sei lá, ou era um Siena, e foi ao shopping. Estacionou, fez suas comprinhas, e quando voltou, bateu todo o estacionamento, procurando…o seu velho Fiat.

Depois de duas horas de confusão, envolvendo a segurança do shopping, polícia, uma tormenta dos diabos, FBI, SPC, Serasa, Samu, Corpo de Bombieiros, Polícia Federal, pais de santo os mais diversos, ela ligou para minha irmâ, dizendo, às lágrimas, que não estava encontrando o Fiat, certamente tinha sido roubado.

“Mas mãe, a senhora lembra que foi para o shopping no meu carro, que é um Pálio” (ou era um Siena, sei lá, vamos ficar com um Pálio mesmo, para não complicar o texto de hoje) – foi o que respondeu a filha, que vem a ser minha irmã, a Mônica.

Minha mãe ficou sem graça, olhou para os seguranças, o chefe da segurança, o diretor do shopping, os tradicionais curiosos, o pessoal já citado anteriormente, e comentou com uma certa timidez:

“É que eu vim no carro da minha filha e não lembrava”.

Já fiquei na metade do caminho entre Belo Horizonte e São Paulo, enquanto comia um pastel, mas não creio que tenha sido distração. Foi leseira mesmo. Minha coleção é interminável, mas fico com mais um caso, para terminar bem o dia.

Um dia, estacionei o velho Fusca 68, de saudosa memória, caminhei alguns passos, o segurança do shopping veio apressado atrás de mim:

“Senhor, senhor”.

E olha que eu não tinha atacado nenhuma livraria.

Ele me entregou as chaves do Fusca, que tinham ficado penduradas na porta do carro.

Nesse momentos, lembro da velha frase do Paulo Leminsky:

“Distraídos venceremos”.

Ps. o livro Estuário, deste que vos fala, continua sendo vendido no bar de Seu Vital, no Poço da Panela, é uma boa para o Dia das Mães. A minha inclusive já ganhou um, autografado, e gostou.

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Despedida

15 de abril de 2007, às 20:44h por Samarone Lima

Na sexta-feira, a tia Elisa partiu. O câncer no útero, que os médicos julgaram curado, voltou por outros caminhos, e desta vez, devastador.

O Paulinho, e sempre ele, viu as passagens. Dona Ermira, mi madre, viajou com a tia Beta para São Paulo. Ninguém chama tia Elizabete pelo nome completo. É só tia Beta e pronto. As duas tiveram tempo somente de ver a irmã no enterro, essas despedidas.

No domingo, o Paulinho, e sempre ele, viajou a São Paulo. É sempre bom ter o Paulinho por perto.

Conversas ao telefone, ponderações, dúvidas sobre como contar a uma senhora de 80 anos, bastante debilitada, sobre a morte de uma sobrinha, uma das mais queridas. Prevaleceu a tese da verdade. O direito de saber, para chorar a despedida.

Preparei um pouco o terreno, fui dizendo que a tia Elisa estava muito doente, que minha mãe viajou a São Paulo, enfim.

Rosa, que trabalha com tia há mais de dez anos, aproveitou uma conversa longa sobre parentes e saudades, e contou logo. Foi melhor.

Ontem, mexendo nas fotos da família, encontrei uma foto da tia Elisa, de 2000. Ela me pareceu triste, segurando a neta, Vitória, recém-nascida.

Botei a foto num altar, acendi uma vela, fiz minhas orações. Pela tia, por todos da família, por mim, por tantos.

A morte, essa despedida sem reencontro.

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Mínimos, múltiplos e incomuns

13 de abril de 2007, às 11:55h por Samarone Lima

Interrupção

“Respondi-lhe que o meu ideal é não sair jamais da minha rua”.
(Mário Quintana, ao ser visitado por um rapaz de uma companhia de turismo, e perguntá-lo algo sobre “correr o mundo”)

**
3 de maio
“Aprendi com meu filho de dez anos
que a poesia é a descoberta
das coisas que eu nunca vi”.
(Oswald de Andrade)

***
Briga
“Vou parar de falar
vou fazer”
(Francisco Alvim)

**
Lucidez
“Não consigo me recuperar de minha lucidez etílica”.
(Jorge Alberto, lúcido)

**
Desespero
“O desespero dele é outro”.
(Jommard Muniz de Brito, ao escutar alguém ler meus poemas)

**
Águas
“Em cada tempestade
morrem as águas que matam”.
(Da minha coleção de murmúrios)

**
Sin título
“Lo que sé lo soporto con lo que no sé”.
(Antonio Porchia, in “Voces”)

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As lembranças como flores

11 de abril de 2007, às 11:08h por Samarone Lima

Se eu fosse escrever um livro de auto-ajuda, iria ser algo do tipo “Escute as histórias dos velhos de sua família”. Mas não tenho planos de adentrar no ramo da auto-ajuda, de formas que me limito às minhas cronicazinhas de sempre, aqui neste Blog, que agora vai com 62 leitores (soube que a Bete da Mata e a Ana Luiza estão lendo também).

É porque ando tendo longas conversas com a minha tia-avó, dona Flocely, que rompeu em janeiro a casa dos 80. De saúde, não vai nada bem. O único rim, descoberto ano passado, está capengando, as dores na coluna são imensas, fora as noites de insônia. Mas a cabeça continua bem, ela lembra de tudo. Quando esquece o nome de um parente distante, um primo em algum lugar ermo, acha que está sem memória nenhuma.

A janta é sempre o melhor momento, quando estamos sozinhos, a TV está desligada, a rua é silenciosa, e tem grilo por todo lado, no terreninho ao lado da casa. Mas grilo é um animal sentimental, baixa o tom na hora do sentimentos. Pergunto algo simples, sobre o meu avô, por exemplo, que não conheci. Então a tia começa a contar diversas histórias da família, coisas que eu nunca imaginava. Fala como era meu avô, aventureiro, que gostava de andar pelo mundo, e morreu moço, no Rio de Janeiro. Outro dia, encontrei uma foto dele, foi aquele impacto, algo do tipo “então é você, meu velho…”

Não troco nenhum noticiário, nenhuma novela, nenhum filme pelas conversas com a tia. Outro dia fiquei sabendo da história de amor do meu pai e minha mãe, um troço incrível, que envolveu o afastamento intencional para o Cabo minha avó não queria o romance), uma carta mandada de amor que chegou por um amigo misterioso, pretendentes rondando etc. No final, minha mãe se invocou, disse que o cara era aquele mesmo, e voltou para o Crato, onde o fato foi consumado. Graças a Deus, porque se ela tivesse ficado por aqui, eu poderia nem ter nascido, para escrever minhas besteiras.

Para que servem essas histórias, essas lembranças?

Servem para me situar no mundo, para entender certas coisas de minha família, olhar com mais afeto as pessoas que construíram esta teia, que me ajudaram a ser quem sou, com as qualidades e defeitos. Acho que entra perdão no meio de tudo, a gente aprende a ver, pelas histórias de vida, as limitações de cada um, situado em um tempo, em um contexto.

Talvez esteja compensando intimamente esta falta dos velhos em minha vida. Não conheci os avôs, convivi somente com minha avó Zeneuda (irmã de Flocely), e esporadicamente pedia a bênção à minha avó, Waldelice. Os velhos sempre ensinam as coisas de outro jeito, meio que por parábolas, e gosto muito disso.

Na verdade, gosto de gente velha. Não suporto essa frescurite de “Terceira Idade”, ou “Melhor Idade”. Velho é uma palavra linda, que tem força. Gosto de cidades velhas, de rostos envelhecidos, de cabelos brancos, das rugas. Cada ruga tem sua história, sua dor, sua saudade. Gosto de livro velho, de foto velha, de carro velho, de rua velha. Gosto da palavra velho.

Quem não tem um “velho amigo?”. Quem não chama com carinho “Meu velho”, o seu pai? Quem não lembrou do “velho e bom” fulano de tal, que era o tio mais querido da família?

Dizem alguns da família e amigos mais próximos, que vim ao Cabo de Santo Agostinho, a 35 quilômetros do Recife, para “cuidar da tia”, que está com muitos problemas de saúde, cansada etc. É como se fosse uma filantropia fajuta, que não me agrada.

Estou ajudando uma pessoa que amo muito, levo ao médico, vejo a pressão a cada três dias, mas está havendo, na verdade, uma troca.

A tia me dá de presente as suas lembranças, e eu as recebo como quem ganha flores no meio de uma tarde triste.

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