Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Travessias

1 de maio de 2007, às 18:46h por Samarone Lima

Há momentos em que a vida parece testar a gente. Agüenta? Então segura mais essa. Agüentou? Então vai mais um bocadinho. E devagar, sem perceber, o sujeito vai segurando a onda, fazendo o que não imaginava. Essa coisa eu chamo de travessia.

Falo isso por conta de uma jornada em hospitais, emergências, enfermarias do Recife. É uma realidade de quem tem uma parente de 80 anos, uma tia-avó, internada de repente, em meio a uma crise aguda do rim (sim, ela só tem um), e dores à beira do insuportável na coluna, por conta de duas vértebras quebradas, fruto das quedas da vida.

Nessas horas, a vida parece que faz o seguinte: cobra, mas dá força, numa cerimônia secreta.

Calhou que o destino final da minha tia, para se recuperar também de uma infecção urinária, acabou sendo um hospital no Janga, a 60 km do Cabo, onde moramos. A turma do aquecimento global vai ficar meio fula da vida comigo, mas o que ajudei a esculhambar a camada de ozônio, a bordo do Fiat da tia, não está no gibi. Amigos, o que gastei de combustível fóssil, é de fazer chorar. Era um vai e vem interminável, levando trazendo parentes e agregados. Cada vez que eu chegava à clínica, olhava para o céu e sentia o calor aumentando. Detonei umas duas geleiras, e três esquimós estão com câncer de pele por causa do meu exagero. Para equilibrar, estou usando o ventilador somente no dois, e só abro a geladeira quando tenho certeza do que quero.

Em 15 dias, me ocorreu somente uma coisa – ou eu levaria as coisas com uma pitada de humor, ou acabaria internado. É que tem muitos momentos na vida, nessas crises, em que a gente parece que está sendo testado.

Quando um médico olha para uma pessoa muito querida, de 80 anos, e diz que ela vai ter que entrar na hemodiálise naquele momento, dá vontade de chorar e dizer que é muita malvadeza, mas a vida está testando. Você tem que agüentar, meu velho, ou então tudo se esculhamba ainda mais. Rosa, a fiel escudeira da tia, esperou ela entrar na sala da hemodiálise, para fazer o tal cateter, e soltou as lágrimas. Eram umas lágrimas para lá de sofridas, eu garanto, as lágrimas da Rosa.

Todo mundo já teve (ou tem) um parente num hospital, sabe como é importante aquele soro, para ir ajudando a recuperar as forças. Quando a enfermeira não consegue encontrar a veia, depois de vários dias de internação, é que o camarada sente faltar um pouco do chão. É hora de respirar fundo, fingir que olha para a TV, enquanto a agulha chafurda no braço, que parece uma peneira.

Neste vai e vem, você vai encontrar todo tipo de médico, pouquíssimos afeitos ao preceito básico de olhar o paciente e escutá-lo com uma certa humildade. O doutor Flávio Medeiros, por exemplo, é um inovador da Medicina. Inventou uma consulta que não demora mais de dois minutos e meio. É um oi, tudo bem, como a senhora está, uns cutucões ali, outros aqui, tira a pressão, escuta o coração e vai embora. Presenciei o mesmo procedimento quatro vezes. Dizem que ele é o dono do Hospital Santa Cecília, acho que deve ser mesmo. Tempo é dinheiro, dizem os empresários.

Mas não faça muitas perguntas ao doutor Flávio, que ele não gosta. Fica irritado, fecha a cara, quando você, um reles parente, quer detalhes do quadro de uma pessoa querida.

“O quadro é estável”, foi a frase completa que consegui arrancar dele, em 10 dias de internação.

O material que fui anotando nos meus caderninhos daria uma ótima seqüência, tipo “nos corredores do Santa Cecília”.

Certo dia, um médico pediu outra radiografia da tia, a segunda em três dias.

Questionei, perguntei onde estava a anterior, fiz aquele escarcéu básico, até que o doutor Flávio me entregou a radiografia.

Minha tia estava no apartamento 11, ele me entregou uma radiografia do apartamento 105-B.

“Doutor, essa radiografia é de outro paciente”, eu disse.

“Ah, é mesmo”, me disse ele, como se fosse uma troca de um suco de laranja por um de maracujá.

Pela graça divina, nos hospitais ainda encontramos gente como Zezé, uma enfermeira baixinha e atarracada, com um eterno sorriso, mesmo quando dobra o plantão e está exausta.

É daquele tipo de gente que trabalha com tanto cuidado, bota tanto carinho em cada gesto, que a gente até esquece um médico evasivo e acredita na cura.

Quando a tia recebeu alta, a Zezé veio se despedir. Deu as mãos, olhou para minha tia nos olhos e disse que queria encontra-la em um local bem bonito, menos em um hospital.

A tia, que já estava se sentindo bem, ficou melhor.

Para a Zezé, que olhou minha tia nos olhos.

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