As palavras (1)
Samarone Lima

É um texto que venho escrevendo, hoje resolvi compartilhar, com algumas modificações. A imagem é do João Lin.
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Há muito tempo, talvez minha eternidade inteira, as palavras me seduzem e definem meus caminhos. Trato-as como se vivas fossem. Percebo quando estão ansiosas, depressivas tristes. Sei, por algum pacto com elas, quando resplandecem, quando estão a desabrochar. Sinto a claridade de cada uma. Quando estou cego de mim, não as vejo, vou como um analfabeto, à procura de um nome para seu destino.
Como as coisas que estão vivas, as palavras podem mudar de destino a cada instante, a cada diálogo. Uma palavra abençoada pode tornar-se amaldiçoada em uma fração de segundos. E o mais cruel dos tiranos pode dizer, enquanto contempla cadáveres, a palavra que também estava destinada à morte. Há sim, palavras que escapam de forcas, cadeiras elétricas, fuzilamentos. Eu mesmo, em silêncio, salvei algumas palavras, fui salvo por algumas sílabas. Quantas bocas me retiraram dos escombros! A tinta das canetas velhas, em papéis amarrotados, me aliviaram de sentenças.
Talvez seja por isso o meu amor aos dicionários, de todas as línguas, que guardam, naquele momento da língua, as palavras possíveis. Todo dicionário é um réquiem. Nele, as palavras descansam, repousam. Mas não é um réquiem de morte. Réquiem de beleza, de vida. Réquiem-ressurreição.
Me custaria muito viver, não fossem as palavras que aprendi e carrego, não sem uma certa humildade. É que vejo o mundo não pelos olhos, mas pelas palavras.
O poeta Juan Gelman me ensinou a amar o amor com suas palavras, que parecem tocar todos os corpos e almas do mundo. Em um de seus poemas sobre a chuva, ele diz que lhe custa escrever a palavra amor, “porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa/e somente a alma sabe onde os dois se encontram”.
É isso. O amor é uma coisa, a palavra amor é outra coisa. Mas não haveria o encontro na alma se a palavra não tivesse realizado aquilo que o coração teceu, tantas vezes sozinho e em silêncio.
Há, segundo Gelman, palavras que naufragam, palavras “que não sabem que há sol porque nascem e morrem na mesma noite em que se amou/ e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá, como o silêncio que há entre duas rosas”.
Sim, palavras prematuras, que nascem e morrendo.
Talvez seja por isso que a palavra “prematuro” seja sempre a do meu irmão, Lúcio Flávio, que morreu com cinco dias de vida, talvez menos, e nós, os três irmãos, fomos impedidos de vê-lo, em uma pequena capela de um hospital, quando a infância atravessava minha vida. O que ficou, de sua curta passagem pela terra? Terá ele sorrido ao ver o rosto de sua mãe, pela primeira vez? Sequer escutei seu grito inicial, que parece inaugurar nosso primitivo rompimento com o silêncio uterino.
E descubro que Lúcio Flávio não teve tempo de aprender a falar. Quais as palavras que meu irmão teria trazido ao mundo? Quais as palavras ele ressuscitaria? Porque sinto que cada ser humano vem ao mundo não apenas para viver, amar, construir coisas, belezas, ter uma história, mas também para trazer palavras, emudecer outras, ignorar muitas. Alguns poucos conseguem o milagre de ressuscitar palavras. Outros tratam de não deixá-las morrer.
Meu irmão, que não disse uma palavra em sua passagem por este mundo, me trouxe a palavra “prematuro”. Desde então, tudo o que é prematuro me leva a ele, que jamais vi, mas tenho e sei.
E me lembro que o nome dele, as duas palavras “Lúcio” e “Flávio”, causaram um certo rumor familiar, que jamais consegui decifrar inteiramente. Era como uma nuvem escura, em torno de um nome de uma criança que não tinha sequer nascido. Lúcio Flávio era o nome de um famoso criminoso nos anos 70. Sua história resultou em um livro que tinha um título épico: “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia”. Certamente, se o chamassem de Lúcio não haveria problema. Flávio, somente o Flávio, seria aceito a contento. Mas havia um problema – as duas palavras estavam juntas.
Então me veio este sentimento, ao longo da vida, de que certas palavras, juntas, mudam completamente de sentido. Se tornam outra palavra, que não é também uma terceira palavra.
Teriam nascido palavras destinadas à mais completa solidão? Palavras que nunca conseguiriam sequer se aproximar das outras, sem causar feridas?
Não sei se o meu irmãozinho viveu sua agonia, se passou os poucos dias de vida dentro de uma incubadora, se sentiu frio, se teve fome. Não sei sequer se ele pôde tocar o peito de sua mãe, que também é a minha, para os primeiros goles do leite ancestral da vida, para o acolhimento maternal dos primeiros minutos no mundo. Não sei a cor dos seus olhos, se tinha muitos cabelos, não sei sequer se ele sorriu, e morreu levando o nome que tantos quiseram lhe negar.
Sei apenas que veio, viveu pouco, foi breve como um início. Não teve direito ao seu alfabeto. Por isso, falo em seu nome, e o trago para a lembrança, que é outra forma de vida.
(Amanhã continua. Ou não)
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