Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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As palavras (final)

23 de maio de 2007, às 13:27h por Samarone Lima

Só outro dia, fazendo minhas pesquisas sobre a história de minha família, descobri que o casamento dos meus pais teve um lance genial: uma carta, enviada pelo meu pai, que estava no Crato, para minha mãe, que estava passando uma temporada no Cabo. Então vejo que as palavras mudam destinos, selam, marcam, da mesma forma que rompem, laceram, machucam, maltratam.

A história ainda é cercada pela neblina do passado, e quem me contou outro dia foi minha tia Flocely, agora com 80 anos. O fato é que minha avó (mãe da minha mãe), não estava querendo aquele namoro com um tal de “José Vicente”, e resolveu mandar minha mãe para uns dias de exílio amoroso no Cabo. A esperança era a de que o coração sossegasse, mas todo mundo sabe o que acontece quando a pessoa está no exílio: ela só pensa em voltar.

Não sei o conteúdo da carta, sequer se ela existe. Sei que o portador, um amigo do meu pai, conseguiu encontrar minha mãe em uma sapataria aqui do Cabo, e deve ter sido engraçado, as palavras do meu pai terem chegado enquanto minha mãe comprava, por exemplo, um par de tamancos. O resultado foi um casamento poucos meses depois, cinco filhos, quase trinta anos casados. Dei sorte nessa história toda, porque se a carta não chega e meus pais não casam, não procriam, eu nem sei o que estaria fazendo por ai, em algum lugar ermo.

Fico agora me perguntando: o que terá dito meu pai nessa carta? Quais as palavras que ele usou, para fazer com que minha mãe decidisse retornar de imediato?

É preciso tricotar com as sombras do passado, para fazer o encontro com as memórias. Na próxima viagem a Fortaleza, tentarei encontrar estes fragmentos. Será que terei a sorte de encontrar a carta?

Mas há também palavras perdidas, que nunca voltam. Minha avó perdeu, em uma de suas viagens, todas as cartas e fotografias que tinha do seu marido. Ficou apenas uma foto, muito pequena, onde meu avô aparece de paletó branco, olhando atentamente para a lente, um olhar triste e melancólico, quase cabisbaixo. É tudo o que tenho dele: este olhar e o silêncio. Outro dia, fiquei sabendo que ele era altão e gostava de andar pelo mundo, então me identifiquei completamente. Será que hoje falo algo que meu avô gostaria de dizer?

Enquanto escrevo estes textos sobre as palavras, vivi um momento contraditório: após dar aulas, esta semana, fui resolver coisas, e descobri que meu diário não estava na bolsa. Me deu uma aflição física e espiritual. E se o diário ficou em cima da mesa, local acessível para todos os alunos? E se alguém o pegou? Perguntei à Andréia, que trabalhana escola, se ela tinha vistou um caderno assim, assado. Vendo-me nervoso, ela perguntou:

“Mas o que tem dentro desse caderno?”

“Minha vida”, respondi. Às vezes, é preciso ser dramático.

Doeu-me imaginar alguém lendo minhas coisinhas, olhando as fotos dos antepassados, que costumo levar em cada caderno da vida.

Somente quando cheguei em casa e o encontrei diário em cima da mesa, inteirinho e absoluto, respirei aliviado.

Algumas palavras pertencem ao mundo, outras compartilhamos com os mais próximos, mas há palavras que são apenas nossas. São umas palavras abençoadas, quase murmúrios.

Porque o murmúrio só escuta quem está muito próximo. É quase um segredo que é só da gente.

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