Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Cenas da vida

29 de maio de 2007, às 12:48h por Samarone Lima

São 7h03, o ônibus Centro do Cabo está lotado, rumo ao Recife. Acabamos de atravessar Prazeres, o que significa pouco mais da metade do caminho, quando o motorista estaciona o veículo e desce, com um singelo rolo de papel higiênico debaixo do braço. Não corre rumo ao posto, vai apressado. Deve ter seus motivos.

Fica um silêncio estranho no ônibus, feito de rumores. Lá pelas tantas, um sujeito não resiste.

“Cobrador, o motorista foi no banheiro, é?”

O cobrador, um negro de cabeça raspada, riu, e nisso, o calor começou a aumentar.

Poucos minutos, um comentário vem lá do fundo do coletivo:

“Ele caiu dentro da privada!”

Risos.

Um passageiro começa a se impacientar.

“Mas justo no dia que estou atrasado…”

A mulher atrás de mim retruca, na surdina.

“Isso é falta de compreensão. Ele está passando mal”.

Contei no relógio. Foram oito minutos cravados. Daqui a pouco, vem o motorista, andando mais rápido.

“O cara está todo suado!”, disse alguém.

“Vamo embora, cagão”, solta a turma do fundão. Impressionante como na escola, no ônibus, em qualquer lugar, a turma do fundo gosta de tirar onda.

“Ele já veio trabalhar com papel higiênico. Isso é que é um cara prevenido”.

O motorista entra, acelera, todos respiram aliviados.

“É muita incompreensão”, reclama a mulher.

O veículo começa a ganhar velocidade. O camarada que estava ao meu lado, até o momento muito quieto, faz apenas um comentário:

“Isso é cana. Pode apostar que foi uma cana que ele tomou ontem”.

Já quase no Recife, entrou uma borboleta no ônibus e ficou tentando sair, sozinha, batendo nos vidros. Depois a perdi de vista. Era uma borboleta amarela, tamanho médio, bonita como o quê.

Às vezes a gente fica assim, querendo sair de um canto, e fica batendo num vidro que não existe.

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