O umbigo
Samarone Lima
Estávamos voltando de Brasília Teimosa, após uma deliciosa aula de campo com meus alunos, quando o carro que ela dirigia começou a atravessar aquela ponte que não sei o nome, aquela que faz a ligação do Pina com o Recife, como se tudo não fosse Recife. Então ela, que estava dirigindo, disse a seguinte frase:
“Foi aqui que joguei o umbigo das minhas crianças”.
Fiquei mudo, puxei meu caderninho e anotei a frase. Certas coisas que as pessoas me dizem, assim, no meio do dia, são como uma oração, uma bênção, um clarão, daí meu amor pelas palavras.
Então fui puxando assunto, até que ela me contou. É descendente de italianos, nasceu em Nova Bassano, perto da serra gaúcha, e cresceu em Passo Fundo, onde morou até os 21 anos. Conheceu um Pernambucano e veio pra cá.
Isso vem de família, contou. A mãe enterrou seu umbigo debaixo de uma árvore, “numa sanga”. Olhei no Aurélio, sanga quer dizer “pequeno regato, que seca facilmente; escavação profunda no terreno, produzida pelas chuvas ou por correntes de água subterrâneas”. Minha amiga disse que sanga é “uma vertente de água límpida”, e achei muito mais bonito a definição da minha amiga, que a do Aurélio, que Deus o tenha. Fica a versão da minha amiga, enquanto dirigia.
“Dizem que onde você enterra seu umbigo, você não sai”, completou.
Pensei que ela fosse dizer aquelas loas sobre o amor à terra natal, aquele discurso de raízes, mas ela foi para o outro lado.
“Pois quero que meus filhos sejam do mundo”.
Contou que o pai, imigrante italiano, chegou à Bahia, viu que as coisas não estavam boas, então se mandou para o Sul, onde fez a vida, casou, teve filhos. A família cresceu sem este sentimento de pertencer a um lugar específico.
“A gente tem isso, não temos fronteiras”.
Como não sou besta nem nada, fui fazendo perguntinhas e tomando notas.
“Depois que você sai de um lugar, você não é mais de lugar nenhum, é do mundo”, disse.
Lembrei que nasci no Crato, depois morei em Brejo Santo, Imperatriz, Pentecostes, Fortaleza, Recife, Cabo de Santo Agostinho, São Paulo, Recife de novo, Cabo de novo, onde estou agora, e percebi que é isso mesmo. Eu não sou mais de lugar nenhum do mundo, sou do mundo. Meu umbigo ficou em alguma sanga da vida, creio.
Minha amiga inventou uma história linda para os filhos. Que jogou os umbigos no rio e os peixinhos comeram, uma coisa bem bacana. Sempre que passam pela ponte, as crianças querem saber mais detalhes, e ela vai acrescentando, ornamentando, embelezando mais e mais, e eu dou graças a Deus, porque o mundo está precisando mesmo é de beleza, essa beleza simples de inventar uma história para os filhos.
Eu gostaria muito de estar passando por uma ponte do Recife, qualquer dia desses, e encontrar uma mulher com os olhos marejados, com o vento balançando seu vestido e cabelos. Uma mulher que tivesse acabado de jogar nas águas do Capibaribe o umbigo de seu filho.
Eu não perguntaria nada, apenas reduziria o passo para ver a cena. Ela sorriria e comentaria, por uma necessidade humana de compartilhar com um desconhecido emoções profundas:
“É o umbigo do meu filho”.
Eu sorriria e ficaria feliz. Só isso.
Para Ana Luiza Funghetti, claro.
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