Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Anotações de um plantonista em clínica renal

29 de junho de 2007, às 15:55h por Samarone Lima

Chama-se Centro de Tratamento Renal (CTR), a clínica onde minha tia está fazendo sua “Diálise Peritoneal”, em Prazeres, no município de Jaboatão dos Guararapes. Trata-se de uma nova versão da famosa hemodiálise, só que o processo é pela barriga, uma engenhoca cheia de novidades. Os dois tipos de tratamento são por caminhos diferentes, mas buscam a mesma coisa - fazer, por meios mecânicos, o que os rins já não conseguem. Todo mundo está careca de saber que os rins limpam o sangue, e outras coisas que não lembro.

No caso da minha tia, temos que falar “o” rim, porque ela descobriu, aos 79 anos, que nasceu com apenas um rim, o esquerdo. Como ela tinha muitas dores na coluna, passou a vida tomando tudo que é tipo de analgésico, especialmente um tal de “Benzerol”, que frita os rins. Foi por aí que a coisa começou a complicar. Aviso aos meus leitores para não tomar o Benzerol, porque vai dar errado.

Duas vezes por semana, ela vai para a clínica, entra às 14h e só termina tudo no dia seguinte, lá pela tardinha. Nos revezamos eu e a Rosa, braço direito de tia há muitos anos. Rosa fica no primeiro turno. À noite, o marido dela, o Elton, vem me buscar. Assumo meu plantão a partir das 19h. No dia seguinte, lá pelas 8h, a Rosa vai me render. Semana que vem, a tia deve começar o tratamento em casa, de formas que meu plantão vai ficar mais fácil, porque moro na mesma casa que ela.

Para quem nunca acompanhou um parente em “diálise peritoneal”, o negócio é simples para quem está vendo, mas chato para quem está fazendo. Uma máquina chamada “cicladora” bota líquido na região do peritôneo, o líquido fica um tempão na barriga, e depois a máquina vai tirando o líquido. Isso seria bem legal, se o negócio não fosse tão demorado. É o mesmo processo, durante 24 horas. Já sei tudo sobre cicladora e diálise peritoneal, porque fiz curso e recebo o certificado na segunda-feira.

Tia às vezes fica sozinha num quarto, então esse é o dia do melhor plantão. Ao lado, tem uma cama daquelas de hospital, que a gente ajusta a manivela e sobe uma das partes. Tem uma TV também, das pequenas, mas lastimavelmente, não transmite os jogos do Santa Cruz, o que a torna um objeto decorativo.

Pois bem, como eu vinha dizendo, eu chego lá pelas 19h11 e Rosa me conta como foi a tarde, falo com tia, dou um beijo nela, vejo o ambiente, sei apenas com uma olhadela se ela está legal ou está meio enjoada de tudo. Como sou um cearense meio esquisito, levo minha garrafinha com água quente e minha cuia de chimarrão. Numa sacola, vários livros e cadernos. Olho a maquininha de tia, e vejo quantos litros de água ela já absorveu, tomo um cafezinho e fico por ali, aguardando os fatos.

Até às 22, mais ou menos, converso com tia. Ela adora me contar as coisas da família, e vou anotando, porque como eu já disse outro dia aqui, eu não sou propriamente um jornalista, mas um anotador de coisas que depois viram um texto. No último plantão (dia do jogo do Santa Cruz contra o Ituano, no Arruda), ela me contou de sua viagem ao Rio de Janeiro, nos anos 60, com sua mãe, Elisa. Foi um passeio na memória por Botafogo, caminhadas de mãos dadas com sua mãe, visita ao Cristo Redentor, isso tudo ciceroneado pela sua irmã, Lenita, que trabalhava no Hospital da Aeronáutica. Ela me disse uma frase fantástica, eu que adoro frases:

“Segurar na mão de minha mãe, me dava confiança”.

Depois, ficamos em silêncio, mas nossos silêncios são bons. Eu simplesmente fico olhando para ela. Respeito seu sofrimento, sem buscar frases de consolo. Estou ali, em harmonia com ela, e creio que ela sente um pouco de proteção, de afeto, de cuidado. Depois, ela começa a cochilar. Se a coisa estiver indo bem, a máquina não vai apitar. Se tia se mexer muito, a cicladora vai fazer uns “piiiiiiii” altíssimos, e tenho que tomar providências. Primeiro, falo para ela mudar de posição, ela muda de leve, depois mexo na máquina. Aperto “stop”(em inglês, quer dizer “parar”), e em seguida, o “play” (o “play” todo mundo sabe o significado). O andamento da noite vai depender muito do funcionamento da máquina e de tia. No plantão passado, deu tudo certo, hoje vamos ver como vai ser.

Fico por ali, lendo minhas lorotas, revisando coisas, bebendo chimarrão e café, porque adoro chimarrão e café. Nos dias de jogo do Santa, acompanho pelo radinho de pilha. Foi lá que escutei o empate com o Paulista (um time de Jundiaí), após estar perdendo de 2 x 0. Foi lá também que agonizei o segundo tempo inteiro, na vitória contra o Ituano (de Itu, of course), o reles 1 x 0. Tia também torce pelo Santinha, mas não fico comentando as jogadas, para ela não ficar nervosa.

A madrugada é longa, os minutos vão congelando à medida que vamos chegando naquele período interminável, entre duas e quatro da madrugada. Quando tia adormece, fico mais tranqüilo e me dedico a leves passeios pela clínica. Nestas investidas, descobri uma salinha com umas cadeiras supimpas, muito confortáveis, com rodinha e tudo o mais. Então dou uma rapinada, boto na porta do quarto, e aproveito a luz do corredor para praticar dois dos meus esportes nacionais – ler e escrever. Se no Pan tivesse essas modalidades, eu era medalhista, pelo menos um bronze eu pegava.

De vez em quando, entro no quarto, olho se tia está bem. Às vezes, pergunto se ela está com sede, ela geralmente diz que sim. Bebe água num canudinho, depois ajeito o lençol, e ela volta a dormir. Volto para a poltrona e fico lá, lambendo meus livros e anotando minhas besteiras.

Durante o dia, a clínica chega a ter 200 pacientes de hemodiálise. De noite, só tem mesmo tia. Esporadicamente, mais uma pessoa no quarto, o que quebra todo o clima. Além disso, perco o direito à cama com manivela. Outro dia, naquele imenso espaço do CTR, só tinha mesmo o vigilante (que dormia, pra variar), um enfermeiro, eu e tia. Só os quatro, mais ninguém.

Dificilmente durmo. Fico preocupado com a maquininha, e quando o sujeito dá um cochilo, ela parece adivinhar: começa o “piiiiiiii” terrível. O sujeito dá um pulo na hora e perde o sono sete vezes. Aqui vai um conselho: se você quer dormir bem, não coloque uma cicladora ao lado de sua cama.

Quando vai amanhecendo o dia, começa a chegar a primeira turma da hemodiálise. São turnos de 40 pessoas. Meu Deus, é um povo lascado, que chega de Komby, em ambulâncias remendadas, Fusca, tudo que é jeito, gente que depende de prefeituras, essa coisa bem brasileira do se vira como pode. Mas algo me chama a atenção: é um povo de uma animação, de uma fé na vida, de uma falta de desespero, que chega a comover. Tem gente que está há cinco, sete anos fazendo aquele troço, três vezes por semana, quatro horas por dia, e não fica se lamuriando.

Neste momento, devolvo rapidamente a cadeira que peguei escondido, porque detesto levar carão, e tia está acordando. As dores na coluna chegam de jeito, ela reclama, e fazemos um esforço para ela sentar um pouco. Depois, uma mulher muito simpática traz o café da manhã, que tia nem prova. Café com leite, pão e uma papa de hospital, que todo mundo sabe como é. Tomo o café que tia não quer, guardo o pão para alguém com fome. Lá pelas 8h, Rosa chega, para seu novo turno, trazendo algo que tia goste para comer. Então tia come, e vai começar mais um dia.

Dou um beijo nos cabelos brancos dela, e vou cuidar da vida, porque acabou mais um plantão, e deu tudo certo.

Chego em casa e Bambam, o vira-latas de tia, está eufórico. Late, dou explicações, digo que tudo correu bem, faço afagos nele, e ele fica sossegado.

E assim, a vida vai seguindo. Qualquer dia, coloco a foto de tia Flocely aqui, para vocês verem como é linda a criatura.

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A arte e o tempo

28 de junho de 2007, às 12:02h por Samarone Lima

Sem tempo para crônica nova, vou de Eduardo Galeano, esse uruguaio infinito.

“Quem são os meus contemporâneos? - pergunta-se Juan Gelman.

Juan diz que às vezes encontra homens que têm cheiro de medo, em Buenos Aires, em Paris ou em qualquer lugar, e sente que estes homens não são seus contemporâneos. Mas existe um chinês que há milhares de anos escreveu um poema, sobre um pastor de cabras que está longe, muito longe da mulher amada e mesmo assim pode escutar, no meio da noite, no meio da neve, o rumor do pente em seus cabelos; e lendo esse poema remoto, Juan comprova que sim, que eles sim: que esse poeta, esse pastor e essa mulher são seus contemporãneos”.

(In “O livro dos abraços”)

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Carta ao Procópio

26 de junho de 2007, às 10:07h por Samarone Lima

Procópio e a turma do Coque, discutindo a criação da biblioteca

Procópio, meu velho

Ainda está fresquinha na minha memória a lembrança da visita à Biblioteca Popular do Coque, junto com os alunos da Kabum!, naquela terça-feira chuvosa, dia 12 de junho. A idéia de vocês, que fazem parte do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI), é criar um clima de cultura, acesso a livros, ao conhecimento, para tentar mudar a realidade de um bairro que vem sofrendo com a violência. Mesmo com dificuldade, vocês conseguiram alugar uma casinha, pintar, refizeram o telhado e conseguiram doação de livros.

Lembro que você era um dos mais empolgados. Falou da importância da mobilização dos jovens, da esperança de conseguir ampliar o trabalho, fazendo com que as crianças da comunidade começassem a frequentar o espaço. Seus olhos brilhavam, meu velho, e sentados no chão daquela pequena casinha azul, em meio ao que os recifenses consideram “o bairro mais violento da cidade”, compartilhamos esperanças. Ao seu lado, Sérgio, Irandir, e outros jovens que não aceitam a violência policial, que falaram para os jovens da Kabum! que pretendem trabalhar quatro eixos: ética, consciência, moral e educação.

Saímos da Biblioteca debaixo de chuva, e os jovens alunos da Kabum! ficaram impressionados com a dedicação, a vontade, o desejo de reverter esse quadro de violência que toma conta do Coque.

Hoje, Procópio, fiquei sabendo que teu São João foi triste. Que na sexta-feira, enquanto você e vários amigos se divertiam, defronte de casa, duas viaturas da Rádio Patrulha chegaram, e colocaram todos contra a parede. Isso, Procópio, jamais seria feito numa casa em Boa Viagem ou em Casa Forte, onde morei.

Soube que você pediu para baixar o som, porque não estava escutando o que os policiais queriam, mas uma policial disse que não iriam baixar. Que um tenente começou a te dar umas pancadas com um cassetete, e você disse que aquilo era abuso de poder.

Então soube do pior, Procópio. Que a Polícia entrou em tua casa, e começou a quebrar várias coisas. Você disse então que eles não podiam entrar sem um mandado judicial, e a fúria do tenente cresceu. Fiquei sabendo que você e Sérgio, justamente os idealizadores da Biblioteca, foram os que mais apanharam. Ao ser algemado, tua mãe perguntou para onde vocês iriam ser levados, e a resposta do policial foi a de sempre:

“Procure”.

Fiquei sabendo, Procópio, que você, Sérgio e mais três jovens foram levados em um camburão para destino incerto. Algemados, vocês ficaram mais de duas horas a mercê dos policiais, vendo sonhos e projetos de vida provisoriamente arruinados.

Quando chegaram á delegacia de Santo Amaro, vocês já estavam cheios de hematomas. O principal, foi o chute que te acertaram no queixo, e o brinco que arrancaram à sangue frio.

Por sorte, Procópio, tens amigos, que ligaram para pessoas que poderiam ajudar. A Michela e a Gorete, da ONG Auçuba, que conhecem vocês, interromperam os festejos e foram à delegacia.

O comissário, Procópio, saiu rapidinho e veio conversar com elas. Disse que já estava tudo sendo resolvido, que não precisava de advogado, porque era apenas “desacato à autoridade”. Diante da insistência, a resposta do comissário foi simbólica. Disse apenas o seguinte:

“Então, vai ser pior”.

Em minutos, Procópio, apareceram três papelotes de maconha em tuas coisas.O tenente insistiu que a maconha era tua. A ocorrência iria virar tráfico, e tu poderia descer direto para o Cotel. Imaginei por alguns segundos a tua juventude bruscamente interrompida, os teus sonhos desabarem. Pensei, no fundo, em quantas ocorrências deste tipo são registradas todos os dias, nas delegacias do Recife.

O advogado conseguiu evitar esse desastre em tua vida, esse desastre que arrasa a vida de tantos jovens da periferia. Então, vocês foram acusados de terem agredido os policiais, e de portarem drogas. Os policiais foram acusados de agressão. Um dos jovens presos sequer tinha documentos. É muito jovem, trabalha vendendo pipocas, é analfabeto. Tem somente a registro de nascimento.

Procópio, meu amigo, sei que tua noite começou entre teus amigos, uma festa defronte á tua casa, e terminou no IML, com um exame de Corpo de Delito. Falei há pouco com Michela. Ela disse que tu tinha ficado “bastante machucado”. Quando a gente diz isso de alguém que apanhou da polícia, é porque a coisa foi feia.

Procópio, fiquei sabendo que a Biblioteca Popular do Coque vai ser inaugurada no próximo sábado, às 9h.

Estarei lá, meu velho. Chamarei meus alunos e todas as pessoas que não aceitam esta cidade injusta, esta polícia cruel, esta realidade que dizem imutável. O teu exemplo, a luta pelos livros, contra a violência, é um pequeno pedaço de luz nesta escuridão que o Recife vive.

Sei que estás arrebentado, meu velho. Mas ajudaremos a remendar. Ajudaremos a arrebentar essas barreiras invisíveis que você tanto falou - e que agora são visíveis em teu corpo.

Com afeto,

Samarone Lima


Para todos os jovens do Coque, que fazem parte do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI)

ps. Quem quiser ajudar de alguma forma, pode mandar email para o Procópio:
coquevive@gmail.com

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O abençoado Poço

25 de junho de 2007, às 10:12h por Samarone Lima

Durante cinco anos, a esquina da venda de Seu Vital, no Poço da Panela, foi a minha esquina. De casa, eu podia vê-la já nas primeiras horas. Era ali sempre meu primeiro bom-dia, o primeiro gole de café, o primeiro coçar de cabeça, no louro Dudu. Ali, fundei bloco de carnaval, escrevi crônicas, enchi cadernos de bobagens. Ali, durante cinco anos, esperei a famosa Kombi de Naná, para ir, de bandeira em punho, ver os jogos do Santa Cruz. Ali, muitas vezes, joguei meu inútil dominó, com as pedras “bêbadas”, como diz Seu Vital. Ali, conheci as pessoas que não eram da minha família, e entraram no meu mundo. Ali, alegrias e tristezas.

Depois da mudança para o Cabo de Santo Agostinho, em dezembro do ano passado, meu mundo ficou sem esta esquina. Moro numa rua sem saída, onde há silêncio, quietude, passarinhos. O bar mais próximo, o Caldinho do Mario, é até razoável, mas falta algo fundamental a qualquer bar, que é o clima, o afeto, o alarido dos encontros, pessoas que tenham a nossa conversa. A gente sabe quando aquele bar é nosso ou quando é apenas um comércio que visa o lucro.

Esta semana, voltei ao Poço sem pressa. Voltei ao entardecer, com os olhos lavados pela saudade. Fui chegando de mansinho, sentindo o cheiro das árvores, a dureza das pedras, as imensidões do afeto. Fui respirando aquele clima, estufando o peito, sentindo o coração se apressar. Fui ao meu encontro também, creio.

No caminho, encontrei Dona Beata, que voltava do médico. Andava devagar, e me sorriu.

“A Beata quase vai embora, meu filho”, disse ela, me explicando os problemas de saúde. O filho dela, sempre arisco, ficou por ali. Foi alisar um cachorro de uma casa.

Chego à esquina de Vital, já vai anoitecendo. Uma mesa com duas moças, o local está vazio, perfeito para rever o velho. Ele está do lado de dentro, com seu jeitão de brabo, entro e digo algo. Seu Vital me estende a mão:

“Diga, meu bom”.

Ficamos conversando. Falou dos netos, que vi pequenos, com quem brinquei tantas vezes. Samuca está fazendo cartinhas sozinho. Lêlê já escreve seu nome. Carol está forte.

Fiquei sabendo que Dona Da Luz foi levada para o hospital. Cansaço no coração. Recebeu alta. Ah, mas um coração daquele tamanho, deve ter hora que cansa mesmo. Don Severina, esposa de Vital, chegou e ficou papeando. Está bem da vista, finalmente, e me cobrou dois pratos de alumínio, que me emprestou há meses. Vou trazer, dona Severina, vou trazer.

Aparece Laurent, filho de Luzilá, que tem a grande virtude de ser pai de Lucas, um dos garotos mais afetuosos que já conheci. Laurent passa em uma bicicleta minúscula, pergunto se ele quer vender. Então vou para o meio da rua e ficamos conversando sobre a vida, minha mudança etc. Daqui a pouco chega Teresa, esposa de Naná. Cadê Naná?, pergunto.

“Está caminhando na Jaqueira”.

Desde que me conheço por gente, Naná(118 quilos)diz que vai caminhar. Teresa diz que é verdade, e nesse momento, a liga de dominó vai começar. Sento, peço uma cerveja, e contemplo a paisagem. Meu Deus, como eu amo esse lugar, essas pessoas, tudo o que vivi aqui!

Anoiteceu. Ao longe, está Beto, sentado, quieto como sempre. Deve estar lembrando de Leão, o cachorro mais fiel que que já conheci. Raimundinho vai apressado, já está cheio das manguaças. Acena para mim de longe e diz que “os ventos estão mais para Nordeste” e promete voltar, mas sei que não volta.

As crianças do Poço vão crescendo. Acompanhei os menores, em um projeto com Naná, o da Kombi. A gente amanhecia o dia levando a garotada para a escola, era divertido. Totonho vem todo arrumado, passa por mim, dá a mão. Está grande, forte, vai para o São João na escola. Depois vem Fernando, seu irmão, que está virando mecânico.

Chega Zinho, mais conhecido como “Garotinho”. Pergunto se ele continua bebendo duas latas de Pitú por dia.

“Só uma”, responde.

Estranhei a súbita mudança de hábito.

“Só uma?”

“De dia, só uma. De noite é que bebo outra”, completa.

Rabaçan me chama no meio da rua. Diz que está com uma Brasília tinindo, o motor uma beleza, e quer me vender por R$ 2 mil. Prometi olhá-la no final de semana.

Justamente nesse momento passa Batman, nosso lateral direito dos Caducos. Buzina, dá a mão, reclama que estou fazendo falta na zaga e vai embora. É o momento crucial, com a chegada de Naná e Diazepan. Naná jé perdeu seis quilos, diz ele. Se alguém encontrou, favor devolver. Diazepan está bem, obrigado.

Dai me chama do outro lado da rua. Quer ter um particular comigo. Penso em algo sério, mas ele me explica o seguinte: Luis Jacó, nosso artilheiro dos Caducos, está morando para as bandas do Cabo, e quer meu telefone.

“Ele quer que tu jogue no time dele, numa pelada em Gaibu”.

De repente, senti uma fleuma, meu passe foi valorizado. Para quem joga futebol, isso tem uma importância enorme.

Jorge Alberto chega com mais uma escultura. Coloca em cima da mesa. Pergunto quanto custa. Ele, como sempre, desconversa. Pergunto mais alguma coisa, ele responde:

“Hoje não é dia 20? Não estou respondendo questionário hoje”.

Naná me conta que levou uma multa porque estava com o braço do lado de fora da Kombi. Eu não sabia nem que tinha esse tipo de multa. Aos meus leitores, vai o aviso: não dirijam com o braço de fora do carro.

Estou de bobeira, conversando uma aguazinha, quando passa o carro com Pérside. Ela para, baixa o vidro e Lulu, a amada Luisa, abre aquele sorriso que acaba comigo. Desde pequena, Lulu tem esse vínculo. É amor, eu sei. Ao final de nosso pequeno encontro, ela me deu um chiclete de presente.

Seu Vital me entrega uma caixa com uns presentes que a Kika deixou, junto com a Andréia. Coisas lindas, que agradeço. A edição de luxo de “Cem anos de solidão” é algo que não tem preço.

Depois chegaram Sóstenes, Walter Barba, Lucidélia, Luís Maúcha, e por aí vamos. Cada um com sua conversa. Joguei no Bicho, mas ainda não conferi. Paguei a minha conta em Vital, renovei o pendura com mais duas cervejas e duas doses do seu “Remédio”. Por último, antes de sair, olhei para o papagaio Dudu, me aproximei.

“Dudu”, disse eu, e o animal baixou a cabeça, como sempre fazia, esperando um cafuné.

Cafuneei Dudu, depois abracei o meu povo e descobri que não sofro dessa saudade que dói. Sinto um amor por aquele lugar e pelas pessoas, um amor completo, irreversível, sem regras ou cobranças. É um amor que nasceu devagar, e criou raízes. Ninguém reclama a demora em aparecer. Quer apenas saber de mim, se estou bem, por onde andei.Cada abraço, aperto de mão, sorriso, eu trato como uma bênção.

Depois eu volto para o Cabo, e está tudo bem. Volto um homem abençoado.

Para eles todos, claro.

Ps. amanhã republico a crônica “Anotações dos velhos cadernos”.

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O colecionador de epifanias

19 de junho de 2007, às 20:17h por Samarone Lima

Está no livro “Estuário”, mas como muita gente não encontrou o livro, republico aqui.

Conheci Epifânio Rodrigues semana passada, no mercado da Boa Vista. Eu estava debaixo daquele enorme pé de jambo, tomando uma cervejinha e pensando minhas infinitas besteiras, quando escutei o comentário vindo da mesa ao lado.

“O amigo está muito sério. Algum tumulto no coração?”

Desconversei, falei algo sem objetividade, tentando disfarçar o óbvio, e senti que o camarada ao lado parecia boa gente. Ficamos conversando uma lorota qualquer por alguns minutos, e pouco tempo depois ele veio para minha mesa. Se apresentou com a formalidade de um visconde:

“Epifânio Rodrigues, seu servo”.

Com a voz sussurrante, explicou que seu nome tinha mudado sua vida.

“É que meu pai era poeta e achava “epifania” a palavra mais linda da língua portuguesa”.

Imediatamente esqueci meus problemas, os tumultos se acalmaram e o sábado se tornou alvissareiro. Contei que meu nome vinha de um jogador de futebol, que, em 1969, jogava pelo Fluminense.

“Deste sorte”, disse meu amigo. “Naquele time de 1969 tinha o Cafuringa também. Já pensou? Ao invés de Samarone, tu poderia ser agora Cafuringa”, disse ele, soltando uma enorme gargalhada, acompanhada de um acesso de tosse que parecia o segundo final, antes de uma morte gloriosa, no mercado da Boa Vista.

“Cafuringa, qua qua qua”, ficava repetindo epifânio.

Já recuperado, ele bebeu mais um gole da cerveja (geladíssima, como em seu Vital), e me confessou, falando tão baixo ao pé do ouvido, que quase não o escutei.

“Na verdade, meu pai achava que seria uma menina. Ficaria perfeito para uma menina – Epifânia Rodrigues. Mas veio eu, e fiquei Epifânio”.

Achei bonito o “veio eu” e a aceitação do destino do meu amigo, um magro clássico, na casa dos 55 anos, pele curtida por algum sol da vida, barba por fazer. Demos o desconto na idade, porque sou péssimo para acertar a idade dos outros e reconhecer bebês. Nunca sei quando uma criança puxou ao pai ou é a cara da mãe. Geralmente minhas opiniões são tão fora de propósito, que ultimamente resolvi ficar no lugar comum:

“Mas é um bêbê lindo”, é tudo o que digo. Chega de vexames.

Logo, pela minha teologia dos rostos alheios, Epifânio poderia ter de 55 a 65 anos.

“E o que faz Epifânio Rodrigues?”, perguntei, enquanto ele riscava o isqueiro e acendia mais um cigarro como seus gestos de embaixador.

“Fiz a idiotice de trabalhar muito e agora recebo uma aposentadoria que me deixa viver um pouco acima da miséria. A sorte é que me separei há muitos anos e os dois filhos estão criados. Posso me dedicar ao ofício de colecionar epifanias, que meu pai me deixou de herança”.

Depois de um enorme silêncio, ele me olhou com aquela cara de boêmio integral e completou:

“Pode botar ai na tua coluna, que de vez em quando leio: Epifânio Rodrigues, o colecionador de epifanias”.

Eu não estava acreditando, até que ele pegou um grosso caderno, que estava dentro de uma bolsa surrada, vinda certamente dos anos 70. Era sua coleção. Colocou em cima da mesa e começou a folhear.

“Muita gente não sabe sequer o que é epifania, quanto mais perceber quando ela está acontecendo”, disse, com seus dentes amarelados.

“Epifania é uma aparição ou manifestação divina”, completou.

Ele começou a folhear o grosso caderno.

“Rua da Aurora, entardecer do domingo. Estou na janela do meu apartamento, olhando o rio Capibaribe. Um homem sobe em sua canoa e começa a atravessar o rio, muito lentamente. Na metade do caminho, ele abandona os remos e começa a chorar. Ele chora muito, e o barco segue deslizando pelo rio, que está muito cheio por conta das últimas chuvas”.

Ele me olha e completa:

“Sabe qual era o nome do barco?”

“Nem imagino”.

“Amorzinho”

Epifânio solta um longo sorriso e completa:

“É ou não é uma epifania?”

Fico quieto, parado. Não sei que facilidade é esta que tenho para conhecer tanta gente diferente. Ele pede mais uma cerveja e avisa que vai ao banheiro. O caderno fica em cima da mesa. Eu fico atormentado, querendo folhear o caderno, mas sei que é muito feio fazer isso. Não, na verdade eu queria mesmo era pegar aquele caderno e sair correndo dali. Passaria três dias lendo a coleção de epifanias do meu amigo Epifânio, matando a curiosidade de uma vida dedicada a guardar momentos divinos. Resignado, aguardo o retorno do mijão.

“Veja só esta, veja que maravilha”, diz.

“Noite da quarta-feira de cinzas. Estou dentro de um ônibus cheio de foliões, todos cansados e bicados, quando entra um senhor de uns 70 anos, com um saxofone. É um músico, exausto, que encerrou sua participação no carnaval. Ele fica sentado lá na frente, muito quieto, quase cochilando, até que um mulato muito forte dá um grito – ô vôvô, toca ai uma música para a gente se alegrar”.

Epifânio me olha com o rosto iluminado, depois segue lendo.

“O senhor abre a caixa do sax, encaixa a boquilha e começa a tocar o hino de “Elefante”. O ônibus é tomado por uma corrente elétrica. Todos cantam e dançam alucinados. Depois de tocar a canção, o senhor guarda pacientemente o sax, encosta a cabeça na janela e dorme”.

Meu amigo puxou mais um cigarro, deu suas longas baforadas, me olhou assim, bem atentamente, e perguntou:

“Qual foi a última coisa divina que te emocionou de verdade?”

Fiquei em silêncio e pensei nos últimos dias, tão intensos. A epifania foi na verdade uma longa conversa com alguém que reconheceu minha alma, e se deixou reconhecer. Estávamos os dois, frente a frente, nos revelando completamente. Havia beleza e verdade, o acolhimento de duas solidões pacificadas no meio da vida. Não cheguei a comentar nada com meu amigo

Epifânio ficou me olhando com um sorriso maroto.

“Eu sabia que era alguma coisa neste coração”.

Pegou o caderno, guardou na bolsa, me deu a mão e disse que precisava partir.

“Tenho ainda hoje dois colóquios com amigos, para resolver os graves problemas da humanidade. Um no mercado da Encruzilhada, outro na Madalena. Você sabe, eu sou um homem de mercados e a humanidade está muito confusa”.

Deixou cinco reais par ajudar a pagar a conta.

“Voilá”, disse, com um aceno rápido.

E partiu, me deixando também epifânico, naquela tarde do sábado.

Tomei mais duas cervejas e voltei para casa, com as mãos nos bolsos e chutando pedrinhas.

Para Epifânio, claro.

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