Uma vida para meu avô
Samarone Lima
A única imagem que restou do meu avô Antônio
Algo acontece comigo neste momento. Estou aqui, escrevendo, e à minha frente, presa por um alfinete, está a foto do meu avô, Antônio Estevam de Lima Filho. Pela primeira vez, neste blog, compartilho uma imagem particular, íntima. A foto é pequena (9×6, acabei de medir com uma régua), e meu avô está bem jovem. Há uma tristeza e algum sofrimento, que não sei o motivo. É a única imagem que ficou dele.
Este homem que nunca vi, morreu no Rio de Janeiro, em 1967, aos 50 anos, vítima de tuberculose. Morreu distante das quatro filhas e da esposa. Sabe-se lá os caminhos que percorreu. Uma das filhas é minha mãe, que nunca o viu. Só recentemente fiquei sabendo disso. Ele foi morar no Rio com o objetivo de trabalhar, ganhar dinheiro e levar a família. Nunca mais voltou. Mergulhou num silêncio profundo. E cá estou eu, quase quatro décadas anos depois, à procura da vida do meu avô.
E cada vez que procuro mais informações sobre este Antônio, mais vejo o quanto levo de herança. Como diz o Bert Hellinger, cada pessoa ajuda a carregar o destino de sua própria família. Como ele, sou alto. Como ele, gosto de andar pelo mundo. Como ele, gosto de recomeçar coisas. Como ele, tenho facilidade para amizades. Como ele, várias semelhanças, nas coisas boas e ruins. Como ele, exagero em algumas dessas coisas e acabo batendo a cabeça, quando tudo poderia ser mais simples.
Depois de três livros publicados, muitas reportagens, vários veículos de comunicação, me dedico a uma peregrinação interior, de cunho afetivo. Vou ao encontro da história de minha família. Depois de entrevistar tanta gente, de presidiários a prêmios Nobel da Paz, de policiais a ex-presos políticos, entrevisto o meu povo. Escutei a história de vida de mais de 100 pessoas, para escrever meus dois livros-reportagem (“Zé” e “Clamor”). Agora, quero escutar as histórias das vidas que vieram antes da minha. Tenho a esperança de que o encontro com meu passado ilumine algo no presente. Pode ser uma luz tênue.
Tenho dedicado algumas horas a conversas com a tia-avó Flocely, de 80 anos. Ela me falou longamente dele. Entre outras coisas, amigos, o Antonio Estevam, bebia pacas.
Minhas conversas ao telefone com minha mãe têm mudado de rumo. Ao invés de falar das coisas por aqui, o que tenho feito, os erros e acertos, faço perguntas, tomo notas. Agora em julho, iremos ao Crato, onde nasci. Vou lá, sentir o cheiro dos meus antepassados, pisar o chão inicial, a terra onde meus pés pisaram. Busco agora, impaciente, uma fita cassete, com uma longa entrevista que fiz com minha avó Zeneuda (irmã de Flocely), no início dos anos 90.
Minha avó Zeneuda era a esposa de Antônio. Ele foi para o Rio de Janeiro, ela ficou com quatro filhas no Crato. Nunca mais o viu. Nunca mais olhou para outro homem.
Lembro que na entrevista, ela falou muito dele, e pena que neste período eu confiasse tanto no gravador. Não tomei notas em um caderno, à parte, como passei a fazer nos anos seguintes. Quanto amor havia nela, falando se seu Antônio…
No dia 13 de junho de 1967, meu avô morreu, de tuberculose. Estava com 50 anos. Era um mecânico hidráulico de mão cheia. Foi sepultado no cemitério de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. No atestado de óbito, há apenas uma observação:
“Não deixou bens – deixou quatro filhas”.
Uma delas é minha mãe, que nunca o viu.
Fora isso, um silêncio profundo. Sua história é um mistério. Descubro que temos um desaparecido na família.
Vou ao encontro de meu avô silenciado. Creio que vou também a um encontro marcado comigo.
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