Carta ao Procópio
Samarone Lima
Procópio e a turma do Coque, discutindo a criação da biblioteca
Procópio, meu velho
Ainda está fresquinha na minha memória a lembrança da visita à Biblioteca Popular do Coque, junto com os alunos da Kabum!, naquela terça-feira chuvosa, dia 12 de junho. A idéia de vocês, que fazem parte do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI), é criar um clima de cultura, acesso a livros, ao conhecimento, para tentar mudar a realidade de um bairro que vem sofrendo com a violência. Mesmo com dificuldade, vocês conseguiram alugar uma casinha, pintar, refizeram o telhado e conseguiram doação de livros.
Lembro que você era um dos mais empolgados. Falou da importância da mobilização dos jovens, da esperança de conseguir ampliar o trabalho, fazendo com que as crianças da comunidade começassem a frequentar o espaço. Seus olhos brilhavam, meu velho, e sentados no chão daquela pequena casinha azul, em meio ao que os recifenses consideram “o bairro mais violento da cidade”, compartilhamos esperanças. Ao seu lado, Sérgio, Irandir, e outros jovens que não aceitam a violência policial, que falaram para os jovens da Kabum! que pretendem trabalhar quatro eixos: ética, consciência, moral e educação.
Saímos da Biblioteca debaixo de chuva, e os jovens alunos da Kabum! ficaram impressionados com a dedicação, a vontade, o desejo de reverter esse quadro de violência que toma conta do Coque.
Hoje, Procópio, fiquei sabendo que teu São João foi triste. Que na sexta-feira, enquanto você e vários amigos se divertiam, defronte de casa, duas viaturas da Rádio Patrulha chegaram, e colocaram todos contra a parede. Isso, Procópio, jamais seria feito numa casa em Boa Viagem ou em Casa Forte, onde morei.
Soube que você pediu para baixar o som, porque não estava escutando o que os policiais queriam, mas uma policial disse que não iriam baixar. Que um tenente começou a te dar umas pancadas com um cassetete, e você disse que aquilo era abuso de poder.
Então soube do pior, Procópio. Que a Polícia entrou em tua casa, e começou a quebrar várias coisas. Você disse então que eles não podiam entrar sem um mandado judicial, e a fúria do tenente cresceu. Fiquei sabendo que você e Sérgio, justamente os idealizadores da Biblioteca, foram os que mais apanharam. Ao ser algemado, tua mãe perguntou para onde vocês iriam ser levados, e a resposta do policial foi a de sempre:
“Procure”.
Fiquei sabendo, Procópio, que você, Sérgio e mais três jovens foram levados em um camburão para destino incerto. Algemados, vocês ficaram mais de duas horas a mercê dos policiais, vendo sonhos e projetos de vida provisoriamente arruinados.
Quando chegaram á delegacia de Santo Amaro, vocês já estavam cheios de hematomas. O principal, foi o chute que te acertaram no queixo, e o brinco que arrancaram à sangue frio.
Por sorte, Procópio, tens amigos, que ligaram para pessoas que poderiam ajudar. A Michela e a Gorete, da ONG Auçuba, que conhecem vocês, interromperam os festejos e foram à delegacia.
O comissário, Procópio, saiu rapidinho e veio conversar com elas. Disse que já estava tudo sendo resolvido, que não precisava de advogado, porque era apenas “desacato à autoridade”. Diante da insistência, a resposta do comissário foi simbólica. Disse apenas o seguinte:
“Então, vai ser pior”.
Em minutos, Procópio, apareceram três papelotes de maconha em tuas coisas.O tenente insistiu que a maconha era tua. A ocorrência iria virar tráfico, e tu poderia descer direto para o Cotel. Imaginei por alguns segundos a tua juventude bruscamente interrompida, os teus sonhos desabarem. Pensei, no fundo, em quantas ocorrências deste tipo são registradas todos os dias, nas delegacias do Recife.
O advogado conseguiu evitar esse desastre em tua vida, esse desastre que arrasa a vida de tantos jovens da periferia. Então, vocês foram acusados de terem agredido os policiais, e de portarem drogas. Os policiais foram acusados de agressão. Um dos jovens presos sequer tinha documentos. É muito jovem, trabalha vendendo pipocas, é analfabeto. Tem somente a registro de nascimento.
Procópio, meu amigo, sei que tua noite começou entre teus amigos, uma festa defronte á tua casa, e terminou no IML, com um exame de Corpo de Delito. Falei há pouco com Michela. Ela disse que tu tinha ficado “bastante machucado”. Quando a gente diz isso de alguém que apanhou da polícia, é porque a coisa foi feia.
Procópio, fiquei sabendo que a Biblioteca Popular do Coque vai ser inaugurada no próximo sábado, às 9h.
Estarei lá, meu velho. Chamarei meus alunos e todas as pessoas que não aceitam esta cidade injusta, esta polícia cruel, esta realidade que dizem imutável. O teu exemplo, a luta pelos livros, contra a violência, é um pequeno pedaço de luz nesta escuridão que o Recife vive.
Sei que estás arrebentado, meu velho. Mas ajudaremos a remendar. Ajudaremos a arrebentar essas barreiras invisíveis que você tanto falou - e que agora são visíveis em teu corpo.
Com afeto,
Samarone Lima
Para todos os jovens do Coque, que fazem parte do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI)
ps. Quem quiser ajudar de alguma forma, pode mandar email para o Procópio:
coquevive@gmail.com
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