Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Anotações dos velhos cadernos

17 de junho de 2007, às 20:58h por Samarone Lima

Com imagem de João Lin

1

Tinha acabado de chegar ao Recife, depois de seis anos morando em São Paulo. Era julho de 2000, e eu estava com 31 anos, novinho em folha. Lembro que aluguei uma pequeníssima casa, na Rua dos Arcos, e a mudança estava a caminho, graças à ajuda do velho e sempre Gustavo. Encontrei agora há pouco, neste eterno trânsito entre duas Cidades (Cabo e Recife), um velho caderno de anotações, que não chega a ser um diário, mas esboços de crônicas jamais escritas, poemas nunca publicados, pensamentos soltos como folhas em meio aos vendavais. Compartilho algumas notas aleatórias.
2

Me veio a imagem de um homem bêbado, em cima do telhado, chorando pela morte de sua mulher. Esse homem eu conheci de fato, e há algo de mais dramático nisso tudo, porque a gente chora em todo canto, quando dói demais. Buscar o telhado parece uma tentativa de se aproximar dos deuses e o desejo de afastamento do mundo, onde estão os homens. Não vai passar um amigo em cima do telhado, a qualquer momento, e perguntar “ei rapaz, por que você está chorando aí em cima?” Seria uma intromissão exagerada na dor alheia.

3

Está lá, também no caderno, Seu Heleno, que morava na casa de Luzilá, em uma casinha mais recôndita. Era um gentleman, quando não bebia. Quando tomava suas muitas garapas, ficava mamadinho e passava a falar muito. Era um bêbado que conversava com as paredes, as plantas, os animais, o vento, os seres presentes e ausentes. Em sua santa sabedoria, falava muito pouco com gente. Um dia, cheguei para visitar Luzilá e ele começou a falar comigo, em “Cachaçanês”, o idioma da cachaça. Se tivesse bebido, teria entendido tudo. De cara, não deu. Fiquei mole de tanto rir.

4

Certa vez, Luzilá arranjou dinheiro para Seu Heleno comprar a chapa. “Ele comprou a de cima, bebeu a de baixo”, me contou Luzilá. E era engraçado ver aquele homem falar em cachaçanês, com os dentes superiores que não encontravam nunca os inferiores. Ele jamais poderia bater com a língua nos dentes.

5

Alguém me emprestou uma rede para a primeira noite na casa vazia, não sei quem foi. Quando deitei, senti um perfume que se misturava ao mofo. A rede certamente esteve guardada durante muito tempo, até que cheguei, inesperado, pedi uma rede emprestada à vizinha. Ocorreu à pessoa, que mal me conhecia, colocar perfume, para aplacar o mofo. O nome disso é delicadeza.

6

Seu Manuel, vendedor de Guaiamum. Sobre ele, registrei apenas o seguinte: “trata-se de um homem que gosta muito de conversar”. Ele morreu há alguns meses, vítima de um choque elétrico absurdo. Morreu e conversamos muito pouco.

7

Itamar, o cachorro da vizinha, uma velhinha dessas que adoro conversar. Foi a filha quem o batizou, o cachorro, claro, de Itamar. “Meus cachorros têm todos nomes mais simples. É Champanhe, Veludo, Piaba, Corcel”, diz a velhinha. Depois que saí, escutei ela dar um berro que sacudiu o bairo: “Itamar!”

8

No reencontro com os amigo, estava uma moça muito calada. Era tão calada, que não lembro de uma frase, das 9h às 12h, quando ficamos conversando. A única frase que ela disse, a certa altura do campeonato, foi “aqui tem uma cioba muito boa”. Diria que ela era superlotada de silêncio, e amava peixe cozido.

9

“Acho que vou dobrar. A gente não dobra trabalhando? Vou dobrar bebendo”, diz um sujeito no Mercado de Casa Amarela, e só faço tomar notas.

10

Minha profissão é esta: tomar notas.

11

Estava cuidando de um jardim, ao lado da casa nova, quando passou a velhinha de Itamar, o cão já citado. Ela me olhou silenciosa, ficou quieta, vendo a movimentação toda para arrancar mato e plantas umas belezas poucas, mas necessárias. Ficou em mais silêncio ainda, até que disse: “ Agora está morando gente aqui”. Tradução simultânea: “também gosto de coisas bonitas”. Sorri e ela emendou:

“Vou chamar você de meu filho”.

12

Chico me falou de sua separação. A mulher estava indo morar com outro sujeito, abandonando-o mesmo de verdade.

“Quando estiver passando fome, venha que eu lhe dou de comer”, disse ele para a mulher, antes de ela ir embora. E ela foi. Não sei se voltou. Creio que não, ele teria falado.

13

Estava chovendo muito, naquele julho de 2000, o Recife parecia Macondo. Estava na casa de Luzilá, mais uma vez, e conversávamos sobre chuvas e essas coisas molhadas. Ela Luzilá, contou que um ano, estava muito triste com um monte de goteiras por toda a casa. “Estava chateada mesmo”, disse, até que veio uma tromba d’água, e poucas horas depois, sua bela casinha estava quase submersa, com quase dois metros de água. Era a famosa cheia de 1976.

Pelo menos ela não tinha mais a chateação das goteiras.

14

“O meu caos é Deus, o impenetrável, e ninguém mais”, diz Rilke.

15

“O homem caminha na direção daquilo que o ultrapassa, como se isso quisesse dizer: na direção de si mesmo”, diz Lou-Andreas Salomé.

16

A alma como um pátio interno que não necessita pedestres.

17

A alma é a única subversão em que acredito.

18

A inesquecível e insuportável figura do garçom omisso.

19

Conheci Arlete em uma viagem para o Crato. Me mostrou álbum repleto de fotos. Eram apenas mãos. Viajava muito pelo mundo, e estava a confeccionar um “album dos acenos”. Nunca mais a vi. Lembro de suas mãos, miúdas e marcantes. Mãos de gente que olha o mundo pelas palmas, como se as pupilas fossem cheias de linhas da vida.

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Uma vida para meu avô

15 de junho de 2007, às 13:35h por Samarone Lima

A única imagem que restou do meu avô Antônio

Algo acontece comigo neste momento. Estou aqui, escrevendo, e à minha frente, presa por um alfinete, está a foto do meu avô, Antônio Estevam de Lima Filho. Pela primeira vez, neste blog, compartilho uma imagem particular, íntima. A foto é pequena (9×6, acabei de medir com uma régua), e meu avô está bem jovem. Há uma tristeza e algum sofrimento, que não sei o motivo. É a única imagem que ficou dele.

Este homem que nunca vi, morreu no Rio de Janeiro, em 1967, aos 50 anos, vítima de tuberculose. Morreu distante das quatro filhas e da esposa. Sabe-se lá os caminhos que percorreu. Uma das filhas é minha mãe, que nunca o viu. Só recentemente fiquei sabendo disso. Ele foi morar no Rio com o objetivo de trabalhar, ganhar dinheiro e levar a família. Nunca mais voltou. Mergulhou num silêncio profundo. E cá estou eu, quase quatro décadas anos depois, à procura da vida do meu avô.

E cada vez que procuro mais informações sobre este Antônio, mais vejo o quanto levo de herança. Como diz o Bert Hellinger, cada pessoa ajuda a carregar o destino de sua própria família. Como ele, sou alto. Como ele, gosto de andar pelo mundo. Como ele, gosto de recomeçar coisas. Como ele, tenho facilidade para amizades. Como ele, várias semelhanças, nas coisas boas e ruins. Como ele, exagero em algumas dessas coisas e acabo batendo a cabeça, quando tudo poderia ser mais simples.

Depois de três livros publicados, muitas reportagens, vários veículos de comunicação, me dedico a uma peregrinação interior, de cunho afetivo. Vou ao encontro da história de minha família. Depois de entrevistar tanta gente, de presidiários a prêmios Nobel da Paz, de policiais a ex-presos políticos, entrevisto o meu povo. Escutei a história de vida de mais de 100 pessoas, para escrever meus dois livros-reportagem (“Zé” e “Clamor”). Agora, quero escutar as histórias das vidas que vieram antes da minha. Tenho a esperança de que o encontro com meu passado ilumine algo no presente. Pode ser uma luz tênue.

Tenho dedicado algumas horas a conversas com a tia-avó Flocely, de 80 anos. Ela me falou longamente dele. Entre outras coisas, amigos, o Antonio Estevam, bebia pacas.

Minhas conversas ao telefone com minha mãe têm mudado de rumo. Ao invés de falar das coisas por aqui, o que tenho feito, os erros e acertos, faço perguntas, tomo notas. Agora em julho, iremos ao Crato, onde nasci. Vou lá, sentir o cheiro dos meus antepassados, pisar o chão inicial, a terra onde meus pés pisaram. Busco agora, impaciente, uma fita cassete, com uma longa entrevista que fiz com minha avó Zeneuda (irmã de Flocely), no início dos anos 90.

Minha avó Zeneuda era a esposa de Antônio. Ele foi para o Rio de Janeiro, ela ficou com quatro filhas no Crato. Nunca mais o viu. Nunca mais olhou para outro homem.

Lembro que na entrevista, ela falou muito dele, e pena que neste período eu confiasse tanto no gravador. Não tomei notas em um caderno, à parte, como passei a fazer nos anos seguintes. Quanto amor havia nela, falando se seu Antônio…

No dia 13 de junho de 1967, meu avô morreu, de tuberculose. Estava com 50 anos. Era um mecânico hidráulico de mão cheia. Foi sepultado no cemitério de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. No atestado de óbito, há apenas uma observação:

“Não deixou bens – deixou quatro filhas”.

Uma delas é minha mãe, que nunca o viu.

Fora isso, um silêncio profundo. Sua história é um mistério. Descubro que temos um desaparecido na família.

Vou ao encontro de meu avô silenciado. Creio que vou também a um encontro marcado comigo.

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A quentinha

13 de junho de 2007, às 14:38h por Samarone Lima

Hora do almoço, Centro de Tratamento Renal, em Prazeres. É meu turno para acompanhar tia, em sua nova “Diálise Peritoneal”. Na tampa da quentinha, está escrito “guisado”, e já sei que tia não vai nem cheirar. Acompanha um copo d’água, um copo de guaraná e uma colher de plástico.

“Olha que almoço delicioso, tia”, digo, teatral.

Ela nem olha.

Sem fome, tampo a quentinha e a encosto por ali. Daqui a pouco, chega Rosa, a fiel escudeira de tia, para me render. Irei ao Recife, resolver coisas. Rosa chega com o almoço de tia, feito em casa, do jeitinho que ela gosta. Até o purê, feito em casa, parece que a batata é outra.

Rosa já almoçou, tia não vai comer do guisado, eu não estou com fome. Não vou deixar a comida ficar ali, porque vai estragar.

Resolvo levar a quentinha, para dar a alguém. Boto num saco, o mesmo que Rosa usou para trazer a comida de tia, e saio para pegar o ônibus.

No caminho, um operário dando duro, mas estava com cara de cansado, não de fome. Esse não.

Entro no ônibus “Conjunto Marcos Freire”, que está cheio, mas com duas vagas para sentar. Acomodo a quentinha em cima da minha bolsa, no colo. Reparo nas pessoas, encontro um possivel ganhador do rango, mas seria esquisito oferecer almoço para um sujeito dentro de um ônibus. O medo de levar um fora me assombrou.

O ônibus serpenteia, vai chegando ao centro do Recife, depois passa pelo cinema São Luis, até desço, ali na avenida Guararapes.

Passo por dois vendedores de pipoca. São 13h33, hora da fome braba, em qualquer lugar do mundo. Dois vendedores estão muito animados, vocês não.

Então vejo um senhor meio curvado, pele curtida pelo sol, a pele de chinelos bem gastos. Está com um imenso saco de pipocas pendurado aos ombros. Usa um boné gasto, não vi o que tinha escrito no boné.

E se ele se sentir agredido, por alguém oferecer comida? Fui caminhando, dosando meus pudores e meu desejo besta de repartir algo, alojado dentro de uma quentinha.

Venci meus temores. Passei por trás dele e perguntei:

“O senhor já almoçou?”

“Até agora não”, respondeu, se virando em minha direção.

“Tome uma quentinha. É comida nova, pode acreditar”.

Ele botou o saco de pipocas no chão e pegou o pacote com a quentinha. Olhou para mim e disse muito obrigado, duas vezes. Antes de sair, olhei bem para ele.

Que olhos tristes, meu deus.

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Lugares essenciais do Recife, volume I

10 de junho de 2007, às 19:07h por Samarone Lima

Caldinho de Seu Biu, no Alto José do Pinho, Zona Norte do Recife.

Você chega num domingo, um domingo de sol bem nítido, forte e claro como o do Recife, atravessa a rua principal do Alto, e todas as pessoas parecem ter sido despertadas por um único desejo: sair de casa, bater pernas, olhar o movimento, trocar idéias, tomar umas, paquerar, comprar umas coisinhas para a semana, ou simplesmente dar um pulinho no boteco mais próximo. Então vai a dica: o “Caldinho do Biu” é aquele típico boteco perto da perfeição.

No caminho, você passa por uma mini-Ceasa nas calçadas do Alto, com verduras sendo vendidas a granel, os preços mais modestos do Brasil. Não sei quais são os preços mais modestos do Brasil, sou um homem impressionista.

No trajeto, há discussões futebolísticas as mais notáveis, fundamentais para o exercício do domínio da conversa, o desenvolvimento da memória (aquele primeiro turno que ganhamos, na final de 1974), e da capacidade premonitória (vamos meter 3 x 0 em vocês fácil).

O dominó come no centro, parece que todos os dominós do Brasil foram levados por uma carreta para a praça central.

Em alguma parede, de alguma esquina não muito grande, será possível ver inscrições rupestres do tipo “Temos caldinho”, “Galinha guisada”, “Temos arrumadinho de charque”.

É possível esbarrar na lanchonete “Saborear lanches”.

Se quiser dar um trato nos cabelos, o recomendável é o “Salão Belo Visual”, mas deixe para ir em Eliete, que seu cabelo ficará no ponto. Aproveite para fazer psicanálise gratuita, com a própria Eliete.

Finalmente, chega-se ao “Caldinho do Biu”, famoso pelo caldinho, óbvio, pelo feijão com charque (água na boca, amigos), pelas postas de peixe assado. Você pode pedir pratos de feijão que variam de R$ 3,00 a R$ 5,00. Recomendo um de R$ 3,00 para quem está só, e R$ 5,00 para três pessoas. Com Biu não tem pirangagem, os pratos são bem servidos e quentinhod. Quem deve atendê-lo, além de Biu, é Flávio, o seu filho que tem voz de locutor. No meu caso, ele vai dizer sempre:

“Oi, Marone, tudo bem, Marone?”

Ele nunca gostou das duas primeiras letras do meu nome, eu também não vou ficar arengando com o mundo por causa de uma vogal e uma consoante. Na próxima, vou responder:

“Tudo bem, Ávio, tudo bem, Ávio”.

Bote farinha e pimenta no caldinho ou no feijão.

“Vamos tomar uma lapadinha?”, é uma frase comum no final da manhã de domingo, dia que mais costumo ir ao Alto.

Lá pelo meio dia, o céu está claro e intenso, azul como uma pedra preciosa, e as nuvens são do mesmo material do algodão doce da infância. Agradeça por algo, mas se quiser deixar para depois, não esquente, que cronista gosta de enfeitar as coisas, às vezes.

Chega o momento solene de escolher uma mesa longe do mormaço, puxar a cadeira e fazer o pedido. Sugestão: entre, faça o pedido e vá para a mesa, que você vai ganhar tempo. Não, não, vamos mudar tudo. Melhor tomar uma no balcão. O balcão é a melhor parte de qualquer boteco.

Ao sentar em uma das cadeiras, é possível apreciar o trânsito das moças lindas do Alto, que passam deslizando, como se no domingo não tivesse mais a Lei da Gravidade. Olhe, mas não olhe muito, porque pode aparecer o dono a qualquer momento.

Tem locadora de DVD que cobra R$ 1,00 por filme. Minha pesquisa cronística não entra no setor de serviços, porque não sou nenhum besta de ficar fazendo trabalho forçado em pleno domingo, enquanto você, leitor, está deitado na rede, escutando La vie en rose.

Sentado em Seu Biu, é possível escutar diálogos os mais diversos, como:

“A mulher fez cuscuz com sardinha e queijo. Fez e foi para o mundo: perdi o apetite para comer”.

“A comida ficou grudada na panela”;

“Foi o pior goleiro que já vi jogando”;

“Demos um lá e lô que acabou com o jogo”;

“Quando sair minha micharia, te pago, pô!”;

“O cabelo está bom, agora… que bigode horrível esse, visse!”;

“É a boyzinha dele. Está acabando com ele… é pior que cachaça”;

“Pois beber em casa para mim é o maior sacrifício”;

Sentado, bebericando sua cervejinha ou uma pequena dose, é possível ver passarem os torcedores do Santa Cruz, sempre com esperanças nos olhos.

Vai passar, a qualquer momento, um gordinho com a camisa “Os Gordinhos na Folia”, do Carnaval passado. Dê um bom-dia, para descontrair o ambiente.

Menino soltando papagaio, só de calção, sem pensar em nada, apenas concentrado naquilo que está voando e bailando no vento lá de cima, acontece com freqüência. Lembre-se da infância.

Você fica sentado, olhando a paisagem e pensando na vida, vem o sujeito com um carrinho de mão cheio de DVDs piratas. Cobra R$ 5,00 por cada. O sujeito está tomando umas, para comemorar as vendas. Então você pergunta somente como funciona o esquema.

Então ele explica que no Recife, a PM cobra vinte mangos por semana para esses camaradas que vendem em barraquinhas aleatórias. Um camarada à paisana é quem recolhe. Se passar duas semanas sem pagar, eles, os tiras, passam recolhendo. Se o ponto for fixo, o negócio complica: custa R$ 500,00 por mês.

Bom, depois o camarada vai embora com seu carrinho de mão. Se der inspiração, peça uma saideira. Sozinho ou acompanhado, peça a saideira. Flávio, lá pelas tantas, vai dizer:

“Marone, estamos fechando, visse Marone”.

Ele, o Ávio, engole duas letras e repete meu nome. É efeito de compensação alquímica, né? Então engulo umas letrinhas dele, para ficar tudo equilibrado.

Se aparecer uma camarada tamanho médio, negro, cabeça raspada, que atende pelo nome de Ailton “Peste”, recomenda-se convidá-lo para uma boa conversa.

O Caldinho do Biu abre durante a semana, para os que andam querendo serenar o pensamento e organizar as tempestades.

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O destino e as pequenas coisas

8 de junho de 2007, às 13:28h por Samarone Lima

Estou aqui, no primeiro andar da casa da tia Flocely, no Cabo de Santo Agostinho. O relógio vai passando do meio-dia, e chove. Não chove torrencialmente, com o barulho nos telhados. Há apenas o tempo fechado, um vento frio, as folhas molhadas. À minha frente, defronte à janela, os galhos de um pé de canela, onde um bem-te-vi pulula, aqui e ali. Dá vontade de dizer:

“Ei, menino, saia já dessa chuvinha, que vais pegar uma gripe!.

Inútil. Perdi o tempo de conversar com os passarinhos. Ele fica perambulando de galho em galho. De vez em quando me olha com uma certa ternura, pensando lá entre seus miolos:

“Poxa, um dia lindo desses, e o cabeludo ali todo vestido, mexendo com alguma coisa naqueles dedos grandes”.

Os dias vão passando, e ultimamente venho pensando nessa força misteriosa que se chama destino. Não esse destino da fatalidade, pueril, das favas contadas, como se tudo tivesse um mesmo fim, sem algo que passe pelo sagrado, o misterioso. Essa sucessão de fatos, de imprevistos, uma nódoa na camisa, que pode mudar um dia, que pode mudar uma vida. Falo desse destino que vem com força, desviando rotas, refazendo mapas pessoais, geografias, emoções. A pessoa que você conhece por acaso, num encontro, e vira um grande encontro. Os amores que chegam, batem na trave, e retornam depois, amadurecidos. O destino e as pequenas coisas, pequenos gestos, frases, palavras, um telefonema, sei lá.

Então lembro que uma nódoa na ponta do vestido da minha avó Zeneuda, em 1970, mudou o rumo da minha vida.

Parece exagero, mas foi o que aconteceu. Minha mãe morava em Brejo Santo, já tinha dois filhos pequenos, quando cheguei, naquele maio de 1969. Minha avó morava no Crato, e para aliviar um pouco a barra, fui ser criado pela avó, até as coisas sossegarem. Já pensaram uma mulher com três filhos pequenos, ali no começo da mocidade? Minha mãe, como diria César Maia, era uma mulher “rochedo”, mas também tinha lá suas dificuldades.

Eu já estava com quase um ano, bem nutrido e aprumado, achando aquilo tudo muito bonito, quando chegou aquele “um belo dia”.

Um belo dia, minha avó me arrumou todo, botou Seiva de Alfazema, algo assim, depois seu melhor vestido e quando fechou a porta de casa, viu que na ponta do vestido, tinha caído um pingo de café. Não sei se era café, fica café, para facilitar a crônica. Ela poderia deixar para lá, quem iria olhar uma besteirinha na barra da saia, era apenas uma missa, a 300 metros de casa.

Mas ela resolveu que iria mudar meu destino.

Voltou, me deixou numa cadeira, molhou a ponta do vestido, tirou a nódoa com sabão e foi passar o ferro para deixar tudo lindo.

Então ela tomou um choque violento, quebrou o braço e acabou minha colônia de férias no Crato. No dia seguinte, estava em Brejo Santo.

Volto ao dia de hoje. Lá embaixo, no térreo, enquanto escrevo esta crônica, está minha tia Flocely, tão comentada nas últimas crônicas. Ela se prepara para mais uma sessão de hemodiálise. Está debilitada, claro, mas 80 anos, hemodiálise três vezes por dia no Recife, vários remédios, dores na coluna, isso tudo deixa qualquer pessoa exausta, querendo sua casa, sua cama, seu cachorrinho Bam Bam. Ela tem lutado com raça.

Há pouco conversei com ela sobre essas coisas da vida, esse destino das pequenas coisas. Ela disse que acredita numa força superior, em algo maior, que rege as coisas. Sua concepção é mais religiosa. Falei sobre o episódio envolvendo o início da minha vida e a nódoa no vestido da avó Zeneuda, ela acompanhou atentamente.

Então vai um detalhe: a avó Zeneuda é irmã de tia Flocely.

Me ocorre que estar ajudando a cuidar de tia, neste momento delicado de sua vida, é uma espécie de retribuição tardia a quem cuidou de mim, quando eu começava a viver.

Retribuição não: agradecimento.

A essa altura do campeonato, também agradeço ao destino alguns caminhos percorridos, e pelo fato de estar aqui.

Não é mais a distância que me importa, é o tempo.

ps. amanhã republico “Lugares essenciais do Recife”.

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