Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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31 de julho de 2007, às 17:16h por Samarone Lima

Há tempos um livro não me acertava assim, de cheio. “O passado”, do argentino Alan Pauls, chegou há alguns dias. Acordo, leio, pego o ônibus, vou lendo, dou aulas, leio mais um pouco. Estou tomado pela história do Rímini e da Sofia.

Leio sorvendo cada pedacinho, sem pressa. Livro bom não dá vontade de terminar nunca. Por causa dele, deixei para depois o “Neve”, do Orthan Pamuk.

Un pedacito:

“Sim, odeio você. Sim perdôo você.
O amor é uma torrente contínua.
Como sei que não vai ser capaz de ir sozinho à mostra de Riltse (já posso ouvi-lo: “lembranças” demais - as aspas são suas), na quinta às sete vou estar na porta do museu.
Sou a garota baixa e de olheiras, de impermeável amarelo (se estiver chovendo), ou a que acaba de descer sem fôlego de sua bicicleta verde (se o tempo estiver bom).
Você não tem como errar.
Odeio ter que lhe dizer isto, mas é sua última chance”.

Vou aqui, ler mais um bocadinho, tomando umas goladas do meu chimarrão. Faltam somente 400 páginas, pela graça divina.

Perdão pela eventual demora em atualizar o blog.

“Mas a compreensão é um dom que exige resposta”(pag. 79)

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Últimas cenas do Pan, no Alto José do Pinho

30 de julho de 2007, às 10:20h por Samarone Lima

Faltavam quatro quilômetros para terminar a Maratona, e o cara da Guatemala já vinha bufando, arfando, achando certamente aquela distância toda um exagero. O locutor disse que ele não estava mais com a mesma homeostase, algo assim, essas coisas ridículas dos locutores, após o camarada correr feito louco por 38 quilômetros. Atrás, num galope firme, o corredor do Brasil, mais decidido que ministro do Supremo. A diferença entre os dois era de reles 150 metros.

Eu estava na casa de Eliete, no Alto José do Pinho, tomando uma cerveja, enquanto Eliete atendia uma freguesa, em seu salão. Ela me deu o controle remoto da TV e pediu que eu esperasse só um pouco, enquanto cuidava dos cabelos de uma senhora distinta.

“O brasileiro vai passar, Eliete!”, gritei, como se aquilo fosse algo muito importante.

Ela veio para junto, com uma tesoura na mão. A cliente ficou na cadeira, com uma pá de cremes no cocoruto. O camarada do Brasil dava cada passada de girafa, que vou dizer.

O locutor fazia um carnaval danado, mas estava na cara que o guatemalteco estava caindo pelas tabelas.

Ficamos olhando atentos, a tensão foi aumentando, até que o brasileiro engatou a quinta e passou tinindo.

“Eita, ninguém mais segura ele”, comentou Eliete.

Depois, foi aquela presepada toda. O sujeito pegou a bandeira, o povo aplaudia, e debaixo de chuva, o mineiro ganhou a Maratona.

Quando acabou a prova, olhei para Eliete. Estava com os olhos cheios d´água.

Depois, fui ao Caldinho do Biu, encerrar a tradicional manhã de domingo no Alto. Estava começando um jogo de basquete. Seu Biu chegou, me cumprimentou, ele parece muito (no jeito), com Seu Vital, do Poço da Panela. Aquele camarada que não é muito de brincadeira, e que tem posições muito definidas sobre o mundo e as coisas.

Um sujeito comentou:

“Seu Biu vai torcer contra o Brasil”.

“Eu não torço contra o Brasil, eu sou realista”, respondeu Seu Biu.

Adoro esses diálogos metafísicos, onde o sujeito se define perante a existência como “um realista”, “sou um sonhador”, essas coisas.

“Naquele jogo mesmo contra a Argentina, nem o técnico esperava aquela vitória”.

(Para meus leitores menos afeiçoados ao futebol e seus resultados, ele se referia ao jogo Brasil 3 x O Argentina, no final da Copa América).

“Isso é porque ele joga no Chiocago Buls”, comentou um papudinho, sentado junto ao balcão.

“Mas Joca, tem que ser realista…”

Numa mesa ao lado, o sujeito com a camisa de um clube da periferia, meio barrigudinho, com cara de quem tinha disputado uma partida fundamental para a sua humanidade naquela manhã, comentou:

“A gente nota quando o sujeito joga bola. Está a maior confusão, ele mata a bola no peito e distribui a jogada”.

Muito bom isso, de distribuir a jogada.

“Pois eu perdi um gol igualzinho ao dele. Mano tocou para mim debaixo da barra, chutei pra fora. Não acreditei”.

“Seu Biu, me dê uma latinha!”

(Se referia a uma latinha de Pitú, produto largamente consumido no Recife).

Seu Biu passou por mim e comentou:

“O cara tem que ter fé em Deus e não desanimar”.

A frase serve para tudo.

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Mapa-mundi (pequena fábula de viagens)

27 de julho de 2007, às 13:24h por Samarone Lima

Na argélia, esqueci um guarda-chuva comprado em Paris. Fui à Palestina, levei flores para a Faixa de Gaza.

Fui salvo no Canal da Mancha por uma enfermeira russa, que passava à procura de um soldado raso. No trem que partir para a Turquia, fumei cigarros com um desertor, comemos no intervalo da manhã uma sardinha vencida (que ele furtou da última guerra).

Tive problemas no Caúcaso, nas Ilhas Samoa e no Alasca, me veio a certeza de que tenho medo de altura. Por absoluta falta de ação, fiquei pasmo nos mares do sul, a sorte foi um cozinheiro em Madri que adivinhou meu nome.

De galho em galho, de fresta em fresta, fui revertendo um tempo e cismei de apertar as mãos de um rabino, que me disse algumas passagens à meia voz. Por enquanto, não lembro os detalhes, naquela tarde nublada em Israel.

Cansei meus pés visitando minhas saudades, levei pedras nos bolsos para acertar o cocoruto de Ramsés, mas ele ausentou-se para uma festa nas bandas de Mallorca. Teve sorte, o infeliz.

Por duas vezes acendi o Vesúvio com fósforos Paraná, e tive problemas na fronteira com a Bolívia: queriam tomar meus dois colares comprados no Cariri.

Foi neste tempo que encontrei meu avô, passando de mansinho pelas calçadas, eu disse “ôps”, ele respondeu “oba”, e ficou por isso mesmo, ele estava com pressa e fazia muito calor naquela tarde.

Voltei à velha oficina, nos desertos do Chile, mas começava o Carnaval, de formas que me perdi na turba, e não peguei o ventilador quebrado. haja calor!

Nas calçadas da Guatemala, quantos homens cheios de cabelos, Deus do céu!

Muitas vezes preferi não agir, e um monge beneditino me piscou o olho, dizendo que estava tudo certo para minha estadia (por precaução, tomamos duas cervejas e ficamos contentes com as duas garotas que insistiam na filosofia tântrica). Mas nada aconteceu, dei o pé numa bicicleta de 14 cilindradas.

Quanto àquela noite na Criméia, passei apertos. A cela era pequena e nos aquecemos sem pressa, apesar do cansaço e das tormentas, mas pior é morrer sem conhecer os bafos do mundo.

Fiz por onde habitar meu nome numa pequena cratera para as bandas do Saara, iniciei meu nome com tinta guache e fui aplaudido de pé por quatro jamaicanos que jogavam dominó. Ainda não sei o motivo. Pensei em fazer o contorno e passar novamente por Buenos Aires, mas o tango não veio, fiquei reservado, esperando os ventos laterais. Tomei um café com o Roberto Bolaño num boteco safado na Cidade do México, pouco antes de sua morte, e saí sem pagar, ora bolas.

Evitei os problemas respirando fundo com aquele dragão sagrado em Vancouver, uma cidade que me lembrou muito Itapipoca, cheia de girassóis-mirins, herdados de Mombaça.

Causou-me estranhamento o silêncio dos hermanos, ao sul de Lima, mas como fazia fogo brando, na região dos lagos, não me apoquentei. Botei as barbas de molho, descobri que tinha andado muito, resolvi voltar.

Então perdi o trem, que só passou dois dias depois, e vi que estava cansado. Olhei para meu caderno velho, toquei fogo nas palavras, com uns índios velhos, os potiguares, fiquei em silêncio por duas gerações, e só então voltei pra casa.

Para quem gosta de andar pelo mundo, como um cubano que conheci em Buenos Aires, e reencontrei meses depois, na Chapada dos Veadeiros, sempre com sua bicicleta ao lado e um sorriso sereno.

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Um sujeito besta

25 de julho de 2007, às 21:06h por Samarone Lima

Tenho descoberto, ao longo do tempo, que sou um sujeito besta. Besta no sentido metafísico mesmo. Hoje mesmo, fui a uma livraria comprar um livro, encontrei outro que julguei melhor, não comprei o livro original e agora, em casa, fiquei reparando nos detalhes da mudança.

Fui para um boteco meia boca, ali no Bairro do Recife, pedi uma cerveja, e anotei na primeira página:

“Livro comprado no faro”.

Chama-se “Passado”, do Alan Pauls. Fui vencido pelos dois primeiros parágrafos. Livro me vence não é pela orelha, nem pela apresentação gráfica, nem pela listagem dos mais vendidos. O nocaute é mesmo nas palavras. Dois, três parágrafos, e caio na lona, então o juiz começa a contagem.

Lá, na livraria, encontrei o velho e bom Siba, do Mestre Ambrósio. Eu, meio apressado, fiquei desnorteado quando ele me olhou nos olhos e perguntou:

“E você, está bem?”

Não, não era aquele “oi, tudo bem?”. Era algo mais denso. Tinha uns segundos de silêncio, de atenção. Ele queria realmente escutar quem estava à sua frente. Fica o registro. No Recife, em julho de 2007, ainda tem gente que quer saber como o outro está. Nesta turma, incluo a Naire, a Flávia Suassuna e mais dois ou três malandros e malandras.

No boteco, onde fiquei tomando a cerveja geladíssima e lambendo o livro, a garçonete, Etiene, me perguntou até quando iria o Pan do Brasil.

“Até domingo, acho”.

“Tá danado”, respondeu ela. “Esse negócio não acaba mais nunca”.

Chego em casa, vejo que “O passado”, do Alan Pauls, trata do amor. O Rímini, após separar da Sofia, começa a falar de suas experiências.

“A prosa é alinhavada pelos recuos e dispersões do tempo, lembrando um estilo de Proust que tivesse lido Cortázar”, diz um panfleto da Cosacnaify.

“Como assim, por exemplo?”, penso eu, já pensando em devolver o livro.

Olho minha estante principal. Preciso reler “O ser e o tempo da poesia”, do Alfredo Bosi. Dos 47 contos do Onetti, tenho ainda 7 na corda bamba. Ganhei o Dom Quixote da Kika, e nem comecei. Mas, como sou besta de verdade, vi que o “Viagem ao fim da noite”, do Céline, foi degustado de cabo a rabo.

Me dá uma pena danada dos atletas, quando eles têm que parar. A Janeth, por exemplo, jogou até os 38, agora pendurou as mãos, coitada.

Então fiquei pensando na imensa vantagem que é o sujeito escrever. Ele nunca vai precisar parar.

Tenho a mesma idade da Janete, acho que nunca fiz uma cesta, e só vou parar de escrever quando meus dedos entrevarem. Mesmo assim, arranjarei um jeito de ditar as coisas para uma secretária decente. Tenho a segunda vantagem, que é a de nunca parar de ler. Vou ler até o último segundo. Por mim, eu morreria numa biblioteca, debruçado num livro. Poderia ser o “Voces”, do Antonio Porchia. Coisas de um sujeito besta.

Você, leitor, que é advogado, padre ou policial, é melhor ir pensando num negócio que não termine nunca, para não ficar se lamentando depois. Por exemplo, ser jardineiro. Terra neste mundo é o que não falta.

“O amor é uma torrente contínua”, diz uma personagem do Alan Pauls.

Concordo plenamente.

Esta crônica de hoje está sem ritmo e densidade. Melhor seria passar uma temporada em Cuba.

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Nossa matança na terra

23 de julho de 2007, às 13:11h por Samarone Lima

O Brasil inteiro chora os mortos da queda do avião da TAM, é realmente muito triste, lamento e sinto muita dor, mas preciso lembrar dos que morrem sem sair do chão, numa tragédia coletiva que parece não ter fim - e que não sai nos jornais.

Do dia 1o de maio a 23 de julho de 2007, foram assassinados, em Pernambuco, 925 seres humanos, informa o site www.pebodycount.com.br

Não vi nenhum editorial de jornal, TV, revista, nenhum artigo indignado, mostrando a dor das famílias e o tamanho da tragédia. Não pensem que anotei errado ou que o site apurou com exagero. Quatro jornalistas da nova geração resolveram publicar, diariamente, os nossos mortos quase anônimos. É importante ver o trabalho do Carlos Eduardo dos Santos, João Valadares, Rodrigo Carvalho e Eduardo Machado. Olho todo dia. Hoje mesmo, a grande briga da Polícia é pelo aumento salarial.

Os dados são confirmados pela própria Secretaria de Defesa Social. Do Dia do Trabalhador até hoje, menos de três meses, o número de assassinatos em Pernambuco daria para encher quatro aviões da TAM. Outros 125 cadáveres ficariam para outro vôo. Só no mês de junho, 350 pessoas foram assassinadas. Dá um vôo e meio.

Cada vez que olho o site, fico assombrado. Mais assombrado fico com o silêncio, a passividade, a normalidade com que olhamos esses números. São 925 mortos, 925 corações, 925 famílias, 925 sonhos, 925 desesperos. Morrem aos poucos, cada dia uma média de 12, em todo o estado. Ficam por ali, em matagais, em casas pobres, em terrenos, em botecos caindo aos pedaços, esperando a chegada de um carro do IML. Depois, algum familiar vai fazer o reconhecimento. Fico pensando nas 925 mães, nos 925 pais, irmãos, amigos.

Sempre detestei os tempos histéricos. Transitamos da euforia das medalhas, no Pan-Americano, onde cada atleta parece vencer a pobreza e a miséria única e exclusivamente por causa do esporte (o que é uma grande mentira), e vamos aos plantões macabros dos mortos da aviação. Nossa grande tragédia não está nos céus, está na terra.

Mas no fundo, está certo um pensador que gosto muito, Todorov. Ele diz que um morto é um sentimento, um milhão de mortos, é uma informação.

Aceito de bom grado dividir nossa dor e indignação dos desastres aéreos com esses anônimos, que morrem diariamente em Pernambuco e no Brasil.

Até o final do dia de hoje, serão 12 assassinatos na terra do frevo e do maracatu.

Queria que virassem 12 sentimentos, e alguma informação.

A todos os mortos, por acidente, ou por assassinato.

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