Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

Apresentação


Livros do Autor


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Calendário

julho 2007
D S T Q Q S S
« jun   ago »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

Arquivos


Usuários online


Sobre livros, livrarias e otras cositas más

3 de julho de 2007, às 20:40h por Samarone Lima

Com ilustração do parceiro João Lin

Fiquei a meio metro do chão quando a Priscila Venâncio, a Índia, minha aluna, chegou com “O amor nos tempos do cólera”, do Garcia Márquez. Leu de cabo a rabo. Leu mesmo, com fé e coragem, e indicou para os amigos da turma.

Todo mundo que trabalha com literatura sabe como essa paixão é incorrigível. Nós ficamos doentes pelo troço, e queremos contagiar todo mundo. Do porteiro do edifício que mal conhecemos, ao primo distante que diz ter dor de cabeça quando começa a ler, passando pelo colega de trabalho que deixa escapar uma réstia de alegria com algum livro, e nos danamos a falar de nossa prateleira principal.

Mas quando um aluno chega com os olhos brilhando, falando de sua inauguração no mundo da leitura, ave Maria santíssima, é uma felicidade que fica rendendo o resto da aula e se prolonga pela tarde inteira.

Tem muita paixão que acaba, mas até agora nunca conheci uma pessoa apaixonada por livros que tenha encontrado um motivo para acabar a relação.

Uma pessoa que ama ler, por sinal, jamais discute a relação. Sente, é claro, aquela pontada de ciúmes quando empresta levianamente algum livro, e ele fica num terreno perigosíssimo, que é longe da casa.

Quanto mais envelheço, mais vou ficando suspeito para falar no assunto. Meu faro está ficando refinadíssimo, melhor mil vezes que aqueles camaradas que provam vinho (esqueci o nome da profissão agora), que e ficam numa frescura dos diabos para tomar uma dose de Chateau Duvalier, rodando a taça mil vezes, olhando para a lâmpada fluorescente e cheirando, como se estivessem bebendo uma boa dose de perfume da Natura.

Entro na livraria, meu nariz começa a coçar, tem um radar na ponta dele, indicando a prateleira. Fica fazendo um barulhinho “piiii” intermitente, igual aos modernos subterfúgios de guerra, que vai aumentando à medida que respiro. Então vou me aproximando do livro indicado pelo meu subconsciente mais remoto, onde não funcionam os recalques ou segredos, até que o alarme dispara de uma vez e retiro o objeto da estante.

É o momento sagrado de cheirar o livro, sentir aquela mistura sagrada de papel e tinta, que penetra na corrente sanguínea e dá um barato. Raramente falha o meu alarme, que os psicólogos mais astutos chamam de intuição.

Um bom amante dos livros, no entanto, não cai na cilada da paixão desenfrada por uma boa capa, uma orelha de primeira, uma página inicial arrebatadora. É preciso dar uma boa circulada na livraria, desligar o alarme, usar os equipamentos mais antigos mesmo, que são os olhos e o coração. Percorre-se aquelas prateleiras ermas, onde podem estar os autores abandonados, exilados, os fora do esquema das grandes editoras. É preciso caminhar sem demonstrar preocupação, um andar quase de desdém, uma caminhada por ali, meio claudicante, como quem usa uma bengala imaginária.

Depois de uma boa colheita, é o momento de procurar um bom lugar para sentar e fazer a garimpagem. Cheirar os demais, passar as páginas, cutucar, ler trechos. É a hora de confirmar o encontro ou despistar o infeliz. Daqui a pouco, chegará o momento fatal de ver o preço, melhor não apressar os fatos. Minhas últimas grandes descobertas foram “Três cavalos”, do italiano Erri de Luca, e “Rosário Tijeras”, do colombiano Jorge Franco. Arrisquei pesado no chileno Luís Sepúlveda, com “Diário de um Killer sentimental”, mas faltou algo. Fiquei mal acostumado, com o Roberto Bolaño.

Por aqui - No Recife, estamos ainda órfãos da Livro 7, é uma saudade perpétua e irrevogável, melhor nem passar pelo centro para não sofrer muito. A Livraria Cultura, aquela gigantesca criatura, nos fornece uns assentos que você só fica o tempo de ler uma orelha, sob o risco de uma boa escoliose, fora câimbras nos glúteos. Além disso, não um reles, um raquítico banheiro.

Ultimamente, eles estão numa perseguição ao avesso junto aos leitores. O sujeito entra, com um livro comprado lá mesmo, na semana anterior, e vem um vendedor, educadíssimo, dizer que o apito da porta apitou, que o livro deve ter magnetizado de novo. Já aconteceu comigo três vezes, é um troço chato. A vantagem é que o vendedor entrega logo um cartão dele, muito bonito, e volta muitíssimo feliz, com seu livro desmagnetizado, você pensa inclusive que vai ganhar um belo brinde, mas a brincadeirinha ficou por ali.

Tem a Poty, que é uma ótima livraria, principalmente para a turma das Ciências Humanas, mas eu não sei qual o mistério existencial ou metafísico, os vendedores estão sempre ocupadíssimos, parece inclusive que estão consertando o mundo. Outro dia, fui comprar um lote de livros para a minha escola, passei quase um mês pelejando, parecia que eu estava comprando uma jibóia do Instituto Butantãn em 13 parcelas. Já estava desistindo, quando o Felipe entrou em ação, e resolveu tudo. O Felipe para a Poty é como o Erasmo era (poxa, essa ficou horrível) para o Roberto, nos bons tempos. Desculpem a comparação destoante, mas foi a única que me ocorreu.

A livraria oferece café e água mineral de graça, e os clientes citam Lacan, Malinovsky e Foucault, fora um camarada que vai lá toda tarde, falar seu inglês de Londres, com um dos vendedores. Eu, que falo inglês pra chuchu, não entendo uma vírgula. A Poty fica na Conde da Boa Vista, que está passando por obras, e o trânsito, que já era péssimo, ficou pior. Melhor ir de helicóptero.

Esta semana, voltando da dentista, esbarrei na Livraria Arraial, ali na Rosa e Silva, e tive um sobressalto no espírito. Rapaz, o espaço está bonitinho, com muita coisa boa. De cara, vi três livros do Juan Carlos Onetti e pensei: tem algum maluco aqui. Para minha surpresa, o “Estuário” também está sendo vendido lá, então vi que são malucos mesmo, e minha anestesia passou na hora. Procurei incontinente pelo vendedor. O Antônio veio me atender, é solícito e conversador, e tem na biografia algo como ter jogado no Santos na época de Pelé: foi vendedor na lendária Livro 7.

Falamos do assunto (o da Livro 7) “en passant”, porque se fôssemos entrar nos detalhes, daqui a pouco estaríamos no boteco mais próximo, tomando Rum Montilla e Coca Cola, afogando nossas lágrimas de saudade, lembrando aquele galpão infinito, aquele clima que ninguém do Recife esquece.

Perambulei a valer, vi que a Arraial está tinindo, fiquei tão contente, que esqueci até de perguntar se tinha banheiro, para malhar a Cultura. O Antônio disse que estavam esperando mais 1.000 livros da Editora Record para esta semana, e fiquei procurando espaço ali para colocar mais 10 exemplares de alguma outra coisa, e não achei.

Bem, mas eu lá vou ser louco de discutir com um cara que já foi vendedor da Livro 7?

Fico por aqui, e nada de me acusar de merchandising.

Postado em Crônicas | 14 Comentários »