Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Vinte e três minutos na Dantas Barreto

7 de julho de 2007, às 10:11h por Samarone Lima

Com ilustração de João Lin

Estou na avenida Dantas Barreto, centro do Recife, exausto, depois de um dia cheio de atividades, desde a troca de um cheque, após périplos em três Itaús (não sei como se escreve Itaú no plural), trabalho com meus alunos no Alto Santa Terezinha, encaminhamentos de pendências, enfim, essas coisas da vida e da sobrevivência. Então, é hora de voltar para casa.

A Dantas Barreto, como foi bem descrita em um documentário há algum tempo, é uma avenida que vai de nada a lugar nenhum. Foi uma idéia maluca do prefeito Augusto Lucena, se não me falha a memória, que dizimou o bairro de São José quase inteiro, casarões e arquiteturas, isso sem falar no sofrimento das famílias.

Começo a contar os minutos para ver quanto tempo espero meu “Centro do Cabo”. A movimentação no entorno das paradas é algo poderoso, a luta pela sobrevivência torna a chegada de qualquer ônibus um comércio dos mais vorazes. Os vendedores de pipoca se amontoam às janelas, as preferidas são as salgadas, que custam R$ 0,50. De fato, são saborosas, dá para tapear a fome até chegar em casa, uma hora e vinte minutos depois.

O comércio da compra e venda de passes é também digno de nota. Há gente de toda idade fazendo este trabalho. Uns com cara de gangster, outros com cara de desespero, outros com cara de quem está apenas buscando ganhar uns trocados a mais. Tem uma senhora que simpatizo há tempos, aquela sexagenária gordinha, com sorriso bom. Me aproximo e peço dois passes tipo “B”, que é o que usamos no Centro do Cabo. Ela me cobra R$ 2,30 e diz que compra por R$ 2,10. A diferença é o lucro. No ônibus, a passagem custa R$ 2,45.

Aproveito para fazer perguntas. Dona Zélia tem 60 anos, mora no Alto Três Carneiros (ou são dois, não lembro direito, eu quando não tomo nota, esqueço muitas coisas), e fica na Dantas Barreto das 7h às 19h. Sim, 12 horas ali, ganhando o seu e lutando pela vida. Traz a comida de casa, e só gasta na rua um pouquinho, um café com pão, já na parte da tarde. Também vende pipocas e salgadinhos, que ajudam a fazer uma frente.

“A gente trabalha aqui faz tempo, todo mundo se conhece”, diz, com um sorriso bom e a esperança de estar viva, quando chegar a aposentadoria, daqui a cinco anos.

Zélia, que tem a mesma idade de uma tia minha que mora em Fortaleza, tem três filhas, duas casadas e uma solteira, que mora com ela. Vai ganhar o terceiro neto em breve. Engraçado isso: ela tem três filhas mulheres, e os netos todos são homens.

“É assim. Quando as filhas são fêmeas, os netos são tudo macho”, explica, e lembro das compensações.

Fico olhando os ônibus. Vem um bem longe (reconheço os ônibus da São Judas Tadeu a quilômetros, ele tem as cores da Itália), aperto o olho e vejo: Cabo/Cohab. Não serve. O tempo vai passando, converso mais com Dona Zélia, ela explica que todos que trabalham ali, do mais simples vendedor de pipocas ao que trabalha com CD pirateado, sobrevive da rua. E a cada chegada de ônibus, a movimentação aumenta, parece que o coletivo chega com um imã. A gritaria é grande, as promoções surgem ao acaso, a pipoca salgada reina absoluta, em segundo lugar vem a água mineral, e só na partida, o comércio termina.

Passam mais três “Cabo/Cohab”, eu sinto um cansaço, minha bolsa nas costas pesa, tem livros, eu sempre ando com livros para minhas atividades na escola, pareço um contrabandista de papel, de poetas e romancistas, mas não reclamo, adoro isso.

Estou com vinte minutos na Dantas Barreto, conversei com Dona Zélia, comprei uma pipoca, até que surge, ao longe, o Centro do Cabo, e pequena multidão se aglomera. Quando o ônibus chega, subimos como dá, naquele aperto, até que um homem moreno, com cara de vigilante, calça azul, cisma com outro, um galego com cara de quem bebeu, cabelos desgrenhados, dentes horríveis.

“Tás querendo me roubar, safado?”

Já estou do lado de dentro, passando pela roleta, quando a confusão aumenta, os dois estão do lado de fora.

“Tás doido?”

O pernambucano usa mesmo essa linguagem, não é invenção minha.

Os dois ficam num pega pra capar, os passageiros ficam na expectativa de uns sopapos, um boxe em plena avenida. Cara de Vigilante dá-lhe uns carões, o chama de safado, diz que está de olho, Cara de Quem Bebeu fica leso, tentando escapar, sabe que tentou mesmo dar uma gatunada, o cobrador me olha e diz:

“Isso é um safado. Tá aqui roubando direto. A Polícia nunca aparece”.

A rusga termina porque Cara de Vigilante embarca, e o motorista começa a ciscar, anunciando a partida. Neste momento, Cara de Quem Bebeu sente um arroubo, sobe-lhe uma fleuma sabe-se lá de onde, ele se aproxima do ônibus e grita pela janela:

“Tu não sois filho de Gerson, ládo Cabo? Pois eu vou falar com ele, visse?”

Não tivemos tempo de entender este final surpreendente, não sei se Cara de Vigilante é mesmo filho de Gérson, pois o motorista arrancou, indiferente ao final da cena urbana. Olhei para o relógio: 23 minutos de Dantas Barreto.

Então começam as conversas, as avaliações, a psicanálise dos fatos. Uma mulher diz que Cara de Quem Bebeu estava atuando com uma mulher.

“Eu vi a gilete na mão dela!”

Burburinhos, rumores, acusações, é preciso ter cuidado, a Dantas Barreto está um ninho de ladrões, essas coisas. Me ajeito por ali. Graças a Deus, peguei uma vaga na janela, perto de onde fica a cadeira do cobrador, que tem mais espaço para estas minhas pernas de girafa. Sem morrer, que está cedo, estico as canelas. Que dia!

Neste meio tempo, não avisei a vocês, eu tinha comprado duas cervejinhas em lata. Abro uma, faz aquele barulhinho bom. Pego dois canudinhos, dou uma boa golada, encosto a cabeça no vidro da janela e sei que teremos muito chão pela frente.

Uma senhora gorda, que sentou ao meu lado, ficou calada um bom tempo. Depois, soltou uma espécie de desabafo sentido, cheio de raiva e tristeza:

“É muita safadeza!”

Acho que só eu escutei.

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