Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

Apresentação


Livros do Autor


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Calendário

julho 2007
D S T Q Q S S
« jun   ago »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

Arquivos


Usuários online


Rabiscos de Fortaleza - 2

19 de julho de 2007, às 19:47h por Samarone Lima

Não sei o que houve aqui em Fortaleza, mas o fato é que cheguei em meio a uma febre psicosomática de proporções gigantescas, envolvendo um tal “chip da Oi”.

Desde a terça-feira, minha família só fala disso. Minha mãe, já na rodoviária, começou a comentar que precisava pegar o chip dela. Em casa, minha irmã Patricia nem me deu um abraço.

“Tu tem que pegar um chip pra tu, Sama”, foi o primeiro comentário.

Depois, ela pegou o telefone e foi ligar - para a Oi, claro.

Fomos à casa da tia Beta. Meu primo, Rogério, que andou tendo dengue hemorrágica, estava ao telefone. Demorou horas, até que desligou e comemorou.

“Finalmente, consegui meu chip´”.

Estava começando a ficar com dor de cabeça, quando reencontrei o Neto, meu amigo maratonista, que ficou de fora do Pan por reles 16 minutos.

“Rapaz, tu já pegou o teu chip?”, foi a primeira pergunta.

Parece que a promoção é venenosa, a pessoa bota R$ 10,00 e recebe R$ 100,00 de crédito.

Não sei o que diabos as pessoas têm tanto para falar. Como meu objetivo é cada vez falar menos, uma promoção dessas, para mim, não faz sentido.

Estávamos tendo uma conversa bucólica, familiar, ontem à noite, quando minha irmã fez uma pausa poética. Pensei que ela iria lembrar alguma passagem poética de nossa atribulada pequeninice, mas ela falou bem séria:

“Será que eles só colocam o crédito depois que a gente gastar os R$ 10,00?”

Joguei a toalha. Melhor dançar um tango argentino.

Na segunda-feira, colocarei no ar a entrevista bombástica com tio Ademar, que nos anos 70 foi um dos homens mais ricos e loucos do Crato.

Vou aqui, tomar uma cervejinha na Praia do Futuro.

Postado em Crônicas | 3 Comentários »

Rabiscos de Fortaleza -I

19 de julho de 2007, às 19:47h por Samarone Lima

Cheguei a esta imensa casa da rua Mário Studart, 200, Monte Castelo, Fortaleza, cercada por um muro de pedras, em 1983, segundo minha mãe agora há pouco. Eu estava com 14 anos, o bairro era festivo, com muitos jovens, e ficou famosa uma quadrilha que organizamos, onde recitamos na vida e nos corpos aquele poema famoso do Drummond. O Pepo se apaixonou pela Nadja, que se apaixonou pelo Roncalli, que se apaixonou por alguém que não lembro o nome, que não queria ninguém. E foi acontecendo aquela soma de paixões, até que alguém acertou com alguém, e pelos milagres dos campos mórficos, os casais foram nascendo, eu encontrei a Veruska, passei vinte mil dias criando coragem para pedi-la em namoro, até que ela aceitou e o céu se misturou com a terra.

Mas tudo passou. Não sei o que aconteceu com o bairro. As ruas estão vazias. Os muros subiram de altura, pelas mãos do medo. Muita gente se mudou. Os que partiram, nunca mais voltaram. Da velha turma, só continuam o Pepo, que virou jornalista, e o Neto, que é maratonista e deveria estar no Pan. Ontem, voltando com minha mãe de um passeio, comentei sobre o deserto. Ficaram as árvores, por assim dizer. Inútil procurar o bando de jovens correndo atrás de uma bola, no final das tardes, com partidas decididas no último lance, um golaço de alguém, a festa. Inútil procurar os jogos de vôley, com um pedaço de pano servindo de rede. Todos se espalharam.

Talvez o grande desafio seja este: não procurar pelo que não existe mais. É tolice voltar para os lugares do passado em busca de algo intacto, ficar na melancolia da imagem congelada. Eu também fui embora, ora bolas. O tonho, meu irmão, casou e foi embora. Meu outro irmão, o Paulinho, foi embora para Minas. Meu pai foi para outra casa. Muita gente buscou outra paisagem. Nossos movimentos pelo mundo mudam geografias.

Melhor então percorrer o velho jardim da casa, que agora está sendo cuidado pelo seu Antônio, dedicado jardineiro movido a Ypióka, com um sorriso sincero em meio às plantas. É bom saber que algumas plantas, hoje adultas, foram plantadas por mim, em uma dessas muitas vindas, desde 1998.

Melhor ficar observando minha mãe, em seu eterno costume de arrancar o esmalte das unhas, enquanto resolve uma pendência na Riachuelo, na tentativa bem-sucedida de fazer um crediário para o filho mais moço, embora nem tão moço assim. Melhor observar atentamente minha irmã Patrícia, e ver nela alguns gestos da minha avó, traços que perpetuam a família. Melhor ver a satisfação eda dona Ermira, quando encontra uma amiga na rua, e me apresenta como o filho “jornalista e escritor”, com uma ponta de orgulho, como quem indica que tenho duas profissões. Agora, ela prepara uma sopa. Hoje à tarde, tia Beta fez um bolo que adoro, e fomos juntos à rodoviária, comprar a passagem de volta.

Escrevo no famoso gabinete, onde ficavam os livros, de uma biblioteca que chegou não sei bem como, as coleções que faziam sucesso, tempos atrás. Agora não é mais tempo de coleções. Desde que chegamos a esta casa, chamava atenção um objeto inusitado, para uma classe média-média: um cofre, incrustado na parede, com chave e segredo, da marca “Confiança”- de luxe.

Não sei o que tinha dentro do cofre, se meu pai guardou alguma coisa nele, desconfio que a chave esteja perdida para sempre. Ele está aqui, à minha frente, vazio de segredos, ou repleto de silêncios. Ninguém mais pode abri-lo.

Então me ocorre escrever algo, compartilhar retornos, passeios pelo passado, ancorado no presente. Às vezes, quem escreve sente uma imensa solidão, que precisa ser compartilhada. É o meu caso, hoje.

Amanhã terei que escrever sobre uma obsessão que tomou conta de todos os meus familiares e agregados, desde que cheguei. Um tal do “Chip da Oi”, que move céus e terras. Mas fica para amanhã. Por hoje, fico por aqui. Na Lan house, vamos de Roberto Carlos.

Postado em Crônicas | 3 Comentários »

Mini-recesso

19 de julho de 2007, às 12:08h por Samarone Lima

Estou em Fortaleza, sentindo o cheiro da família e vadiando pelas ruas da velha cidade, que me abrigou dos 9 aos 18 anos.

Os amigos só querem farra, minha mãe quer fazer todos os crediários do mundo e pensa em me levar a um cabeleireiro que vai dar jeito na minha juba.

Diante dos fatos, só me resta decretar um mini-recesso de crônicas neste blog, até o próximo domingo, quando estarei de volta.

Abraços a todos,

Samarone

Ps. Sugiro lerem o Blog da Naire e o Razão-Poesia, do Gustavo. Os endereços estão ao lado.

Postado em Crônicas | 1 Comentário »