Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Confissões de um leitor obsessivo-compulsivo (Final)

31 de agosto de 2007, às 14:07h por Samarone Lima

Com o traço mágico do João Lin

Como um leitor obsessivo-compulsivo, passei por várias fases, e acho que estarei em constante mutação, até o último dia. Tive minha época de Gabriel Garcia Márquez, e vivia naquele mundo maluco de Macondo, andei de barco atrás do amor naqueles tempos do Cólera, fiquei à deriva com aquele sobrevivente do naufrágio, e tantos outros personagens que inundaram meu imaginário. Como obsessivo que se preze, li todos os livros dele, um após o outro, num pique de deixar muitos leitores vorazes com inveja.

Hoje olho assim, meio de soslaio, parece aquela paixão infinita que passou. Nem o “Memória de minhas putas tristes” tive ânimo para comprar.

Outro surto psicótico aconteceu com o Fernando Pessoa. Teve época em que eu só andava com o velho poeta debaixo do braço ou dentro da bolsa. Era tanta tabacaria, não sou nada, nunca serei nada, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo, que a alma ficava à deriva. A última pancada foi o “Livro do Desassossego”, que um ladrão me roubou, com arma em punho e cara de mau. Ainda pensei em pedir para deixar o poeta comigo, mas não deu tempo, e ele poderia se zangar. Vai que levo um tiro por causa da poesia? Seria poético, mas trágico.

A fase do Fernando Pessoa nunca passa.

Tive minha época de Juan Carlos Onetti, iniciada em São Paulo, complementada com as muitas viagens ao Uruguai. Comprei quase toda a obra dele e me deliciei, lendo muitíssimas páginas nos cafés de Montevidéu. Uff, agora me deu uma saudade grande, mansa, cheia de memórias boas. Agora, a editora Planeta está lançando toda a obra do Onetti, mas eu olho assim, muito por cima, e digo solitariamente:

“Chegou com uns sete anos de atraso, meu bem”.

Minha obsessão com o Roberto Bolaño durou exatamente um livro: “Os detetives selvagens”. Peregrinei por várias livrarias, em Buenos Aires, à procura do livro, após ler uma entrevista devastadora dele, uma das coisas mais criativas que já li. Foi a primeira vez que tive um surto psicótico para comprar um livro, somente por causa de uma entrevista de um autor. “Esse cara tem algo a me dizer”, foi o que pensei.

Acertei em cheio. O livro é fascinante, mas cometi o erro de ler o melhor livro dele na primeira tacada. Resultado: fui em busca do restante da obra, e os outros livros não chegam nem aos pés. De vez em quando, releio trechos de “Os detetives”, para botar adubo na minha imaginação.

A fase Lawrence Durrel começou quando li “Justine”, lá pelos 14 anos, e terminou quando li o último livro do “Quarteto de Alexandria”.

No atual momento, minha obsessividade permanente e irrevogável é o João. Sim, o velho, bom, infinito, absurdo Guimarães Rosa. Sinto arrependimentos internos os mais intensos, ao lembrar que só fui ler “Grande Sertão: Veredas” aos 37 anos. Não sei onde andava minha cabeça, minhas prioridades. Quantas milhares de páginas inferiores não terei debruçado os olhos, antes de chegar ao Riobaldo e Diadorin?

Enquanto escrevo esta cronicazinha, olho meio sorrateiramente para “Noites do Sertão”, que está ao lado. Mais tarde, meu filho, mais tarde nos encontraremos. No final da tarde, após realizar todas as minhas tarefas, ficaremos a sós, eu e você, e ái de quem nos interromper.

“Tudo o que muda a vida vem quieto e no escuro, sem preparos de avisar”, diz o meu amigo, à página 48.

“Era bom gostar dela assim, com aquela velhice da alma, com o coração preguiçoso”.

Ai, meu Deus, tem algo acontecendo com Soropita, Doralda, e agora o clima parece que vai esquentar, com a chegada do Dalberto!

Tive minha fase de levar livros sem a permissão do proprietário, fruto da minha indigência financeira. Tive lances felizes, como “A casa dos espíritos”, da Isabel Allende, outra autora que já não me diz nada. O golpe mais fantástico mesmo foi “Viagem ao fim da noite”, do Céline, contrabandeado no meio de um jornal velho e uma agenda.

Ataquei a Livro 7 algumas vezes, mas já pedi desculpas ao Tarcisio Pereira, creio que ele aceitou, até porque foi pela Livro Rápido, que ele gerencia, que fiz a primeira edição de Estuário. A Síntese fechou, bem como outras duas que visitei, com más intenções.

Em São Paulo, tive um grande tropeço, mas foi um lance de muito azar. Durante o coquetel de lançamento de um livro, dei um jeito de colocar “A dama e o cachorrinho”, do velho e bom Tchekov, dentro da surrada bolsa. À saída, acompanhado do Dom Castro e Silva, capaz de surrupiar o Fernando Pessoa em papel bíblia, de uma livraria carioca (golaço), fui interpelado pelo vendedor. Ele não tinha visto a cena do confisco cultural de “A dama e o cachorrinho”, mas viu que eu estava ao lado dele o tempo todo.

Sabem qual foi o azar?

Só tinha aquele exemplar na livraria. Tinha chegado naquele dia. O vendedor fez a relação, e ficou esperando que eu saísse, para dar o bote.

Houve um desentendimento básico, expliquei algo sem muito sentido, mas o sujeito era nervosinho e queria confusão. Depois chegaram outros vendedores com aquela conversa de “tá me tirando, mano?”, da turma de São Paulo. Pensei num linxamento literário, mas do nada surgiu alguém da loja que dissolveu a gangue.

Lembro que uma vez tinha colocado um livro no meio das minhas coisas, e um vendedor da Livro 7 viu. Ele disfarçou, fez de conta que não era com ele, esperou eu me afastar e sutilmente retirou o livro do meio das minhas coisas, devolvendo-o à prateleira.

Chamam isso de sutileza, mas é um passinho a mais: é delicadeza.

O mundo, sem os delicados, é um grande tumulto.

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Confissões de um leitor obsessivo-compulsivo - Parte II

28 de agosto de 2007, às 15:48h por Samarone Lima

Com a ilustração do mago João Lin

Como eu vinha dizendo na crônica anterior, o maior problema do leitor obsessivo-compulsivo é a figura do “conhecido”, aquela pessoa que habita um lugar sentimental incerto em nossa vida. Não é amigo, não tem intimidade, não é inimigo, não tem maldade. É apenas um conhecido.

Quando um conhecido entra no ônibus em que estou, lendo meu livrinho, tomado por alguma história, quieto como um passarinho, já sei. Ele vai sentar ao meu lado, com um sorriso, e dizer:

“Samarone, tudo bem?”

Vou ficar tentando lembrar seu nome e ele vai fazer a idefectível pergunta:

“Como está o Poço da Panela?”

Acabou a leitura. Vou explicar que desde dezembro do ano passado estou morando no Cabo de Santo Agostinho.

“No Cabo?”

A cara de espanto será imensa, parece que de repente estou no Iraque. Tudo bem, eu admito, o Cabo é longe, muito longe do Recife, mas tem gente que faz uma cara tão esquisita, que já me dá logo um cansaço espiritual.

Como eu vivo mudando de emprego, ele vai perguntar se ainda estou ensinando na Católica, de onde saí há uns anos.

“Não, estou ensinando na Kabum!”, reponderei, desalentado ao ver o livro fechado, sem chance de retomada.

Se ele já souber o que é a Kabum! (tem acento de exclamação mesmo), é uma vantagem para mim, porque não terei que explicar o que é o projeto, os 80 jovens, enfim. Se não souber, terei que explicar. Adeus mais vinte páginas de “Noites do Sertão”, que estou lendo. Mas terei que explicar meu trabalho na Oficina da Palavra, o projeto de incentivo à leitura etc. Todo mundo acha lindo esse negócio de estimular a juventude a ler, parece que o sujeito vira um feiticeiro, xamã, curandeiro, mas se preocupar com bibliotecas da galera menos favorecida, ninguém se preocupa.

Se o conhecido for um “conhecido do estádio”, da torcida do Mais Querido, que é o Santa Cruz Futebol Clube, onde deposito minhas esperanças futebolísticas desde antes da criação do mundo, terei que escutar uma avaliação profunda sobre o elenco, a torcida, questões de caráter do treinador, o destempero de algum dirigente, dilemas existenciais sobre o lateral esquerdo que não sabe cruzar, o volante que não tem consistência. ´

Como escrevo para o Blog do Santinha, serei sabatinado, perguntado, escrutinado, virado do avesso para explicar o inexplicável de nossa campanha na Série B, como se fosse o responsável pela contratação dos jogadores. Serei indagado sobre o público do último jogo, número de sócios em dia e outras querelas envolvendo o Clube das Multidões. Sairei pela tangente, e o livro do Guimarães Rosa já vai estar queimando em minhas mãos.

Com um golpe de sorte, o conhecido irá descer na metade da viagem, e chegará uma sensação de paz, plenitude espiritual, porque a leitura poderá ser retomada sem mais delongas, e dificilmente entram dois conhecidos no mesmo trajeto, aí é muito azar para um obsessivo literário só. Mas não, o conhecido sempre vai até o final da viagem. Pior: tem muito mais assuntos que seu melhor amigo.

Numa viagem para o cabo, eu e o Valdemir Leite, meu amigo do peito desde os tempos da Católica, conversaríamos um bocado, mas apareceriam muitos silêncios para uma olhada na paisagem, comentários sobre livros, eventuais naufrágios da alma, enfim. O conhecido não, ele fala pelos cotovelos e quer que você tenha respostas para muitos males da humanidade.

Outros inimigos declarados do leitor obsessivo-compulsivo são as mulheres grávidas. Quando elas passam pela roleta, fico olhando e pensando mentalmente “vai lá para trás, lá para trás”, temendo o pior. Você está lendo um trecho fundamental do Lawrence Durrell (desculpem, mas meus gostos literários são meio loucos), ou um conto do Juan Carlos Onetti, e a grávida resolve estacionar aquele barrigão na sua frente.

Surge o dilema existencial, moral, social. Claro que você, como uma pessoa decente, vai levantar e oferecer a cadeira. Uso meus santos todos, faços mandingas as mais diversas. “Lá atrás tem cadeira, lá atrás tem cadeira”.

Se ela fica ao meu lado, respiro fundo e me dou de presente mais uma página. Só mais uma, minha senhora, segure ai seu barrigão, que “O impossível Baldi” vai resolver sua vida agora, ou a Justine vai dizer algo surpreendente no “Quarteto de Alexandria”. Feita a ressalva, o prolongamento do prazer da leitura, é hora de voltar à vida em sociedade. Olhar com aquela cara de gente humilde e dizer:

“A senhora quer sentar?”

Não conheço uma mulher grávida que recuse uma cadeira de um leitor obsessivo-compulsivo, que lutou bravamente por aquele mísero assento. Me consolaria se ela puxasse um livro, mesmo os “Minutos de Sabedoria”, e fosse lendo. Teria uma inveja cúmplice. Mas não. Fica olhando para o tempo, pensando certamente no filho que está vindo, o nome, aquela coisa toda muito linda e amorosa.

Tudo bem, mas… ela bem que poderia ter ido mais para o fundo do ônibus, né?

Para Júlio Vilanova, professor, que conseguiu com amigos uma doação de livros para a Biblioteca Popular do Coque.

Amanhã falarei sobre minhas gatunagens literárias, algumas em parceria com Dom Castro e Silva, outras em vôos solo.

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Confissões de um leitor obsessivo-compulsivo - Parte I

27 de agosto de 2007, às 13:43h por Samarone Lima

Aqui vai uma confissão besta, mas a vida é cheia de besteiras essenciais: sou um leitor obsessivo-compulsivo. É uma questão psicológica, fenomenológica, espiritual, que às vezes me causa problemas. Leio o tempo todo, a todo instante, em lugares os mais inusitados, contextos os mais desfavoráveis. Se eu fosse pára-quedista, iria querer ler durante o salto. Mas, como tenho pavor de altura, leio aqui no chão, onde a queda dói menos.

Não saio de casa sem um livro na bolsa. Não viajo sem uma boa leitura, previamente selecionada. Às vezes, nesta minha mente doentia, gasto mais tempo escolhendo “o” livro da viagem, do que arrumando o mochilão. Já voltei da estação do metrô, em São Paulo, quando descobri que no mochilão, tinha esquecido de colocar um bom livro.

Muitas dores da alma curei em livrarias. A Livro 7, naquele meu tempo de liso oficial, de Casa do Estudante Universitário, foi minha psicanálise. Até hoje acho o Tarcisio Pereira uma espécie de coroinha, com tendências à santidade. Como o dinheiro era pouco, o dilema existencial sobre qual livro comprar, me consumia longas horas. Muitas vezes virei um boi, e fiquei ruminando horas para definir qual livro seria o escolhido. Quem me olhasse de longe diria: “puxa vida, ali está um pensador, um filósofo”. Não era nada disso, era a crueldade de escolher entre um Rubem Braga e uma Clarice Lispector.

À saída da livraria, depois desta querela metafísica, eu sentia que algo já tinha mudado. Com um livro novo na bolsa, a vida ficava mais leve. Vinha o momento seguinte, o de tomar posse do livro. Ali, eu ganhava uma APE (alta provisória da existência). Aquele momento mágico, transcedental, de sentar num boteco, um copo sujo, olhar o livro, botar o nome, data, local. Sim, porque até o momento da inscrição, o livro é ainda do autor. Quando se coloca o nome, está selado o encontro, e algo começa a nascer.

Após o primeiro gole, vem o momento de dar uma boa cheirada no livro, passando as páginas rente ao nariz. Livro é como gente, cada um tem seu cheiro, e é diferente pacas. Afirmo com todas as letras e baseado em 25 anos de leitura obsessiva: o cheiro do livro dá barato. Nunca cheirei cocaína, mas afirmo do alto da minha prosopopéia: cheirar livro deixa o camarada meio malucão.

Quando viajo, não vou aos lugares turísticos tradicionais. Minha bússola afetiva me leva sempre às livrarias, sebos e cafés. Ah, amigos, estou vendo agorinha as livrarias de Buenos Aires, Montevidéu, Montevidéu, Paris. Não, não, livrarias não são empresas que vendem coisas, são santuários. E feliz da cidade que tem bons sebos, o que não é o caso do Recife. No Cabo, onde moro, nem livraria tem, quanto mais sebos.

Para um obsessivo-compulsivo como eu, o sebo é um labirinto mágico a ser desvendado. Todos os autores que estão ali, têm uma sobrevida. Nos sebos, os livros não estão expostos, mas reencarnados. Adoro encontrar uma Clarice Lispector, numa edição dos anos 80, com algum traço sentimental:

“Flávio Pereira, dezembro de 1982”.

Imediatamente penso no Flávio Pereira, quero saber o que ele fazia naquele dezembro de 1982, quando eu tinha meus magros 13 anos, e me recuperava psicologicamente do trauma futebolístico que foi a derrota para a Itália, na Copa que tinha que ser nossa. Me intriga saber que ele deixou a Clarice ir embora de sua biblioteca. Terá morrido? Mudou para o exterior, e não conseguiu levar todos os livros?

Como leitor obsessivo (o compulsivo já está enchendo a paciência), enfrento também meus “incômodos de viagem”, como diz o Fernando Pessoa. Sou capaz de esperar dois, três ônibus, para conseguir um lugar sentado. Não é preguiça ou cansaço, é somente para fazer uma coisa que adoro: ler.

Ah, quantos capítulos maravilhosos, enquanto o Centro do Cabo faz seu percurso tortuoso, da Dantas Barreto até o Cabo, driblando buracos e tumultos da BR 101! Quantos poetas me fizeram companhia, quantos personagens foram mostrando seus dramas, enquanto engarrafamentos e desgovernos nas estradas se acumulavam!

Vez por outra, vem um amigo ou conhecido me informar que ler no ônibus é perigoso, porque pode deslocar a retina. Afirmo com toda a minha sabedoria cósmica, que não é muita: trata-se de uma grande, insustentável e maléfica mentira, dessas que surgem do nada e viram domínio popular. Nunca ouvi falar, não conheço ninguém (e olha que conheço gente pacas), que tenha deslocado a retina lendo no ônibus, por mais buracos que tenha a estrada.

Se for o caso, isso deve ser tratado como um regozijo literário.

“Que tens aí no olho?”

“Rapaz, desloquei a retina à página 317 do Grande Sertão Veredas, quando o Riobaldo olha Diadorim com uns olhos mansos”.

Pelo que sei e entendo da espécie humana, tudo que está deslocado pode ser recolocado no lugar de origem. Então, leio e sempre lerei em carro, ônibus, trem, lotação, avião, navio, em qualquer coisa ou animal que se mova.

Estava terminando este texto, quando uma letora, a Ane, me mandou um trechinho do “Três Cavalos”, belíssimo livro do Erri de Luca, que tem tudo a ver:

“(…) cada cópia de livro pode pertencer a muitas vidas e os livros deviam ficar desvigiados nos lugares públicos e deslocar-se junto com os passantes que os levam consigo por um pouco e deveriam morrer como eles, consumidos por doenças, (…) rasgados pelas crianças para fazer barquinhos, em suma deveriam morrer em qualquer lugar a não ser de tédio e de propriedade privada, condenados a uma prateleira pela vida toda”.

Amanhã falarei sobre a incrível figura do “conhecido”, aquela pessoa que habita um lugar sentimental incerto, mas que tem um prazer existencial: sentar ao lado do sujeito que é louco por leitura, e puxar um assunto que não vai e nem volta. Depois, comentarei um fato existencial absurdo, que é o peso dos livros, na hora da mudança. A última parte desta minha prosopopéia vai abordar o mundo mágico das bibliotecas da formação de novos leitores. Por último, falarei um pouco sobre minhas mais fantásticas gatunagens literárias, carreira que aposentei há algum tempo.

Postarei em três bocados, para o texto não ficar muito grande e cansar a vista do leitor, ou, num caso mais grave, deslocar a retina.

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O gato

22 de agosto de 2007, às 2:44h por Samarone Lima

Com o traço mágico do João Lin

São 6h22, acabo de entrar no ônibus Centro do Cabo, rumo ao Recife. Pego o ônibus mais cedo porque dou aulas às 8h, e tenho uma aversão sentimental de proporções bíblicas, com o fato de chegar atrasado em sala. Desde a época em que ensinei na Católica, gosto de chegar cedo, um tempinho antes, para ver o conteúdo do dia, organizar pastas, passar na secretaria, dar bom dia, boa tarde ou boa noite, bebericar um café, chegar sem pressa, ver os alunos chegando aos poucos. Já diz aquela velha lenda indígena que quando a gente corre muito, a alma fica lá atrás, é preciso esperar. Melhor então ir com a alma.

Sim, mas onde eu estava mesmo? Ah, perto de passar pela roleta do ônibus, e aquela conversa toda sobre horários. O leitor vai dizer que sou um obsessivo-compulsivo, por estar banhado, arrumado e com o gosto de café na boca, às 6h22, faltando mais de 1h33 para o início da aula. É que o distinto leitor não mora no Cabo de Santo Agostinho e não sabe que tem um “Semi-Expresso” saindo às 6h5, outro às 6h25.

O “Semi-Expresso”, caro amigo ou amiga, é um ônibus que corta caminhos e o motorista parece ter uma tara sentimental de chegar ao Recife. Exatamente uma hora depois, estou no Cais de Santa Rita, e caminho para a escola mansamente, olhando os barcos matinais à beira do rio, os peixes magricelas pescados em alto mar, vendedores de pipoca com aquela cara de enfado. Atravesso alguma ponte e estou no Bairro do Recife, onde fica a escola. No ônibus comum, a viagem se torna uma odisséia lenta e desalentadora, com milhares de paradas separando o Cabo do Recife, a Imbiribeira lembra mais uma BR dessas do Brasil, que nunca chega ao fim.

Preciso urgentemente comprar um anti-dispersivo, porque hoje está difícil chegar ao assunto principal.

Voltemos. São 6h23, vou chegando à roleta, e escuto um reclame felino.

“Miau…”

Coisa de gato faminto. Olho para trás. Uma senhora gordinha, baixa, agitada, segura um saco. De dentro, sai outro miado, e movimentos típicos de quem não está gostando daquela viagem. Ela senta de um lado do ônibus, mas perde o lugar à janela, olha para outra criatura e pergunta:

“Posso ficar nessa janela aí? É que se eu precisar jogar ele fora, não morre”.

Sento por perto, que quero ver o desenrolar dos fatos. O gato continua miando, sem entender nada.

Vinte minutos de viagem, estou cambaleando um pouco com aquele ventinho no rosto, porque sou um camarada fissurado em janelas, escuto um comentário perdido que me desperta:

“Vou soltar você”.

É a distinta senhora, conversando com o felino. Daqui a pouco, ela fala bem alto, com a disposição de um gerente de mercadinho de subúrbio:

“Peraí, motorista, que vou jogar o gato fora”.

Meu teclado do computador está sem ponto de exclamação, mas é o caso.

Os passageiros prendem a respiração. Olho pela janela. Um gato malhado, de idade incerta, é arremessado, nome não revelado, desce por um terreno íngreme, fica olhando meio perdido, desconfiado, procurando os seus. Não tem ninguém conhecido, sequer um primo. O motorista só pensa em chegar ao Recife, acelera e deixa o animal comendo poeira.

“Ele só queria estar lá em casa, mas não é meu”, diz a mulher em voz alta, meio aliviada.

“Eu não gosto dele, mas não judeio”, completa.

“Não judeio com nenhum tipo de animal”.

O motorista se mete, o cobrador dá pitacos obsessivos. A parte da frente, onde está aquela turma que não paga mais passagem, entra num seminário internacional sobre a relação dos homens com os bichos, se bem que homem também é bicho. Surgem especialistas, correntes de pensamento, análises sobre a personalidade de cada espécie, filósofos e existencialistas. Comparações sobre gato e cachorro me lembram meu amigo Sérgio, que considera o gato um sujeito meio sonso. Meu negócio é com cachorro. Tenho certeza que em alguma vida passada, fui um vira-lata raçudo.

“A senhora podia jogar ele até com o ônibus correndo, que ele não morria”, comentou um expert, que certamente nunca teve um gato. “Gato resiste a tudo”.

“É, mas eu não judeio. Não gosto de judiar os bichos. Se não quer, é melhor deixar livre”.

Desconfio que ela falava mesmo era dos humanos.

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A felicidade a dois centavos

19 de agosto de 2007, às 21:10h por Samarone Lima

De repente, aconteceu a chegada deste objeto quase extinto, por culpa das modernidades e avanços tecnológicos: uma carta. Veio num final de tarde, enquanto eu tentava resolver algo por telefone, uma dessas nebulosas da vida. Daqui do primeiro andar, vi o carteiro, com sua imensa sacola, colocar o envelope em cima do muro, enfrentando os latidos desesperados de Bambam, nosso vira-lata mais querido. Não sei qual a cisma espiritual e metafísica de Bambam, que fica possesso quando vê alguém da Compesa, Celpe ou dos Correios. Ele, definitivamente, não suporta gente fardada. Se vier por aqui, amigo, venha a paisano, para evitar mordidas na canela.

A carta é de minha tia Teresa, irmã do meu pai, o José Vicente. Surpreso, eu não sabia que o nome dela é Terezinha de Lisieux Oliveira Mapurunga. Uai, tem um “Lisieux” na família? É a nossa vertente francesa? Por isso sou tão amigo da Emilia, que é francesa. É vocação familiar.

Outra surpresa: a carta veio sob a alcunha de “Carta Social”, e custou a quantia ínfima de dois centavos. Sim, amigos, dois reles, magricelas centavos. Não sei nem o que uma pessoa pode comprar com dois centavos. Pode não comprar nada, nem meio chiclete, mas pode mandar uma carta de três páginas para um amigo em outro estado, ou para um sobrinho, que foi o caso. Dois centavos, o preço de fazer alguém feliz.

A carta veio depois de uma visita à tia, em Fortaleza. Ela andou adoentada, um problema na perna, mas nem foi por isso que fui visitá-la, depois de tantos anos. É que estou num processo civilizatório interior, tentando resgatar o quebra-cabeça familiar, que deixei para trás, depois que resolvi sair andando pelo mundo, há vinte anos. Na última viagem a Fortaleza, fui ter com o velho e bom tio Ademar, o primo Sergei, a tia Teresa, e fui esbarrando na história da minha família.

A dona Terezinha de Lisieux me escreve em folhas amarelas, reciclando material de algum bloco do setor de “comunicação interna” da Prefeitura de Fortaleza, que não tem nada a ver com a história. Conta dos problemas de saúde, e diz que fica impressionada com essa minha paixão de contar histórias. Diz que perturba seu coração ver as riquezas do Brasil cada vez mais centralizadas. “Sei do pouco meu”, conta, e acho isso comovente. A gente precisa às vezes saber do pouco da gente, para enfrentar o mundo sem tanto exagero.

A tia é daquelas criaturas que acreditam nos “milagres diários”, então me sinto em casa, e sei que trocaremos muitas cartas de dois centavos. Depois, afirma que vale a pena “enlouquecer sempre”, e diz que eu seria o primeiro do bloco. Acredita que eu driblo o viver, que salto muros para ver o outro lado. Acho que a tia gosta muito de mim, e desanda a me colocar num lugar mais bonito.

Estou aqui, relendo sua carta para escrever esta cronicazinha de início de semana, numa noite chuvosa no Cabo. Ela diz que outro dia fechou os olhos por um instante, e teve vontade de chorar, com saudade dos que estão longe. Então, pelos dois centavos da sua carta, fizemos uma comunhão de sentimentos.

Fico sabendo que Sebastião, seu papagaio, fugiu três vezes, e na última, o camarada não foi encontrado. Se algum leitor de Fortaleza encontrar um papagaio que atende pelo nome de Sebastião, favor entrar em contato comigo, que acionarei o sistema de resgate. Isso é muito importante para a dona Tereza Lisieux Mapurunga. Logo, é para mim também.

Ela prometeu falar das “peripécias próprias da caduquice”, alguns fatos “extraordinários e inéditos”, e já fico na expectativa.

Acabei de responder a missiva, na minha velha Olivetti. No envelope, coloquei também “Carta Social”.

Espero que meus centavos também a façam feliz. São poucos, mas vão cheios de afeto, esse afeto pueril de um sobrinho que também acredita nesses milagres diários da existência.

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