A tímida, Machado de Assis e um segredo
Samarone Lima
Ela, esta amiga recente, ficou sabendo que eu estava trabalhando com literatura em minha Oficina da Palavra, com jovens do Recife. Então, mui modestamente, ofereceu ajuda. Me convidou para assistir uma aula que ela dá em um cursinho pré-vestibular. Tínhamos nos visto somente uma vez, no lançamento da Biblioteca Popular do Coque, o tempo suficiente para o reconhecimento.
Sim, eu adoro receber ajudas. Fui lá, no cursinho. Ela estava cercada pelos alunos, com aquele jeito maternal e cuidadoso que alguns professores têm. Almoçamos, conversando os livros, os caminhos e descaminhos da sala de aula, desta troca misteriosa que acontece entre professor e aluno. Falamos de nossas vidas, também, claro.
Mas havia algo nela que me tocava. Uma timidez. Mas não uma timidez disfarçável, como a minha, mas uma timidez intensa, enorme, que vinha da alma. Me lembrou muito a Clarice Lispector, que se defendia escrevendo. Então fiquei pensando comigo: como ela consegue dar aulas para turmas de 100/120 jovens, ansiosos pela vaga nas faculdades? Qual o mistério?
Chegou a hora da aula. Fiquei quietinho, ao lado do meu fiel amigo Ailton. Combinamos que ela, a minha amiga, não iria falar nada da minha presença, mas fui mortalmente traído no começo da aula. Também pudera: um quase quarentão, cabeludo e barbudo, no meio da moçada, chamava a atenção.
“Temos hoje dois convidados”, disse, enquanto eu me afundava um pouco na cadeira. Ao lado, o velho e bom Ailton, do Alto José do Pinho, que faz um pré-vestibular pelas bandas de Água Fria.
E súbito, aconteceu o fenômeno. Ela, a minha amiga tímida de dar dó, começou a sua aula. A voz ganhou força, ela mobilizou a atenção daquela multidão de jovens de uma forma inacreditável. Durante duas horas, falou sobre Machado de Assis. Mais que isso, falou dos caminhos da literatura, da vida, lembrou que a gente não pode saber de si, sem querer saber do outro. Vimos quase presentes Quincas Borba, Rubião e Sofia. Conversamos longamente com Dom Casmurro, Bento, Capitu e Escobar. Entendemos os personagens, seus dilemas, suas derrotas. Compartilhamos as batatas que seriam apenas dos vencedores. Descobrimos que a questão importante nunca é a matéria, que o essencial é invisível, sempre. Adélia Prado entrou de surpresa, dizendo que “erótica é a alma”.
Várias vezes olhei para meu amigo Ailton. Ele estava com o queixo mole, ainda meio perplexo com tanta boniteza. Não, não era uma aula de pré-vestibular, era um passeio pela beleza, pelo sonho, por territórios jamais demarcados. Quanto mais eu via minha amiga em cena, mais pensava: onde ela deixou toda aquela timidez? Parecia estar em casa, acolhida, à frente de um público atento e quieto. Entendi que minha amiga estava protegida pelas palavras.
Quando terminou, fiquei quieto com meu amigo. Dois bobões, depois de uma torrente de intensidade. Cada vez mais, tenho a certeza de que a literatura salva, que a palavra cura, que ler e contar histórias faz as pessoas sobreviverem com uma ração a mais de esperança, um punhadinho a mais de quase nada, que muitas vezes se torna quase tudo. Toda terça-feira, se ela deixar, estarei lá, matando minha fome e minha sede.
Quando fomos saindo do auditório, vi que ela já tinha voltado á timidez de antes. A fala já estava mais baixa, os gestos mais contidos. Então perguntei:
“Como é que você consegue?”
Ela me contou baixinho, mas é segredo nosso.
Para a Flávia Suassuna, pois.
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