Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Aulas, convivências, sonhos, fracassos, essas coisas da vida

8 de agosto de 2007, às 11:34h por Samarone Lima

Dar aulas é, principalmente, a convivência. Adoro a sala de aula, a relação com os alunos, as possibilidades desta troca perpétua, abençoada pelos livros de poesia, os romances, contos, enfim. São 80 jovens de 16 a 19 anos, cheios de sonhos, esperanças, impasses, possibilidades, tropeços e redenções.

É com eles que vou. É com eles que vivo um grande aprendizado cotidiano, onde partilhamos os sustos, emoções e tristezas, como tudo na vida.

Registro pequenas cenas, que inspiram, entristecem, mobilizam.

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Um aluno vem conversar comigo. A igreja do seu bairro vai doar uma biblioteca. Ele reuniu a turma do hip-hop para receber os livros. Estão fazendo cotinhas para pintura de um espaço, a reforma. A turma não tem grana, mas não é a falta de grana que vai imobilizá-los. Brevemente, os livros vão ser transferidos para as mãos da galera do hip-hope. O que não tem preço é o sorriso dele de satisfação, por estar cuidando de uma coisa que vai ser da comunidade.

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Outra aluna não conseguiu a liberação dos absurdos R$ 90,00 que a Covest cobra para quem vai se inscrever para o Vestibular. Veio conversar. Ficou desolada, mas conseguiu R$ 45,00 com o pai. A bibliotecária de sua escola deu outros R$ 45,00, e ela conseguiu fazer a inscrição. Três vivas à bibliotecária e ao pai!

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Uma aluna vem conversar comigo e meu monitor. Quer organizar recitais de poesia, nas salas da escola. Três vivas à poesia.

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Uma aluna vai fazer uma cirurgia no dente, e terá que ficar alguns dias longe da escola. Pede alguna livros de reserva.

“Vou ficar parada, mas posso ficar lendo, não é, professor?”, diz.

Sai com quatro livros, e eu fico feliz da vida.

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Uma aluna me escreve uma linda resenha do livro “O deus das pequenas coisas”, e resolvo dar o livro de presente. Seus olhos brilham. Daqui a pouco, vem outra aluna, que reclama de muitas coisas.

“Também quero um livro de presente, professor!”.

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Uma aluna que passou no vestibular para Ciências Sociais, da UFPE, está lendo “A mosca azul”, do Frei Betto. Na última aula, disse que estava adorando, e fiquei todo convencido com nossa pequena biblioteca.

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Pergunto a outro aluno, timido, discreto, caladíssimo, se ele conseguiu se inscrever no pré-vestibular oferecido por alunos da UFPE.

“Não, professor, não tinha dinheiro para as passagens”.

Isso cala fundo e dói.

***

Semana passada, tivemos uma despedida. Um jovem calmo, discreto, educadíssimo, muito íntegro, dessas pessoas que têm um belo caminho pela frente. Graças ao Prouni, ele conseguiu uma vaga na disputada Unibratec. Vai seguir outros caminhos. Nos despedimos com um agradecimento. Eu acredito em gente raçuda, e ele, o Cleverson, é um sujeito de raça.

Foi embora debaixo de uma salva de palmas.

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Todos os meus alunos têm de 16 a 19 anos e moram em 10 bairros do Recife, aqueles onde prefeitura, governos e outros poderes chegam pouco, onde a Polícia geralmente chega batendo, onde há poucas bibliotecas e muitos outros problemas.

Mas, como diz uma velha sábia, muito citada por aqui ultimamente, a Flávia Suassuna, “A vida é o que a gente faz da gente”.

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