Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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O gato

22 de agosto de 2007, às 2:44h por Samarone Lima

Com o traço mágico do João Lin

São 6h22, acabo de entrar no ônibus Centro do Cabo, rumo ao Recife. Pego o ônibus mais cedo porque dou aulas às 8h, e tenho uma aversão sentimental de proporções bíblicas, com o fato de chegar atrasado em sala. Desde a época em que ensinei na Católica, gosto de chegar cedo, um tempinho antes, para ver o conteúdo do dia, organizar pastas, passar na secretaria, dar bom dia, boa tarde ou boa noite, bebericar um café, chegar sem pressa, ver os alunos chegando aos poucos. Já diz aquela velha lenda indígena que quando a gente corre muito, a alma fica lá atrás, é preciso esperar. Melhor então ir com a alma.

Sim, mas onde eu estava mesmo? Ah, perto de passar pela roleta do ônibus, e aquela conversa toda sobre horários. O leitor vai dizer que sou um obsessivo-compulsivo, por estar banhado, arrumado e com o gosto de café na boca, às 6h22, faltando mais de 1h33 para o início da aula. É que o distinto leitor não mora no Cabo de Santo Agostinho e não sabe que tem um “Semi-Expresso” saindo às 6h5, outro às 6h25.

O “Semi-Expresso”, caro amigo ou amiga, é um ônibus que corta caminhos e o motorista parece ter uma tara sentimental de chegar ao Recife. Exatamente uma hora depois, estou no Cais de Santa Rita, e caminho para a escola mansamente, olhando os barcos matinais à beira do rio, os peixes magricelas pescados em alto mar, vendedores de pipoca com aquela cara de enfado. Atravesso alguma ponte e estou no Bairro do Recife, onde fica a escola. No ônibus comum, a viagem se torna uma odisséia lenta e desalentadora, com milhares de paradas separando o Cabo do Recife, a Imbiribeira lembra mais uma BR dessas do Brasil, que nunca chega ao fim.

Preciso urgentemente comprar um anti-dispersivo, porque hoje está difícil chegar ao assunto principal.

Voltemos. São 6h23, vou chegando à roleta, e escuto um reclame felino.

“Miau…”

Coisa de gato faminto. Olho para trás. Uma senhora gordinha, baixa, agitada, segura um saco. De dentro, sai outro miado, e movimentos típicos de quem não está gostando daquela viagem. Ela senta de um lado do ônibus, mas perde o lugar à janela, olha para outra criatura e pergunta:

“Posso ficar nessa janela aí? É que se eu precisar jogar ele fora, não morre”.

Sento por perto, que quero ver o desenrolar dos fatos. O gato continua miando, sem entender nada.

Vinte minutos de viagem, estou cambaleando um pouco com aquele ventinho no rosto, porque sou um camarada fissurado em janelas, escuto um comentário perdido que me desperta:

“Vou soltar você”.

É a distinta senhora, conversando com o felino. Daqui a pouco, ela fala bem alto, com a disposição de um gerente de mercadinho de subúrbio:

“Peraí, motorista, que vou jogar o gato fora”.

Meu teclado do computador está sem ponto de exclamação, mas é o caso.

Os passageiros prendem a respiração. Olho pela janela. Um gato malhado, de idade incerta, é arremessado, nome não revelado, desce por um terreno íngreme, fica olhando meio perdido, desconfiado, procurando os seus. Não tem ninguém conhecido, sequer um primo. O motorista só pensa em chegar ao Recife, acelera e deixa o animal comendo poeira.

“Ele só queria estar lá em casa, mas não é meu”, diz a mulher em voz alta, meio aliviada.

“Eu não gosto dele, mas não judeio”, completa.

“Não judeio com nenhum tipo de animal”.

O motorista se mete, o cobrador dá pitacos obsessivos. A parte da frente, onde está aquela turma que não paga mais passagem, entra num seminário internacional sobre a relação dos homens com os bichos, se bem que homem também é bicho. Surgem especialistas, correntes de pensamento, análises sobre a personalidade de cada espécie, filósofos e existencialistas. Comparações sobre gato e cachorro me lembram meu amigo Sérgio, que considera o gato um sujeito meio sonso. Meu negócio é com cachorro. Tenho certeza que em alguma vida passada, fui um vira-lata raçudo.

“A senhora podia jogar ele até com o ônibus correndo, que ele não morria”, comentou um expert, que certamente nunca teve um gato. “Gato resiste a tudo”.

“É, mas eu não judeio. Não gosto de judiar os bichos. Se não quer, é melhor deixar livre”.

Desconfio que ela falava mesmo era dos humanos.

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