Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Confissões de um leitor obsessivo-compulsivo - Parte II

28 de agosto de 2007, às 15:48h por Samarone Lima

Com a ilustração do mago João Lin

Como eu vinha dizendo na crônica anterior, o maior problema do leitor obsessivo-compulsivo é a figura do “conhecido”, aquela pessoa que habita um lugar sentimental incerto em nossa vida. Não é amigo, não tem intimidade, não é inimigo, não tem maldade. É apenas um conhecido.

Quando um conhecido entra no ônibus em que estou, lendo meu livrinho, tomado por alguma história, quieto como um passarinho, já sei. Ele vai sentar ao meu lado, com um sorriso, e dizer:

“Samarone, tudo bem?”

Vou ficar tentando lembrar seu nome e ele vai fazer a idefectível pergunta:

“Como está o Poço da Panela?”

Acabou a leitura. Vou explicar que desde dezembro do ano passado estou morando no Cabo de Santo Agostinho.

“No Cabo?”

A cara de espanto será imensa, parece que de repente estou no Iraque. Tudo bem, eu admito, o Cabo é longe, muito longe do Recife, mas tem gente que faz uma cara tão esquisita, que já me dá logo um cansaço espiritual.

Como eu vivo mudando de emprego, ele vai perguntar se ainda estou ensinando na Católica, de onde saí há uns anos.

“Não, estou ensinando na Kabum!”, reponderei, desalentado ao ver o livro fechado, sem chance de retomada.

Se ele já souber o que é a Kabum! (tem acento de exclamação mesmo), é uma vantagem para mim, porque não terei que explicar o que é o projeto, os 80 jovens, enfim. Se não souber, terei que explicar. Adeus mais vinte páginas de “Noites do Sertão”, que estou lendo. Mas terei que explicar meu trabalho na Oficina da Palavra, o projeto de incentivo à leitura etc. Todo mundo acha lindo esse negócio de estimular a juventude a ler, parece que o sujeito vira um feiticeiro, xamã, curandeiro, mas se preocupar com bibliotecas da galera menos favorecida, ninguém se preocupa.

Se o conhecido for um “conhecido do estádio”, da torcida do Mais Querido, que é o Santa Cruz Futebol Clube, onde deposito minhas esperanças futebolísticas desde antes da criação do mundo, terei que escutar uma avaliação profunda sobre o elenco, a torcida, questões de caráter do treinador, o destempero de algum dirigente, dilemas existenciais sobre o lateral esquerdo que não sabe cruzar, o volante que não tem consistência. ´

Como escrevo para o Blog do Santinha, serei sabatinado, perguntado, escrutinado, virado do avesso para explicar o inexplicável de nossa campanha na Série B, como se fosse o responsável pela contratação dos jogadores. Serei indagado sobre o público do último jogo, número de sócios em dia e outras querelas envolvendo o Clube das Multidões. Sairei pela tangente, e o livro do Guimarães Rosa já vai estar queimando em minhas mãos.

Com um golpe de sorte, o conhecido irá descer na metade da viagem, e chegará uma sensação de paz, plenitude espiritual, porque a leitura poderá ser retomada sem mais delongas, e dificilmente entram dois conhecidos no mesmo trajeto, aí é muito azar para um obsessivo literário só. Mas não, o conhecido sempre vai até o final da viagem. Pior: tem muito mais assuntos que seu melhor amigo.

Numa viagem para o cabo, eu e o Valdemir Leite, meu amigo do peito desde os tempos da Católica, conversaríamos um bocado, mas apareceriam muitos silêncios para uma olhada na paisagem, comentários sobre livros, eventuais naufrágios da alma, enfim. O conhecido não, ele fala pelos cotovelos e quer que você tenha respostas para muitos males da humanidade.

Outros inimigos declarados do leitor obsessivo-compulsivo são as mulheres grávidas. Quando elas passam pela roleta, fico olhando e pensando mentalmente “vai lá para trás, lá para trás”, temendo o pior. Você está lendo um trecho fundamental do Lawrence Durrell (desculpem, mas meus gostos literários são meio loucos), ou um conto do Juan Carlos Onetti, e a grávida resolve estacionar aquele barrigão na sua frente.

Surge o dilema existencial, moral, social. Claro que você, como uma pessoa decente, vai levantar e oferecer a cadeira. Uso meus santos todos, faços mandingas as mais diversas. “Lá atrás tem cadeira, lá atrás tem cadeira”.

Se ela fica ao meu lado, respiro fundo e me dou de presente mais uma página. Só mais uma, minha senhora, segure ai seu barrigão, que “O impossível Baldi” vai resolver sua vida agora, ou a Justine vai dizer algo surpreendente no “Quarteto de Alexandria”. Feita a ressalva, o prolongamento do prazer da leitura, é hora de voltar à vida em sociedade. Olhar com aquela cara de gente humilde e dizer:

“A senhora quer sentar?”

Não conheço uma mulher grávida que recuse uma cadeira de um leitor obsessivo-compulsivo, que lutou bravamente por aquele mísero assento. Me consolaria se ela puxasse um livro, mesmo os “Minutos de Sabedoria”, e fosse lendo. Teria uma inveja cúmplice. Mas não. Fica olhando para o tempo, pensando certamente no filho que está vindo, o nome, aquela coisa toda muito linda e amorosa.

Tudo bem, mas… ela bem que poderia ter ido mais para o fundo do ônibus, né?

Para Júlio Vilanova, professor, que conseguiu com amigos uma doação de livros para a Biblioteca Popular do Coque.

Amanhã falarei sobre minhas gatunagens literárias, algumas em parceria com Dom Castro e Silva, outras em vôos solo.

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