Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Órfãos do Fusca

14 de agosto de 2007, às 23:42h por Samarone Lima

Pois foi. O carro do João Lin, aquele que às vezes fazia uns traços aqui para o meu Blog, foi roubado semana passada. Assim, na cara dura, em alguma rua que não sei o nome, no bairro que já me apontaram, mas esqueci. O carro era um Fusca, de ano incerto da minha parte. Mais que isso, era “o” Fusca, segundo os amigos do Lin.

Com mais esta ação criminal da maior barbaridade, já são três órfãos de Fusca, no meu ciclo de amizades: João Lin, João Valadares e eu mesmo.

O roubo do João Valadares foi relatado nos pormenores, neste mesmo Blog, até porque começou cômico e terminou trágico. De manhã, ele flagrou um sujeito tentando levar seu carro. Perguntou o que o camarada fazia dentro de sua propriedade, o indivíduo olhou e respondeu:

“Rapaz, eu ía levar, mas tu chegasse, vou deixar pra lá”.

E foi embora, assoviando uma música do Paulo Diniz.

À noite, do outro lado da cidade, levaram o cobiçado instrumento de transporte do meu amigo. Não sei se ele chegou às lágrimas de fato.

O meu caso foi um pouco mais complexo. Meu possante Fusca azul, de ano 68, se envolveu num abalroamento, ou um “entrechoque de veículos em terra, águas ou no ar”, como informa o dicionário, com um Honda Civic, numa via de Casa Forte. Dei uma cochilada braba, perdi o rumo e afundei o Honda. O prejuízo só não foi maior porque o sujeito do Civic tinha seguro e saí vivo. Bater em poste, por exemplo, é uma coisa que realmente eu não gosto.

Como eu estava numa pindaíba dos diabos, meu Fusca ficou numa oficina durante meses, eu sempre prometendo iniciar o serviço, até que foi enferrujando, piorando, como um doente abandonado num hospital sem nome. Um dia, o dono da oficina botou meu Fusca pra fora, e tive que vender por uma mixaria, para não vê-lo guinchado para um ferro-velho.

Meses depois, vi o mesmo Fusca todo refeito, pintado, até com equipamento de som, mas com aquelas rodas largas, horríveis, breguíssimas. Dei uma volta com o novo proprietário, para resolver uma pendência de multas, e fiquei me sentindo fora do lugar. Era como se um parente tivesse viajado para o exterior e voltado com uma peruca loira, falando inglês, achando Miami o máximo e reclamando do calor do Recife.

Nunca mais vi meu ex-Fusca. No meu caso, já nem quero mais ver.

João Lin bem que gostaria de ver o seu, até porque o livro de atas de nossa escola estava dentro. João Valadares também.

Esse mundo está ficando muito malvado.

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Apitos e cocoricós

13 de agosto de 2007, às 4:57h por Samarone Lima

Toda noite a cena se repete. Lá pelas 2h22 da madrugada, dois vigias noturnos passam, aqui pela rua, levando como armamento para espantar eventuais ladrões, dois sonoros apitos, de marca desconhecida. Lá na esquina, defronte à casa de Das Neves, eles soltam três ou quatro grandes silvos, o suficiente para estremecer toda a vizinhança e me despertar bruscamente de algum sonho lindo. Tenho um sono bom, quando deito não fico com enroladinha ou contando caneirinhos, durmo mesmo, igual a garçom, quando volta do trabalho no ônibus. Mas caramba, apitos no silêncio da madrugada, numa rua sem saída, só um surdo não escuta.

Quando estou muito cansado, olho para o relógio, tento lembrar se estava sonhando algo interessante, e dou graças a Deus ser ainda alta madrugada. Volto a dormir com mais raça, achando o lençol o objeto mais importante do globo terrestre, como diz Seu Vital. Quando não, perco o sono, e tudo se modifica radicalmente. Desço, faço um chimarrão e vou para a escrivaninha, trabalhar. Preparo aulas, penso em alguma crônica, leio minhas coisas, vejo as pendências do dia que começou precoce, enfim. Este textinho de hoje, por exemplo, nasceu por causa dos apitos. Eles, os vigias, passam, apitam e vão embora. A inutilidade do estardalhaço é notória, mas são as coisas da cultura, não vou discutir. O Cabo de Santo Agostinho está aqui desde antes do Cabral, quando o Pinzon chegou, mas essa história é longa e me falta base histórica.

O problema é que eles, os vigilantes, com essa ondinha, acordam também o galo de Renato, que mora aqui no quintal. O galo, que não tem nome e não é besta nem nada, tem arroubos espirituais imensos, bate as asas como quem vai voar e solta aqueles gritos desajustados, como se o mundo tivesse que olhá-lo e escutá-lo. É um galo com problemas sexuais e de fuso-horário. Ele pensa que 2h22 já quer dizer que o dia amanheceu, e manda cocoricós imensos, é capaz de ele ter três pulmões. Aqui do meu escritório, vou avisando: menos, meu filho, menos. Segundos depois do primeiro berro galístico, o galo do vizinho sente-se incomodado com aquele pandemônio e começa uma briga cívica pelo melhor canto de galo. E eu no meio. A contenda só tem fim com a chegada do sol, que Deus é grande.

Mas não reclamo. Sou um sujeito com tendências cada vez mais fortes às simpatias que às antipatias. O Ferreira Gullar disse outro dia que a gente inventa a vida, para o bem ou para o mal, para a alegria ou para a tristeza. Estou tentando inventar para a alegria e para o bem.

No fundo, esses vigias devem ter algo de muito solitário na alma, a ponto de pedir a atenção com apitaços, em plena madrugada.

E sempre gostei de animais. Galo, pelo que me consta, é um animal. Então deixemos os vigias e os galos em paz.

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Novo lote de Estuário

10 de agosto de 2007, às 8:49h por Samarone Lima

Duas moças foram à escola que ensino, para que eu fizesse uma dedicatória de Estuário. O livro vai para Manaus, onde um leitor que me acompanha com a fidelidade das distâncias, quer seu exemplar. Em meio à balbúrdia de todo fim de aula, fiz a dedicatória e assinei. É muito bom saber que um sujeito em Manaus gosta das minhas linhas. Demos os descontos: ele é recifense, deve viver morrendo de saudades de sua terra.

Como o livro foi comprado na Livraria Cultura, me apressei em ligar para a Editora Bagaço, que me garantiu um novo lote de livros para hoje à tarde. É que o camarada comprando na Cultura, deixa somente 10% para o autor, que sou eu, por sinal.

Então, já são dois lugares que o distinto leitor pode comprar o livro com a seleção das crônicas de 2005 e 2006, dando uma forcinha ao autor:

Bar e mercearia de Seu Vital, no Poço da Panela
(Defronte à Igreja do Poço)
Telefone para informações: 3442.5473
Ele ganha 10% de comissão por cada exemplar vendido, e fica muito feliz.

Escola Kabum!Rua do Bom Jesus, 147
Bairro do Recife
De preferência dia de terça e quinta, que dou aulas, e aproveito para conhecer o distinto leitor.

Detalhe: A edição ficou a cargo de César Maia e Júnior, do Ateliê Editorial. Os caras não são nada fracos.

No mais, se o Santa Cruz ganhar hoje, sai da zona de rebaixamento da Série B. Estarei lá, no Arrudão, penando um bocado, que o time este ano está pior que nosso escrete do Poço, os Caducos F.C.

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Aulas, convivências, sonhos, fracassos, essas coisas da vida

8 de agosto de 2007, às 11:34h por Samarone Lima

Dar aulas é, principalmente, a convivência. Adoro a sala de aula, a relação com os alunos, as possibilidades desta troca perpétua, abençoada pelos livros de poesia, os romances, contos, enfim. São 80 jovens de 16 a 19 anos, cheios de sonhos, esperanças, impasses, possibilidades, tropeços e redenções.

É com eles que vou. É com eles que vivo um grande aprendizado cotidiano, onde partilhamos os sustos, emoções e tristezas, como tudo na vida.

Registro pequenas cenas, que inspiram, entristecem, mobilizam.

**

Um aluno vem conversar comigo. A igreja do seu bairro vai doar uma biblioteca. Ele reuniu a turma do hip-hop para receber os livros. Estão fazendo cotinhas para pintura de um espaço, a reforma. A turma não tem grana, mas não é a falta de grana que vai imobilizá-los. Brevemente, os livros vão ser transferidos para as mãos da galera do hip-hope. O que não tem preço é o sorriso dele de satisfação, por estar cuidando de uma coisa que vai ser da comunidade.

**

Outra aluna não conseguiu a liberação dos absurdos R$ 90,00 que a Covest cobra para quem vai se inscrever para o Vestibular. Veio conversar. Ficou desolada, mas conseguiu R$ 45,00 com o pai. A bibliotecária de sua escola deu outros R$ 45,00, e ela conseguiu fazer a inscrição. Três vivas à bibliotecária e ao pai!

**

Uma aluna vem conversar comigo e meu monitor. Quer organizar recitais de poesia, nas salas da escola. Três vivas à poesia.

**

Uma aluna vai fazer uma cirurgia no dente, e terá que ficar alguns dias longe da escola. Pede alguna livros de reserva.

“Vou ficar parada, mas posso ficar lendo, não é, professor?”, diz.

Sai com quatro livros, e eu fico feliz da vida.

**

Uma aluna me escreve uma linda resenha do livro “O deus das pequenas coisas”, e resolvo dar o livro de presente. Seus olhos brilham. Daqui a pouco, vem outra aluna, que reclama de muitas coisas.

“Também quero um livro de presente, professor!”.

**

Uma aluna que passou no vestibular para Ciências Sociais, da UFPE, está lendo “A mosca azul”, do Frei Betto. Na última aula, disse que estava adorando, e fiquei todo convencido com nossa pequena biblioteca.

**

Pergunto a outro aluno, timido, discreto, caladíssimo, se ele conseguiu se inscrever no pré-vestibular oferecido por alunos da UFPE.

“Não, professor, não tinha dinheiro para as passagens”.

Isso cala fundo e dói.

***

Semana passada, tivemos uma despedida. Um jovem calmo, discreto, educadíssimo, muito íntegro, dessas pessoas que têm um belo caminho pela frente. Graças ao Prouni, ele conseguiu uma vaga na disputada Unibratec. Vai seguir outros caminhos. Nos despedimos com um agradecimento. Eu acredito em gente raçuda, e ele, o Cleverson, é um sujeito de raça.

Foi embora debaixo de uma salva de palmas.

**

Todos os meus alunos têm de 16 a 19 anos e moram em 10 bairros do Recife, aqueles onde prefeitura, governos e outros poderes chegam pouco, onde a Polícia geralmente chega batendo, onde há poucas bibliotecas e muitos outros problemas.

Mas, como diz uma velha sábia, muito citada por aqui ultimamente, a Flávia Suassuna, “A vida é o que a gente faz da gente”.

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A tímida, Machado de Assis e um segredo

6 de agosto de 2007, às 9:49h por Samarone Lima

Ela, esta amiga recente, ficou sabendo que eu estava trabalhando com literatura em minha Oficina da Palavra, com jovens do Recife. Então, mui modestamente, ofereceu ajuda. Me convidou para assistir uma aula que ela dá em um cursinho pré-vestibular. Tínhamos nos visto somente uma vez, no lançamento da Biblioteca Popular do Coque, o tempo suficiente para o reconhecimento.

Sim, eu adoro receber ajudas. Fui lá, no cursinho. Ela estava cercada pelos alunos, com aquele jeito maternal e cuidadoso que alguns professores têm. Almoçamos, conversando os livros, os caminhos e descaminhos da sala de aula, desta troca misteriosa que acontece entre professor e aluno. Falamos de nossas vidas, também, claro.

Mas havia algo nela que me tocava. Uma timidez. Mas não uma timidez disfarçável, como a minha, mas uma timidez intensa, enorme, que vinha da alma. Me lembrou muito a Clarice Lispector, que se defendia escrevendo. Então fiquei pensando comigo: como ela consegue dar aulas para turmas de 100/120 jovens, ansiosos pela vaga nas faculdades? Qual o mistério?

Chegou a hora da aula. Fiquei quietinho, ao lado do meu fiel amigo Ailton. Combinamos que ela, a minha amiga, não iria falar nada da minha presença, mas fui mortalmente traído no começo da aula. Também pudera: um quase quarentão, cabeludo e barbudo, no meio da moçada, chamava a atenção.

“Temos hoje dois convidados”, disse, enquanto eu me afundava um pouco na cadeira. Ao lado, o velho e bom Ailton, do Alto José do Pinho, que faz um pré-vestibular pelas bandas de Água Fria.

E súbito, aconteceu o fenômeno. Ela, a minha amiga tímida de dar dó, começou a sua aula. A voz ganhou força, ela mobilizou a atenção daquela multidão de jovens de uma forma inacreditável. Durante duas horas, falou sobre Machado de Assis. Mais que isso, falou dos caminhos da literatura, da vida, lembrou que a gente não pode saber de si, sem querer saber do outro. Vimos quase presentes Quincas Borba, Rubião e Sofia. Conversamos longamente com Dom Casmurro, Bento, Capitu e Escobar. Entendemos os personagens, seus dilemas, suas derrotas. Compartilhamos as batatas que seriam apenas dos vencedores. Descobrimos que a questão importante nunca é a matéria, que o essencial é invisível, sempre. Adélia Prado entrou de surpresa, dizendo que “erótica é a alma”.

Várias vezes olhei para meu amigo Ailton. Ele estava com o queixo mole, ainda meio perplexo com tanta boniteza. Não, não era uma aula de pré-vestibular, era um passeio pela beleza, pelo sonho, por territórios jamais demarcados. Quanto mais eu via minha amiga em cena, mais pensava: onde ela deixou toda aquela timidez? Parecia estar em casa, acolhida, à frente de um público atento e quieto. Entendi que minha amiga estava protegida pelas palavras.

Quando terminou, fiquei quieto com meu amigo. Dois bobões, depois de uma torrente de intensidade. Cada vez mais, tenho a certeza de que a literatura salva, que a palavra cura, que ler e contar histórias faz as pessoas sobreviverem com uma ração a mais de esperança, um punhadinho a mais de quase nada, que muitas vezes se torna quase tudo. Toda terça-feira, se ela deixar, estarei lá, matando minha fome e minha sede.

Quando fomos saindo do auditório, vi que ela já tinha voltado á timidez de antes. A fala já estava mais baixa, os gestos mais contidos. Então perguntei:

“Como é que você consegue?”

Ela me contou baixinho, mas é segredo nosso.

Para a Flávia Suassuna, pois.

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