Livro num sebo do Rio e do desabrochar do doutor Ciro
Samarone Lima
Estou aqui pagando meus pecados. Na aula de ontem, de Jornalismo Literário, disse todo eloquente aos alunos que o desafio do escritor é escrever, mesmo sem inspiração, por força do ofício.
Estou aqui na escola, já dei aulas, já corrigi textos com os jovens, já caçamos palavras no dicionário, vi email, respondi, tomei café, perambulei, conversei com uma aluna para tentar convencê-la a fazer um pré-vestibular, e nada.
Definitivamente, não tenho a crônica do dia.
Sou salvo pela minha chefa na escola (sei que não se usa chefa, mas ela é a chefa, fica por isso mesmo), que me telefone do Rio de Janeiro.
“Estou num sebo, no Flamengo, e encontrei o Clamor”, diz, exultante.
Fico em estado de graça, pergunto pelo preço.
“Quinze reais”, me diz.
Perguntei se o ex-dono tinha anotado seu nome e a data. Infelizmente, não.
“Mas tem umas partes riscadinhas”, me informa a chefa.
Então fico muito feliz, porque o livro, que custa R% 35,00 na livraria, sai por R$ 15,00 num sebo do Rio de Janeiro.
O ruim para quem mora no Recife é o gasto com as passagens.
Não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas no sábado, em meio a uma confraternização de novos amigos, conheci o doutor Ciro, pai da Bebete, outra chefa minha, porque sou um homem cercado de chefas por todos os lados.
Aos 77 anos, ele é um sábio que circula pelo mundo, com um jeito manso, gestos de Tai-Chi e palavras que deslizam como sereno pelos telhados.
Das muitas coisas lindas que falou, guardei uma frase:
“O ser humano não revoluciona, ele desabrocha”.
Depois dessa, a palavra revolução mudou completamente de sentido na minha cabeça.
Fico por aqui. Vou dar uma volta, em busca de inspiração.
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