Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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O pouco de hoje

27 de setembro de 2007, às 12:20h por Samarone Lima

Não sei o que está acontecendo com o mundo ou comigo. Tudo está assim, meio de repente, sem tempo de preparação. Saio de casa, olho minha tia-avó, de 80 anos, deitadinha, dormindo, e penso que há uma despedida no ar, e chego à escola em que ensino, sou informado que um aluno de 19 anos acabou de morrer, vítima de infarto. Vou ao cemitério, os alunos estão lá, os familiares choram, e meu colega de trabalho me confessa, ao final da cerimônia do adeus:

“Semana passada enterrei minha avó aqui”.

Robertinho, um camarada boa gente, dono de uma delícia de bar, o Empório Sertanejo, sofreu um acidente e também deu adeus, com 45 anos. Assim, num segundo. Lembrei de meu período “dono de bar”, quando fechava o La Prensa ou Garraffus, depois ia relaxar do trabalho, e de vez em quando conversava com ele, sobre esse ofício de dono de bar, um tipo de trabalho que consome tudo da pessoa. Passei ontem pelo Empório, estava fechado.

As pessoas morrem, bares fecham, perdemos parentes, nascem novas criaturas. Há pouco, recebi um email da Naire, falando do nascimento da neta, Felipa. Dias antes, ela, a mesma Naire, tinha mandado um email, comemorando um ano de pós-câncer.

Naná, meu velho amigo, foi com sua Kombi surrada pegar um material no Poço da Panela, e de repente estava diante de três ladrões, armados com as terríveis “Calibre 12″. Levaram tudo de dez pessoas, mas Naná ainda conseguiu guardar, nas intocas, cinquenta mangos de algum trabalho.

Às vezes penso que somos todos sobreviventes, e que os mapas, bússolas, roteiros, são apenas sublimações, tentativas.

Meu amigo Peste diz que agradece a Deus por todas as merdas que acontecem em sua vida. Lembro de um trecho de “Pequena Miss Sunshine”, em que o estudioso de Proust conta a série de fracassos do escritor, e todo o sofrimento que foi sua vida. Deu tudo errado, e no final, ele deixou um montão de belezas para o mundo.

“A vida é assim: a gente perdoa quando perde”, diz Peste.

Meu amigo Inácio participou de um evento com os povos da floresta, em Brasília. Lá pelas tantas, uma pessoa disse o seguinte:

“Está na hora de a gente buscar os velhos. Eles são nossa biblioteca”.

Não sei o que há. Estou desistindo de alguma coisa, que não sei ainda o nome. Os projetos agora são menores. Não estou pensando muito na vida, estou pensando nos dias. Recebo de presente, e com honra, os cadernos de um velho sábio, com seus 77 anos. Antes, ele escrevia e tocava fogo, a la Ernesto Sábato. Adoro escritores incendiários, mas nem sempre consigo ler as cinzas alheias.

Não acho que as pessoas amadurecem, elas cansam. Ando cansado de um bocado de bobagens. Vejo que quero bem menos coisas do que dez anos atrás. Espero querer cada vez menos. Quero ver se não machuco ninguém, se acerto meu caminhar sem pressa. Estou escrevendo um livro, olho para ele, nunca fica pronto, então fico rindo. Às vezes dá vontade de queimá-lo também, só pelo exercício das cinzas.

Bem, a crônica de hoje não tem muito a oferecer. Fiquem com meu pouco.

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