Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Livro num sebo do Rio e do desabrochar do doutor Ciro

18 de setembro de 2007, às 13:50h por Samarone Lima

Estou aqui pagando meus pecados. Na aula de ontem, de Jornalismo Literário, disse todo eloquente aos alunos que o desafio do escritor é escrever, mesmo sem inspiração, por força do ofício.

Estou aqui na escola, já dei aulas, já corrigi textos com os jovens, já caçamos palavras no dicionário, vi email, respondi, tomei café, perambulei, conversei com uma aluna para tentar convencê-la a fazer um pré-vestibular, e nada.

Definitivamente, não tenho a crônica do dia.

Sou salvo pela minha chefa na escola (sei que não se usa chefa, mas ela é a chefa, fica por isso mesmo), que me telefone do Rio de Janeiro.

“Estou num sebo, no Flamengo, e encontrei o Clamor”, diz, exultante.

Fico em estado de graça, pergunto pelo preço.

“Quinze reais”, me diz.

Perguntei se o ex-dono tinha anotado seu nome e a data. Infelizmente, não.

“Mas tem umas partes riscadinhas”, me informa a chefa.

Então fico muito feliz, porque o livro, que custa R% 35,00 na livraria, sai por R$ 15,00 num sebo do Rio de Janeiro.

O ruim para quem mora no Recife é o gasto com as passagens.

Não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas no sábado, em meio a uma confraternização de novos amigos, conheci o doutor Ciro, pai da Bebete, outra chefa minha, porque sou um homem cercado de chefas por todos os lados.

Aos 77 anos, ele é um sábio que circula pelo mundo, com um jeito manso, gestos de Tai-Chi e palavras que deslizam como sereno pelos telhados.

Das muitas coisas lindas que falou, guardei uma frase:

“O ser humano não revoluciona, ele desabrocha”.

Depois dessa, a palavra revolução mudou completamente de sentido na minha cabeça.

Fico por aqui. Vou dar uma volta, em busca de inspiração.

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Essa gente cheia de chuvisco nos olhos…

14 de setembro de 2007, às 14:11h por Samarone Lima

Fim da viagem ao Sertão. Não sei quantos quilômetros percorridos em carros diversos, a pé, em ônibus surrados pelo chão quente. As estradas solitárias, ao lado do velho e bom Iramarai, o asfalto devorado a bordo das rurais, D-20 e outros carros do interior, que cabem sempre velhos, crianças, mães amorosas, filhos netos, com suas outras andanças, compras, mantimentos, na manutenção da vida e dos sonhos.

Como sempre, ao final de cada viagem, a paisagem fica agarrada à memória, como uma planta reinventada, que cresce a cada silêncio. Mas são as pessoas que invocam presença, que se instalam em definitivo, este humano que está por aí, espalhado na imensidão do nosso país. É delas que lembro, ao fim de cada jornada. Rostos, sorrisos, palavras, acolhimentos, olhares. Gestos mínimos que são encantamentos. Perguntas sobre nossa peregrinação, com o sentimento da identidade, do “também queria seguir com vocês”. Trocas de idéias, reflexões, sonhos, projetos. No fim de cada viagem, parece que a gente encontra quem a gente busca.

Gente como Janemeire, a brava professora na Chapada do Araripe, que tem a filha Jordana como aluna, e não admite que ela tenha mau comportamento, para “não dar exemplo ruim para as outras crianças”. Gente como Paulo Sérgio, seu marido silencioso, um homem que convive com seu roçado, mas capaz de ir ao guarda-roupa, muito discreto, e pegar um agasalho para o Maraí, que estava tremendo de frio. Quantos gestos semelhantes, mínimos, não transformariam o Recife numa outra cidade…

Gente como Ricardo, secretário de saúde de Moreilândia, um jovem de 31 anos, que encontramos duas vezes na viagem, capaz de falar apaixonadamente sobre seu trabalho, as dificuldades, durante todo o tempo em que ficamos juntos, na praça central do Crato, naquela manhã de sábado. Não era apenas um jovem secretário municipal de saúde, com pretensões futuras, era um homem querendo fazer as coisas, tomando iniciativas, enquanto esperava o retorno de um sujeito que consertava o aparelho de radiografia de sua cidade.

Gente como Patrícia, que conhecemos no ônibus de Ouricuri para o Exu, e que nos presenteou com os doces que faz em casa, saborosíssimos. Ela, que perdeu sua irmã em um acidente de ônibus três anos antes, na mesma estrada que percorríamos, fez questão de mostrar a cruz azul, no local do acidente. Eu, que anotei os nomes de todos os mortos durante a viagem de ida, tinha comentado com meu parceiro de viagem que aquela cruz azul não tinha nome. Na volta, coube à irmã me dizer que se chamava Jacqueline, a única estudante a morrer naquele acidente de ônibus, que levava 65 pessoas.

Gente como Vicente Bernardo do Nascimento, um homem na casa dos 70 anos, duro, inteiro, forte, resistente, com seu chapéu de Sertanejo, que estava indo do Sítio Juá, em Santa Cruz, para visitar uns amigos em Salgueiro. A bordo da boléia da D-20, aquele homem quieto, calado, que teve 12 filhos, contou que certa vez teve que passar três meses no Hospital da Restauração, no Recife, cuidando de um dos filhos, que paralisou o corpo inteiro, por causa desconhecida.

“Foi um tempo muito difícil”, contou, o suficiente para imaginar como deve ter sido a vida deste homem do Sertão, ligado à roça, ao ter que viver dentro de um hospital, com o filho imóvel, sem que o mundo ou os médicos soubessem explicar o que acontecia.

Por esses milagres do mundo, após três meses o menino simplesmente ficou bom, e voltou com o pai ao Sítio Juá.

Gente, gente, gente. Tantos nomes. Islândia, a brava coordenadora do Programa de Saúde da Família de Exu, Elma, a secretária de Saúde que ainda acredita na militância. Neide, a diretora da escola Barão de Exu que percorre orgulhosa mostrando as salas organizadas, o jardim, a galeria dos ex-diretores, uma mulher incansável na luta pela educação.

Gente tanta, gente acolhedora, gente que me dá esperança, que percorre outros caminhos, que não me deixa desanimar, de acreditar na vida. Gente que está longe desse massacre diário da cultura da corrupção, dos vícios da política, de tanta ganância e maldade.

Gente que me faz lembrar do meu velho Guimarães Rosa, quando diz que merece de a gente aproveitar mesmo o que vem e que pode, “o bom da vida é só chuvisco…”

Tenho encontrado gente cheia de chuvisco nos olhos nessas andanças.

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Anotações da travessia Exu-Crato, parte III e o Projeto Um Milhão de Orvalhos

11 de setembro de 2007, às 13:54h por Samarone Lima

Recapitulando o capítulo II da saga:

Pocot, pocot, pocot, seguimos nossa jornada. Olhei para o relógio, eram sete horas e cinco minutos, e tínhamos um desafio imenso pela frente – atravessar a Floresta Nacional do Araripe – a 1a do Brasil, fundada em 2/5/1946, e chegar ao Crato, onde nasci.

Passamos por umas acácias, uns galos tardios ainda cantavam vantagem, quando passamos por mais uma cisterna de placa, aquele projeto maravilhoso de aproveitar água da chuva. Lembrei da minha época da assessor de comunicação do Projeto 1 Milhão de Cisternas no Semi-Árido, o P1MC. Na época, parecia um delírio, acho que não tinham conseguido construir sequer 30mil cisternas, e de repente vi a placa: 210 mil cisternas construídas.

Maraí começou a falar sobre um projeto seu, de aproveitamento do orvalho no Sertão.

“Será que não tem um sistema de aproveitamento do orvalho?”

Dito isso, começou a filosofar, e como conheço a fera, na próxima viagem fará o primeiro experimento.

Passamos por mais uma cruz: Edmilson de Oliveira (5/6/64 a 10/12/94).

Às 9h24 cruzamos a placa:

“Seja bem-vindo ao Ceará”.

“Olha aí a jurubeba selvagem! Parece coisa de Perdidos no Espaço”, comentou Iramaraí, e achei a frase muito fora de tom, para o momento sublime em que o sujeito pisa em sua terra natal. Além disso, não entendi nada a mistura de jurubeba com Perdidos no Espaço.

Fomos informados por Dona Maria, em meio a copos d´água, que estávamos a 18 km do Crato, enquanto trabalhadores de uma empresa davam um duro dos diabos, cavando buracos e cravando postes.

“São 326 postes para levar energia para esta região”, me explicou um senhor barbudo e atarracado, com chapéu de proteção na cabeça. “Só faltam 40″.

Fiquei em silêncio e me deu um cansaço. Ele olhou assim de jeito e completou, como se falasse de um amigo:

“É do Governo Federal”.

Prosseguimos no silêncio.

“Estamos há dois meses e meio nessa empreitada”.

Depois chegou outro e completou:

“Hoje eu vou tomar banho nem que seja de cuspe”.

O do Governo Federal emendou:

“A gente aqui toma banho do jeito que gato limpa os olhos”.

Lá pelo meio-dia, encostamos numa casa simples, onde estava uma senhora já bem entrada nos anos, que chamam velhice. Ela foi buscar água e depois ficamos sentado, sentindo o cansaço e o calor. O cachorro Sheike nos olhava com simpatia. Conversa vai, conversa vem, perguntou se a gente gostava do Lula. Ficamos calados. Ela falou com uma certa veemência, parecia mandar um recado para os povos dos mais distantes:

“Pois eu voto nele até morrer!”

Maraí deu corda, que ele é assim com Lula e amigo de Eduardo Campos. Alzira completou:

“Na última eleição, me disseram que eu não precisava mais votar. Pois eu respondi que fazia questão de votar e vou votar nele na próxima eleição”.

Olhei para o teto, tinha uma lâmpada já pendurada, mas faltava a energia.

“Vai já chegar”, respondeu, com um sorriso.

Compramos óleo de pequi a R$ 5,00 (para dor na garganta, esquente o óleo com um pouco de sal, gargareje e esfregue o restante na goela).

A única cruz que não anotei, por cansaço, estava a 200 metros de Alzira. Era a do filho dela, Geraldo Ribeiro de Lima, que morreu atropelado há três anos.

Ela também fez o percurso a pé, entre o Exu e o Crato, mas há muitos anos, e foi por motivo de promessa. Um dos filhos vivia bêbado, ela foi ao túmulo do marido e pediu ajuda.

“Tonho, meu filho, me ajuda, que eu não aguento mais o Zoca”.

À tardinha, o Zoca chegou para a mãe e falou:

“Mãe, pode anotar. Mais nunca eu bebo”.

Parou de beber no mesmo dia. Disse que tinha recebido uma mensagem do pai. Esse “Alcoólatras Anônimos” espiritual aconteceu há 12 anos, e Zoca segue invicto, igualzinho ao tio Ademar, que está sem bicar há dois anos.

“A gente tem que confiar nos defuntos”, observou Alzira, que torce pelo Flamengo e tem vários quadros de times dos anos 80 pendurados na parede da sala.

Mais adiante, Maraí pega uma madeira queimada, e diz que vai fazer uma nova exposição, intitulada “O nada queimado”. Aguardemos.

Mais uma cruz: “Olávio Nunis Soari. Naceu 7 do 5 de 75. Faliceu no dia 10 de 10 de 2004″.

Na Floresta Nacional do Araripe, a parada para constatações óbvias: a primeira bola no pé, no meu dedo mindinho.

“Se a pé a gente chega em todo canto, para que tanta velocidade?”, pergunta Marai.

Boto uma sandália e o mundo fica lindo. Recomeçamos.

“Isso é uma segóia”, diz meu comparsa. Se João Valadares estivesse na caminhada, diria logo:

“Mais fresco!”

Paramos no Ibama para mais água. Fazemos uma assembléia ali mesmo e decidimos tocar em frente até o Crato, porque faltam apenas 7 ou 8 quilômetros. O guarda do Ibama diz para a gente pegar um atalho pela floresta.

Foram 2h30 dentro da floresta, até que chegamos ao Belmonte, bem longe do centro. Aí, já estávamos cansados e mal pagos. Descemos para o Crato de carona. Às 17h30 estávamos na Praça da Sé, onde meu pai comemorou o tri-campeonato da Canarinha, comigo nos braços, segundo ele.

Ficamos bestando no cansaço.

“É só pegar duas placas, botar em cima da casa e arrumar um jeito de canalizar o orvalho”, prosseguiu ele, já desenhando o Programa 1 Milhão de Orvalhos.

À noite, dormimos na casa de uma amiga e não tivemos forças para perambular. Não anotei nada no caderno. A travessia estava feita. Sonhei muitas coisas boas, creio. No dia seguinte, Maraí deu um pulo da cama, parecia um garoto.

“Rapaz, estou novinho em folha”, disse, antes de tomar um banho gelado.

Perambulamos pelo Crato, mostrei a igreja, fui na rua da minha avó. Defronte, a casa da família de Miguel Arraes. Ele, como não tem jeito, pediu para entrar. Conversamos com dona Alda, irmã do velho Arraes.

“A senhora conhece dona Zeneuda?”, perguntei.

“Minha comadre?”, respondeu ela.

“E Dona Ermira?”

“Minha afilhada?”

Zeneuda é minha avó, Ermira é minha mãe.

Então arrisquei a última ficha:

“E Flocely”?

“Muito inteligente”.

Flocely é minha tia-avó.

Arrisquei dar uma volta em Seu Almir, reduto da velha guarda da boemia cratense, onde meu pai gastou muito o fígado. Ele estava lá, sozinho, com a eterna camisa do Flamengo, boné etc.

Proseamos um bocado, ele falou dos times de futebol do Crato, do meu pai, que jogava um bolão. Maraí cismou com um banco de madeira, queria saber quem fez, o ano, ficou especulando a marca da madeira, essas coisas dele. Seu almir cheirou rapé, Maraípediu e mandou ver, eu também. Daqui a pouco, os dois espirravam os pulmões para fora.

Seu Almir disse que agora só bebe aos fins de semana. Nos despedimos com um abraço e ficamos na Praça da Sé, lendo e escrevendo.

Não precisamos de uma palavra para saber que estava concluída a travessia, que estava na hora de voltar. A jornada Exu-Crato estava concluída com reencontros sentimentais não previstos.

Senti o cheiro da minha terra e do meu povo.

É outra forma de juntar milhões de orvalhos.

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Anotações da travessia Exu-Crato – parte II

10 de setembro de 2007, às 2:09h por Samarone Lima

Informo que quem não leu a crônica anterior, não vai entender o restante da série.

Pois bem, como eu vinha dizendo, a Janemeire, que mal tinha nos conhecido, ofereceu dormida em sua casa. Entardecia, na Chapada do Arararipe, quando caminhamos para sua casa. Já ventava e fazia frio. O sol se escondia mansamente, e chegamos à casa da Jane. Lá de dentro, ela mandou entrar. Uma casa simples, com dois quartos, sala, TV 29 polegadas, antena parabólica, tudo organizado, bonitinho, com zelo.

“Meu marido chega já”, disse.

Me surgiu um medo clássico: os roncos do Iramarai. Tudo bem que ele tinha parado de beber desde o dia anterior, mas pulmão não se limpa assim, como se fosse uma panela de alumínio. Olhamos para o lado. Uma capela azulada, a mini-igreja da comunidade, no meio de um descampado. Jane resolveu nos mostrar.

Abriu, estavam lá os santos todos, um altarzinho, os bancos. Um lugar pequeno, para trinta pessoas, no máximo.

“Temos missa a cada dois meses”, explicou a cicerone. “Se quiserem, vocês podem dormir aqui”.

Fiquei exultante. Já dormi em muitos lugares no mundo, mas numa igreja, no meio do Sertão, era novidade.

Numa operação que durou no máximo dez minutos, Maraí varreu tudo, cortou cordas, pendurou as redes, protagonizou nós os mais diversos, o que me levou a suspeitar que ele foi da Marinha. Daqui a pouco, chegou o marido da Jane, Paulo Sérgio, que estava no roçado, um sujeito manso e bom, que parecia achar muito simples a mulher chamar dois desconhecidos para dormir em sua casa. No caso, agora, na morada de Deus. Ele olhou assim, atravessado, e disse que as redes poderiam deslizar.

Maraí puxou as redes de tudo que era lado, faltando pouco para derrubar o telhado da capela, e nada. Os nós estavam perfeitos.

Entrou em cena a Jordana, filha do casal, de dez anos. Uma dessas criaturas lindas, doces, puras. Fizemos amizade rápido. Em minutos os três já eram confidentes da infância: ela, eu e Maraí.

Não sei de onde surgiu a coragem para um banho de cuia, com a água gelada. Estávamos um bagaço com a subida da serra. Era preciso reagir. Fui na frente. Passei pela cozinha, a Janemeire preparava uma sopa cantando algo, e a coragem aumentou.Brrrr.

Eram sete da noite quando sentamos diante de um caldeirão de sopa tinindo de quente, a comida mais deliciosa do ano. Deus é grande e o povo sertanejo é de uma santidade inexplicável. Jane começou a falar de coisas da vida, as mudanças que aconteceram na vida nos últimos anos. É professora numa escolinha na comunidade, cuida de 25 crianças, entre elas, a filha. O marido é uma dessas pessoas caladas, que consentem ou negam as coisas com os olhos, ou com um menear da cabeça. Acima de tudo, um homem educadíssimo. Vendo Maraí se tremer de frio, foi lá dentro e trouxe um agasalho, sem dizer uma palavra. Delicadeza não precisa alvoroço.

Olhei ao redor. Estávamos jantando algo delicioso, na casa de uma professora primária, casada com um agricultor, no Sertão de Pernambuco. Ao lado uma cisterna, para guardar água da chuva. Ciscando por ali, umas galinhas de capoeira, fogosas e sem imaginar o futuro. A casa estava arrumada, tinha as coisas do essencial: fogão, geladeira, TV, antena parabólica. Na parede da sala, duas pinturas do Van Gogh e aquela famosa “1a missa no Brasil”, celebrada pelo bispo Sardinha, creio, recortadas de alguma revista. Parece que o bispo virou sopa dos índios, mas não sei, porque faltei a essa aula na 5a série.

Jane está no quinto mês de gravidez, e semana que vem vai fazer a ressonância. A filha usa um celular que ganhou da madrinha. Não havia fome, tristeza ou lamento. A vida vai para frente, Jane estava preocupada mesmo com o ônibus que leva os meninos para estudar no Exu, porque não têm um bom acompanhamento, e alguns estão gazeando a escola. Falou sobre educação, discutiu coisas sobre agentes de saúde, é mais politizada que muitos militantes que conheço e tem algo singular: é daquela gente raçuda, que briga pelas coisas de sua vida e de seu povo. Pedi para a Jordana anotar o nome dela no meu caderninho de anotações, ela escreveu bem bonitinho Jordanna Yngrid Lima, e o número do celular dela, que é para a gente ligar depois. Isso já é amizade.

Comemos sopa até enjoar, depois chegou um amigo para conversar água e também comeu. Bebemos o café que o Paulo Sérgio fez. Depois ficamos na sala, a Jordana brincando num negocinho eletrônico, até que deu cansaço e fomos dormir, na capela.

O Paulo levou uma vela de sete dias e acendeu no altar. Acendi três velas menores: uma para meus ancestrais, que vieram do Crato e Exu, outra para as gentes queridas, espalhadas, e outra para que a viagem seguisse em paz.

Então chegou ele. O frio.

Andarilhos de meia tigela, não lembramos que estávamos em cima de uma serra. O frio foi chegando, atacando por todos os lados. Paulo trouxe edredons, mas havia uma enorme fresta, por debaixo das portas da igreja, e ficamos enrolados, gemendo um pouco. Aos poucos, fomos descongelando, e dormimos.

Já eram quase cinco da manhã, quando Marai resolveu mijar – do lado de fora da capela, claro -, e começou a me chamar.

“Vem ver o céu, vem ver o céu”.

Acordei atordoado e vimos um céu majestoso, salpicado de estrelas, que estavam a pouco mais de vinte metros de nossos olhos. Maraí, que conhece plantas, que é escultor, que estudou na Academia da Polícia Militar, que já foi plantador de mamão no Sertão, que trabalhou em comunidades de base, com a turma de Dom Hélder, que fez parte da Brigada Portinari, que já perdeu um pivô no meio de um debate sobre criança e adolescente, também é astrônomo.

Ele me mostrou as galáxias, nuvens de poeira cósmica, citou os eventuais meteoros, disse onde estavam as ursas maiores e menores, enquanto o frio me consumia os ossos. Depois ele me mostrou a lua minguante, amarelinha, pendurada por um cordão invisível, no céu já por amanhecer. Antes de voltar para a capela, peguei um pouco de terra, porque ainda estávamos em Exu, a terra da minha tia-avó Flocely, e coloquei num saquinho. Vou levar a terra dela de presente, foi o que pensei.

Voltamos para a capela e tudo era santidade. Dormimos mais um pouco, sem provar as dores do mundo. Nesta noite, Maraí não roncou, e tive sonhos bons.

Só conseguimos sair da casa da Jane quando aceitamos tomar um café da manhã com tapioca e queijo derretido, leite e banana. Eu já estava com saudades da Jordana, um dos risos mais lindos e puros da viagem.

Nos abraçamos, agradecemos. O Paulo emprestou o casaco para o resto da viagem. Dei um pequeno presente para a Jordana, uma besteirinha, que é segredo nosso.

Seguimos andando para uma jornada de muitos quilômetros, e os três ficaram à porta de casa, acenando.

Fiquei lembrando de um artigo do meu amigo Inácio França, sobre os dois brasis que não se conhecem. Na noite anterior, enquanto conversávamos sobre mudanças na vida e o que precisa ser melhorado, os noticiários na TV só mostravam corrupção, a eventual cassação do presidente do senado, violência e tragédia.

Esse Brasil de Janemeire, Paulo Sérgio e Jordana, eu quero conhecer cada vez mais.

Pocot, pocot, pocot, seguimos nossa jornada. Olhei para o relógio, eram sete horas e cinco minutos.

Tínhamos um desafio imenso pela frente – atravessar a Floresta Nacional do Araripe – a 1a do Brasil, fundada em 2/5/1946, e chegar ao Crato, onde nasci.

Vai ser a postagem de amanhã, se tudo seguir nos conformes.

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Anotações da travessia Exu-Crato

7 de setembro de 2007, às 20:05h por Samarone Lima

De vez em quando, preciso de um louco para me acompanhar pela vida. Meu louco predileto é o Gustavo, mas ele mora longe, fica difícil convocá-lo. Ultimamente, tem surgido um maluco sensacional, que é o Iramarai. Do nada, proponho algo sem sentido, e ele topa na hora, antes mesmo de pensar. Louco bom de verdade responde as coisas sem pensar.

Estávamos em Exu, nosso trabalho tinha terminado, perguntei assim, num átimo, se ele toparia fazer comigo a travessia Exu-Crato, a pé.

“Vai ser uma delícia”, respondeu ele.

Todos da nossa equipe de trabalho nos chamaram de doidos, enquanto arrumávamos as bagagens. Era necessário mandar todo o excesso para o Recife, e seguir apenas com o mínimo vital.

Na quinta-feira, às 8h, botamos as patas na estrada. Poucas coisas e a vontade de sair do ar, esquecer trabalho, problemas, ficar quieto, andar, mas andar muito. Previsão: 48km em três dias.

Maraí (melhor chamá-lo assim, porque o nome é muito grande) começou sua febre nacional, que é apontar as plantas, animais e outras coisas da natureza, e dizer o nome.

“Aqui é um mulungu. Vê ali um pé de cedro”.

Damos dois passos:

“Eita! Eita! Um ninho de Casaca de Couro, que é do tamanho de um Curió”, segue.

Descubro que o Casaca de Couro bota até coisa de plástico em seu ninho.

Fico na minha, caminhando, chateado por não ter estudado bem Biologia, ou não prestar atenção aos documentários sobre animais e plantas. Lá pelas tantas, ele me mostra uma planta e pergunta:

“Tu sabe que planta é essa?”

“Uma arenosa”, digo, inventando na hora uma nova espécie, para não viajar tão marginalizado das coisas da natureza.

“Tô achando que é uma angica. Mas é não…angica tem espinho”.

Acabo de criar uma planta nova, a “arenosa”, vou registrar no Ibama.

Andamos um tanto, resolvemos parar para molhar a goela. Somos recebidos pela Dona Ana e Seu Luis, um sertanejo aprumado com chapéu protegendo o cocoruto. A filha se chama Rochele, mas depois vão chegar a Janine e o João Victor. O cão, simpaticíssimo, se chama “Dog”.

Bebemos água, conversamos água. Maraí tira dúvidas sobre uma planta, que levava no bolso. O Luís informou, mas esqueci de anotar, fica o registro. Lá pelas tantas, Maraí dá uma tosse de cachorro doente, Dona Ana fica preocupada. Eu também. Vai na casa da irmã, buscar mel e pimenta do reino. Também bebo, que é bom. Em troca, damos os biscoitos afanados de uma confraternização do pessoal da Saúde, umas rosquinhas deliciosas. Antes de sairmos, somos informados que o pai dela, adoentado, não tem recebido assistência da Agente de Saúde. Ele, o pai dela, que esqueci de anotar o nome, dá uma tosse, e achei-o muito melhor que meu colega de viagem.

Agradecimentos gerais e olhamos para frente. Tem a subida da Serra do Araripe pela frente. Dá uma moleza, mas o bom de quem gosta da estrada é caminhar. Lá vamos nós. Vou registrando os mortos pelo caminho. Os nomes são anotados na cruz, à beira da estrada. O primeiro morto é Vicente Inácio de Oliveira (21/01/41 a 09/06/97). Cem metros depois, está a homenagem póstuma ao Antônio A. da Silva (18/11/57 a 30/04/06) e José A. da Silva (08/08/94 a 30/04/06). Depois de um breve colóquio e cálculos, concordamos que são pai e filho.

Vamos subindo e a peleja é grande. Maraí me informa que a folha da castanhola serve para os rins. Só concordarei depois de consultar doutor Rafael Pacífico, o nefrologista predileto de tia Flocely.

“Olha um visgueiro”, diz Maraí.

Chega o início da tarde e estamos num povoado ermo, parece que todo mundo foi ou está indo embora. Já caminhamos 16 km. Paramos, pedimos água, um menino vem puxar assunto com a gente. Tem 12 anos, o Denilson.

“Tu pensa em sair daqui?”, pergunta Maraí.

“Penso não. Eu quero e vou sair. Aqui é lugar de gente velha”, responde, e eu já nem gosto muito dessa zanga toda.

Depois de uma breve enquete, descobrimos que o negócio do pai faliu, por motivos ainda obscuros, e que o menino pegou desgosto do lugar. O Menino Indócil fica ali, puxando assunto, mas vamos embora, que gente indócil maltrata o sentimento. Cochilamos num bar falido, com uma sinuca velha parecendo um navio abandonado, e pegamos a estrada. Maraí parece uma mula, eu não menos.

A parada seguinte é lá nos meados da tarde, quando chegaram juntos fome e sede. O cansaço fica para mais tarde. Ficamos à sombra de uma árvore, de identidade incerta. Dois homens esperam um carro. Maraí começa a perguntar sobre uma “jurubeba selvagem” que encontrou no caminho, e tem início um colóquio internacional sobre as bondades da jurubeba.

“Cura até câncer”, diz um dos especialistas.

“Nasci e me criei aqui, há 39 anos”, diz um dos irmãos, quebrando o ritmo científico da conversa.

“E a casca?”, segue Maraí.

“A gente faz remédio com ela”.

“O cambão faz alguma coisa?”.

“Faz. Só não sei o que é”.

Não sei qual dos três está mais amostrado. Cutuco Maraí. Ele se levanta e solta um “Uôôpa” e a coluna estrala de cima abaixo. Ele ainda tem coragem de perguntar de onde é a água que o povo dali bebe.

“Tem cisterna, tem barreiro”, e por aí terminamos a conversa.

Galopamos já no sol forte queimando a moleira. Cruzamos com a cruz do José Jr. Suassuna (6/12/61 a 06/10/2006), e com uma cruz de madeira sem nome. Fica aqui a homenagem ao morto desconhecido, na Serra do Araripe.

Paramos pela exaustidão na mercearia de dona Fátima e Seu Luís, que Deus os tenha. Pedimos água, que vem nos canecos de alumínio. Na pista passam carretas, ambulâncias de prefeituras, carros a duzentos por hora. Começam a perguntar de onde somos. Estamos caminhando, olhando as plantas, responde Maraí, e aproveito para botar meu silêncio em dia.

Então chega um carro lotado, que vai para o Recife. São cinco pessoas.

“É só uma, visse?”, diz a mulher para o motorista, que usa uma camisa do “Parque Dona Lindu”,que vão construir algum dia em Boa Viagem.

Maraí pergunta sobre o uso do “pau de ferro”, e começa um seminário regional sobre plantas e curas. Pau de ferro, para quem não sabe, é bom botar no leite, o pozinho, que é bom para anemia. Cambão serve para animal. Jatobá também. Há uma discussão interna, sem questão de ordem, sobre a “jurubeba-de-fora”. A resposta é que “manguará da banana e juá” são as melhores coisas para lambedor.

“Vou mandar para São Paulo, para meu menino”, diz dona Fátima.

Ela tem dois filhos em São Paulo. Em julho, foi de avião visitar os dois, e se deu mal com o frio. Eu sei bem o que é Sampa naquele frio de rachar os ossos.

Raspa de juá, só se ferver e tirar nove espumas, para tirar o amargo. Surge um remédio universal, para todos os males, com capim-santo, crista-de-galo, jatobá, cebola branca, pau-ferro, angico. Eu e Maraí, que estamos com os pulmões meio cansados, bebemos boas goladas, e já sentimos um renascimento espiritual.

“Angico não coloquei não. Mas leva limão e folha de Eucalipto”, diz a cientista Fátima, disparado a mais sabida da turma.

O motorista só toma uma mesmo, coitado, e fim do seminário. Todos partem felizes. Dona Fátima oferece um café, que bebemos felizes. Depois oferece chá, que vem com duas tapiocas e um pedaço de queijo, numa bandeija bonita, essas singelezas do povo. Bebemos o chá como dois lordes cansados. Ela pergunta de que é o chá.

“Erva doce”, diz Maraí, convencidíssimo.

“É não”, responde ela.

“Capim santo”, chuto.

Ela diz que acertei, e me sinto um pouco sabido, pela primeira vez na viagem. Como já diz o sábio Iramaraí, “a gente tem que fazer umas estripulias para compensar a deficiência”.

Daqui a pouco coçamos a cabeça. Vai entardecer e não temos onde dormir. O vento em cima da Serra do Araripe é frio e cortante. Não temos agasalhos e somente dois lençóis finos. Chega a Janimeire, grávida, o filho vai nascer em janeiro. Conversa vai, conversa vem, descobrimos que ela é professora da escola, muito politizada, esteve na “Marcha das Margaridas”. Nos dá uma pequena aula de política, mobilização etc. É das nossas.

A conversa fica no ar, está esfriando, fazemos aquel cara de órfãos do destino, parecemos desalentados, então ela diz a frase mágica:

“Vocês podem dormir lá em casa”.

Quando saímos, para a casa de Janimeire, perguntamos quanto custou o café, chá e tapiocas.

“Não foi nada, moço”.

Essa bondade do povo sertanejo me deixa tonto.

Daqui a pouco conto sobre a noite gelada e estrelada, e o sono acolhedor na capela azulada, ao lado de sua casa, entre as imagens de santos.

Meu tempo na lan house esgotou, há jovens alucinados para entrar no orkut, e ainda teremos muito chão pela frente. Até daqui a pouco, quem sabe no Crato.

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