Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Viagem solidária

30 de outubro de 2007, às 8:37h por Samarone Lima

São 6h22, estou no terminal do Centro do Cabo, para viajar ao Recife. O “semi-expresso”, que é mais rápido, porque vai pela BR, nem deu sinal de vida. Pego o ônibus comum mesmo, fico rezando para o sujeito que está passando a roleta não pegar a janela, na cadeira que fica logo depois do cobrador, o melhor lugar do ônibus para ler e esticar as pernonas que tenho. “Sai, sai”, fico repetindo baixinho, mas o cara se aboleta no meu lugar. Ressentido, fico do lado oposto, com minha mochila e outros apetrechos das andanças.

O ônibus sai cheio, pego meu livro do momento e começo a ler. Sei que vou cochilar, porque estou cansado, dormi pouco, estou com uma mania feia de acordar no meio da noite e ficar direto, lendo e escrevendo. Então acontece o fenômeno que muita gente de classe média não conhece - o ônibus lotado, parando rigorosamente em toda parada.

Começo a cochilar, acordo, cochilo de novo, como faz minha mãe, em tudo que é viagem. Herança de família é coisa que o sujeito carrega até cochilando.

Então acontece o fato da viagem: a chegada da grande família. Uma senhora negra, certamente a mãe de duas outras senhoras negras, cada uma com três filhos, todos também negros, um deles visivelmente irritado com algo, deve ter uns 11 anos, está com uma cara péssima. Não contei direito, mas eles juntos somam nove pessoas. Uma das mulheres leva uma criancinha nos braços e fica de pé, na minha frente. Dou uma enrolada, quero ler somente mais uma página, mas estou com o coração mole, olho para ela, pergunto se quer sentar. A mulher, claro, quer sentar.

Não estamos nem na metade do caminho, faltam uns vinte minutos para as sete da manhã, o ônibus está entupido, perdi a cadeira, é a vida.

O menino de 11 anos começa a passar mal, está meio pálido, a avó manda ele sentar. Todos fastam, ele vai para um canto, está irritado, não quer sentar, a avó é linha dura, fica repetindo “senta, menino, senta ai”, me olha assim e diz:

“Ele está com dor de cabeça direto”.

São todos bonitos, fortes, simpáticos, só o menino está assim, mas com dor de cabeça o cara não fica nada legal.

Uma moça do lado dele puxa a mão.

“Tira a mão de fora da janela, que é perigoso”.

O menino tira, então senta, a viagem se acalma. Olho para as cadeiras, tem passageiro dormindo com o filho no colo, gente escutando fone de ouvido, muitos ainda cochilam, há um rapaz ao meu lado com uma pastinha transparente, cheia de documentos, uma Carteira de Trabalho, creio que ele descolou um trabalho novo, está com uma cara boa. Ao lado do cobrador, de pé, um rapaz cochila. Sim, uma cochilada em pé mesmo, que é como a vida permite, certas vezes.

Olho para o lado. A menina que ajudou o negrinho está com a cabeça baixa, rezando um terço, com a ajuda de um terço miúdo, que a gente coloca no dedo, uma vez ganhei um desses de uma aluna.

Quase não tem conversa, é um ônibus silencioso e cansado, feito de trabalhadores brasileiros, que moram a 45 quilômetros do Recife. Surge mais uma vaga ao meu lado, a outra mulher negra, possivelmente a mãe do menino que passa mal, senta, com uma menina no colo. Vamos caminhando para sete horas, falta a Imbiribeira inteira, mais meia hora, pelos meus cálculos.

Olho para o lado. Dezenas de carros ciscam impacientes, rumo a algum lugar, desta cidade interminável, que é o Recife. Não consigo entender o motivo de haver tanta impaciência entre as pessoas que têm um carro só para elas, com ar-condicionado e som ambiente. A essa altura, esqueci da importância da minha leitura, o livro fica para depois. Em seu lugar, ficou a imagem da avó, dura e carinhosa, mandando o menino sentar, no chão do ônibus, o menino resistindo, a voz amorosa de uma passageira que não sei o nome, que usava um broche falando algo de Deus ou Jesus, não lembro, sei que era um dos dois.

Desço no Cais de Santa Rita, são 7h25, deu exatamente uma hora de viagem, pareceu mais. Vou caminhando para a escola, olhando a beleza das pontes, uns barquinhos que chegam com peixes magros. Lá na frente, encontro Pedro, meu aluno, que é sempre o primeiro a chegar. Me conta do último fim de semana em Tejipió, o bairro onde mora. Tiroteio, briga de gangues, violência policial, essa epidemia de violência que tomou conta de nossa cidade. É de doer.

Prefiro ficar com a imagem daquela família, numerosa e muito agarrada dentro de si, como se todos protegessem todos. Uma família silenciosa que foi protegida com poucos gestos, nessa silenciosa viagem matinal de todos os dias.

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Relato sobre a vida e a morte no Mercado de Casa Amarela

29 de outubro de 2007, às 14:24h por Samarone Lima

Tive o prazer de conhecê-lo há cerca de 15 dias, ali no Mercado de Casa Amarela, aquela cidade de gente, barracas e produtos, onde costumo ir, especialmente aos sábados, dia recomendado por todos os terapeutas do Recife para um divertimento sadio, que é tomar umas cervejinhas e contemplar o povo se bulindo.

O Mercado (perdão, mas é com maiúscula mesmo, em sinal de respeito) é reduto de inúmeros “boêmios do dia”, como é o caso do professor Davi, que pode ser encontrado na barraca de Mary, com a singela e esfarrapadíssima desculpa de que vai “almoçar”. Ora bolas, nunca vi almoço demorar três, quatro horas, nem o sujeito ter o telefone da proprietária do estabelecimento, para reservar a mesa e encomendar suas Brahmas. Mas isso são outros 500, voltemos ao assunto.

Estava eu quietinho, bebericando de leve, mansamente, qual um bem-te-vi em seu galho, quando ele sentou ao lado, pediu um quartinho e dois pedaços de passarinha. Para quem não sabe, quartinho é um copo americano repleto de aguardente. Não sei de onde, nem como, nem onde, nem por qual o motivo, mas a conversa nasceu, cresceu e vicejou, até que ele me falou do Cemitério de Casa Amarela, que fica por detrás do Mercado, cemitério este que só tive oportunidade de entrar duas vezes – uma no enterro do amigo Barrabás, e outra para colocar uma florzinha em seu túmulo, tudo no ano passado, que Deus o tenha.

“O cemitério fechou de novo”, lamentou meu amigo. Depois de um silêncio pesaroso, completou. “Tá foda, visse? O que está morrendo de gente, não está no gibi”. Na seqüência, deu uma bicada de com força naquela garapa que passarinho não bebe, e mordiscou a passarinha, oleosa como o quê. É assim: quando o cemitério enche, fecha para evitar transtornos. Ah, sei lá, não pedi muitos detalhes.

Meu amigo se chamava Adão Pinheiro de Carvalho, (pelo menos foi o que me disse) e trabalhava num escritório de contabilidade, além de ganhar um extra fazendo as declarações de renda dos amigos. “Sei como funciona isso tudo. De leão eu entendo melhor que domador de circo”, completou, com um sorriso de convencimento.

Mas qual foi a minha surpresa, quando Adão Pinheiro me confessou que tinha como principal atividade, aos sábados, acompanhar os enterros no cemitério de Casa Amarela. Achei esquisito, mas da espécie humana espero tudo.

“Não é nenhuma obsessão, eu sou normal”, contou ele, com uma cara meio triste e aquele bigode a la Cantinflas, mal pintado e mal aparado. Eu realmente nasci para escutar essas histórias malucas, foi o que pensei. “Mas é que eu gosto de ver o último capítulo da vida. Ao final do dia, volta para casa muito mais humilde”, completou.

Ele me olhou nos olhos, acendeu seu Oscar, um cigarro que, segundo Vital, é falsificado no próprio Paraguai, e me disse assim em segredo:

“Professor, a vida é por um triz”.

Ele sabia os detalhes do funcionamento do cemitério, conhecia os coveiros pelo nome e apelido, explicou os setores, informou sobre as mulheres que cuidavam dos túmulos muitos anos após a morte dos respectivos maridos, enfim. Sabia de muitas histórias.

“Um dia, cinco coveiros botaram uma farinha no almoço e estava envenenada. Os cinco morreram horas depois, inclusive um que estava no primeiro dia de trabalho. Desse foi que eu tive pena. A imprensa não publicou uma linha, eu não entendo esses jornalistas”, disse.

Ele sabia também os preços das coroas de flores, o tempo que a família tem para desocupar uma gaveta, as taxas do cemitério. Depois de muitos anos de convivência com o mundo dos mortos, disse que o enterro mais triste de sua vida aconteceu há coisa de cinco anos, num sábado de chuva forte. Até desabamento de casa teve. O que chamou a atenção do meu amigo, naquele dia, foi que o carro da funerária levou o caixão e o deixou em cima da pedra. Nenhum parente ou amigo fora ao velório.

“A gente acha tanta coisa ruim na vida, mas ruim é morrer só, professor”.

Fiquei paradinho. Ele bebeu mais um gole, pediu outro quartinho e afastou a passarinha. “Perco até a fome quando lembro disso”.

Ele percebeu meu interesse e se aproximou.

“Fiquei ao lado, para dar uma força, esperando chegar alguém. Mais de uma em pé, ao lado do morto, e ninguém”.

“E ai?”, perguntei.

“E aí, professor, o senhor deixaria uma pessoa ser enterrada sozinha?”

Bem, ele tinha razão. Ligou para a irmã, Jésssica, que morava por perto, ali na avenida Norte. Explicou a situação, pediu que ela também acompanhasse o enterro, era um ato de compaixão.

“Estás ficando é doido”, respondeu a irmã, antes de desligar o telefone.

Quando o coveiro chegou, perguntou se meu amigo era o irmão do morto. Adão não soube me explicar o motivo, mas, num impulso, respondeu que sim. O coveiro, de nome Venceslau, também chamado de Lalau, disse que iria terminar logo, porque estava chovendo muito e teria tempo de jogar um dominó ali perto. Adão pediu cinco minutos e comprou uma coroa de flores, dessas de vinte e cinco reais. Acompanhou em silêncio o cortejo solitário até a gaveta (2234, jogou no bicho, mas não deu).

Enquanto o coveiro fazia seu trabalho, olhou pela primeira vez o rosto do morto. O que teria feito para ser enterrado sozinho? Mesmo sem crenças, ele rezou duas ave-marias. Aprendeu que se reza aos mortos. Depois, sentiu uma tristeza imensa, como se tivesse de repente alguém da família morrendo, e comentou com o coveiro:

“Ninguém merece morrer sozinho”.

“Ruim mesmo é viver sozinho”, respondeu Lalau.

Adão voltou do enterro, encostou numa barraquinha e mandou ver na sua garapa. Me contou que na época do enterro do solitário, estava intrigado do irmão mais velho, por causa de uma confusão envolvendo um dinheiro emprestado. “Coisas de família”, disse.

Saiu do mercado e resolveu telefonar para o irmão.

“Eu tinha perdido alguém que nem conhecia, então achei que era justo reencontrar um irmão que estava perdendo”, contou. O irmão de Adão ficou surpreso com o telefonema, mas também disse que vinha pensando em fazer um contato. Dois dias depois, se encontraram e tudo ficou resolvido. O irmão morreu ano passado, mas sem intrigas, graças ao morto de ninguém.

Depois de me contar sua história, Adão fez um silêncio, acendeu outro cigarro e ficou olhando para o nada, longe, com aqueles olhos perdidos, talvez lembrando que a morte é mesmo por um triz.

“Sei que é ruim viver sozinho, mas ninguém merece morrer sozinho, professor. Escreva o que eu digo, ninguém merece morrer sozinho”.

Então, eu escrevi.

Recife, agosto de 2005.

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Pequenos sonhos

26 de outubro de 2007, às 14:31h por Samarone Lima

Estou à procura de um helicóptero para um vôo de uma hora sobre o Recife. Quem souber o preço do aluguel, por favor, me informe.

É que estou começando a realizar os sonhos dos meus amigos. Belém, motorista da Secretaria de Saúde, sonha em dar um vôo de uma hora sobre nossa amada cidade, e isso não deve custar muito caro.

Isso de realizar sonhos é uma coisa sem fim. Minha sugestão é simples: começar pelos sonhos miúdos, depois passar para os médios, até chegar aos graúdos.

Sempre sonhei em passar defronte a um campo de várzea, e ver um jogador fazendo um gol. Outro dia aconteceu. Um cruzamento da lateral, o cara emendou na pequena área, a rede estufou. Quase desci do ônibus para comemorar.

Davi, meu dileto amigo, sonha em ganhar na Mega Sena apenas para realizar o sonho de tirar todos os amigos do trabalho, indenizá-los, alugar uma Van e levar todos para beber, de segunda a sábado. No domingo, ficar com a família, que ninguém é de ferro.

Minha mãe sonha em ter um abrigo para ajudar os portadores de HIV. Minha mãe, se fosse muito rica, se fosse da elite, iria ajudar muita gente. Eu tenho uma gastura imensa de quem tem dinheiro, muito dinheiro, e não ajuda a quem pode, do porteiro à vizinhança.

Naná tem o sonho de ver a filha formada. Enquanto isso não acontece, usa sua Kombi enferrujada para levar as crianças do Poço da Panela para a escola.

Os sonhos miúdos são os que mais me encantam. Gustavo sonha apenas em ser poeta e viver com o pouco. Valdemir Leite sonha em aprender inglês e andar de bicicleta.

Sonho com uma cidade cheia de livros, biblioteca lindas e imensa.
Sonho com uma cidade inundada de leitores compulsivos, especialmente os jovens dos bairros mais pobres. Mais romances, menos repressão. Mais crônicas, menos violência. Mais poesia, menos mortes. É um sonho imenso. Por via das dúvidas, comecei com meus 80 alunos.

E sonho outras coisas também, miudinhas da silva, um dia conto.

Ah, sonho em dar uma festa bem bacana e chamar todos os meus leitores, só para ver a cara e o sorriso deles.

Dançaríamos todos de sapatos, até amanhecer o dia.

Depois, como diz o poeta, dançaríamos descalços o resto da vida.

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Anotações sobre o Menino Ailton

22 de outubro de 2007, às 21:11h por Samarone Lima

Ailton, numa foto recente

Conheci Ailton Guerra em 2000, quando ensinava “Técnicas de Reportagem”, na Universidade Católica, e subimos o Alto José do Pinho, para desvendar os rostos do morro. Aquele camarada muito negro, estatura mediana, cabeça raspada, chamava a atenção pelo, carinho, o largo sorriso, um jeitão de criança. Era estranho o apelido de “Peste”, nascido da infância. O camarada parece que atormentou mesmo sua escola.

Foi ele, o “Menino Peste” a ponte entre os sedentos alunos de Jornalismo e a comunidade. Dali saíram várias belas reportagens e alguns bons jornalistas. A experiência humana da troca, tomando umas cervejas no Caldinho do Biu, gerou ótimas amizades. Desta época, lembro apenas que Peste era o baterista do grupo de punk rock “Matalanamão”. Depois dei uma oficina de Comunicação, e ele participou, com olhos atentos, tomando nota de tudo. Depois, passou em minha casa e pegou livros a título de empréstimo. E seguiu.

Ficamos algum tempo sem contato, depois nos vimos quando ele era educador do projeto Olinda Jovem, na periferia de Olinda. Matamos saudades, trocamos idéias, vi que o camarada estava tocando em frente. O velho e bom amigo caminhava pelos rumos da comunicação, dando oficinas para jovens.

O derradeiro encontro aconteceu há um ano, quando o convidei para trabalhar comigo na Oficina da Palavra, na escola em que ensino. Cheguei em sua casa e começava a tocar “O bêbado e o equilibrista”, com Elis Regina. Até hoje, não sei quem é o bêbado ou o equilibrista. Depende do dia, creio.

Por artimanhas do destino, estamos juntos até hoje. Toda terça e quinta, nos encontramos logo no começo da manhã. Ficamos juntos a manhã inteira, percorrendo os labirintos da Literatura, produção de textos, buscando poetas, romancistas, cronistas que consigam bater à porta dos jovens, para lhes mostrar novos mundos. Às terças, depois das nossas aulas, vamos juntos assistir as maravilhas da Flávia Suassuna, que é um presente de Deus. Na quinta-feira almoçamos num boteco roufento, ali por perto da Rua da Moeda, num calor de rachar , em meio ao populacho mais comum.

É mais que isso. Tomamos nossas cervejas, alguns aperitivos, avaliamos nossas vidas, projetamos primaveras, inventamos novos sistemas decimais, criamos tempestades em copos de geléia de mocotó Colombo, renovamos esperanças. Desabafamos passados alheios, rimos cósmicos, lembramos do que não aconteceu, descobrimos novos paradigmas filosóficos e amadurecemos a natureza das pétalas. A conta nunca passa de R$ 14,00. Somos boêmios e sonhadores modestos.

Nos últimos dias, resolvemos cair na estrada. Ele queria ir para Nazaré da Mata, sentir o cheiro dos ancestrais. O pai era um negro de olhos azuis, caboclo de lança do Maracatu. Fomos para Carpina, depois seguimos caminhando para Tracunhaém, olhamos toda aquela beleza da arte em barro, depois singramos para Nazaré. Antes de chegar à casa de sua tia Maria, saímos em busca do Engenho Cumbe, local onde seu pai tocava. É preciso mesmo ir em busca do cheiro dos antepassados, sentir a atmosfera dos mais velhos, botar os pés onde já viveram os nossos.

No caminho, o longo caminho, tivemos nossas conversas em quase-silêncio, ao som das sandálias arrastando pelo chão. Ele me falou das muitas perdas, num prazo de quatro anos. Pai, mãe, irmão, numa seqüência de despedidas. “O próximo serei eu”, disse ao telefone para a namorada, após mais um adeus. São essas coisas que a gente pensa quando tudo está tão triste e ruim, que a esperança vai saindo pela tangente. E ele está ai, vivo, cheio de planos, se preparando para enfrentar o Vestibular para Comunicação.

“Era para eu ser o policial da família, mas acabei virando educador”, lembra.

Sim, meu amigo tinha como destino a farda e as armas, mas preferiu outras armas. Primeiro, sua banda de rock, o som radical da banda. Depois, os livros, as palavras, a poesia, a beleza.

Não sei que tipo de policial ele seria, sei que é um maravilhoso professor. Mesmo sem a formação pedagógica formal, tem uma intuição afinadíssima, um raro senso de percepção de como trabalhar com os jovens.

Em nossa jornada, chegamos à casa da tia. Conheci dona Maria, sua tia amorosíssima, mãe de Joseíldo, mãe de Josemar, o “Mamá” (cabeleireiro que não aceita cortar o pelo de ninguém fiado), mãe de Jaílson, que é policial militar, e Jacilene, que vai tentar o 3º concurso seguido para a PM. Conheci, convivi, tomei sopa e suco de acerola e café com manteiga com todos eles, com as duas Karlas, filhas de Jaílson, uma de 11, outra de 14 anos.

Karla Mais Nova não gosta muito de estudar, mas bate um dominó de primeira, tanto é que Ailton levou duas buchudas, enquanto eu anotava minhas besteiras de viagem. Karla Mais Velha é uma leitora voraz, e por conta própria sabe tudo sobre “regimes totalitários”. Conversamos muito, ela foi lá dentro, pegou seus livros, suas redações, me mostrou. Ela quer cursar Psicologia e acho que vai longe.

E todas essas pessoas com uma amorosidade imensa, intensa, radiante. Uma educação rara, passando por uma mansidão de espírito, gentilezas da alma. Vi ali a matriz genética e espiritual do meu amigo, que é um desses mansos que fazem o mundo mais bonito.

A cada senhor que passava, com seu chapéu e seu cigarrinho de palha, Ailton dizia:

“Isso é a cara do meu pai”.

Voltamos da jornada num galope silencioso, vi que estava mais próximo do meu amigo.

Mas o melhor de toda viagem é mesmo essa troca de entrelinhas no silêncio dos passos.

Ao meu amigo Ailton, por supuesto.

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Coisas miúdas

19 de outubro de 2007, às 13:29h por Samarone Lima

Não sei o que há, o mundo anda meio estranho, apressado, as pessoas andam se destratando e destratando o mundo. Há milhões de pessoas remexendo o Orkut, neste momento, milhares de mensagens estão indo e vindo, mas poucas vezes tenho escutado aquela pergunta sincera: “Você está bem?”, feita pelo Siba, num dia em que eu corria para resolver algo que não lembro.

Tenho criado meus pequenos refúgios, abrigos, acalantos. Uma vez por semana, chova ou faça sol, vou ter com a minha amiga Flávia Suassuna, com suas aulas de Literatura. Ao lado do meu inseparável amigo Ailton, escutamos coisas que entram no coração, acalmam os tumultos. Como o Drummond, que diz que “cego é talvez quem esconde os olhos debaixo do catre”. Lá, descubro com certa tristeza que a marca do Século XIX foi a palavra, e que a do século XX é a imagem. Mas a Flávia diz que um poema do Drummmond mudou a vida de sua irmã, então comenta:

“Se o Drummond mudou uma pessoa, mudou o mundo”.

Duas vezes por semana, o encontro com a turma de professores da Kabum!, onde ensino. Então chega a Ana Luiza, com seu abraço verdadeiro, a troca de olhares e esperanças, o que vamos fazer a cada manhã. Vejo os jovens lendo cada vez mais, e fico feliz porque algo que faço neste mundo vale a pena. Cada vez vai ficando mais claro para mim. De tudo o que fiz, dos livros, das viagens, dos projetos que participei, o que mais me comove, me realiza, me faz ser gente, é ver jovens se apaixonando pela leitura, pelos livros, pelo mundo sem volta que é o da Literatura.

Chega Beth, a doce Beth da Mata, com seu sorriso, seu olhar precioso para o mundo da arte, sua generosidade, então o dia fica mais calmo e bom. Chega Syrlei, que faz um lindo trabalho de teatro com os jovens, chega Walquiria, então o dia, às terças e quintas, começa bem, precioso..

Volto ao meu caderninho com as drummonianas:

“Minha criança salta na minha vida para restaurá-la”.

O Drummond perdeu sua filha Júlia em 1987, ficou triste, muito triste, sobreviveu apenas 12 dias, depois foi enterrado junto com ela, que coisa.

Volto à Flávia. Ela começa a ler um poema para os alunos e chora, se emociona, pára a leitura. Fica aquele silêncio, penso em bater palmas, mas o silêncio é mais eloquente que as palmas, então as grosserias da vida, as chateações, ficam mais serenas.

Ah, meus amigos, hoje estou meio desaprumado, alguma nota mais triste tocou. Mas são as coisas, minha falta de afinação com o mundo, que escondo bem.

Uma frase do Rilke então me consola:

“Sou um desajeitado da vida”.

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