Tempo, memória, encontros
Samarone Lima
Parece que o tempo tem sua própria memória. Não sei de onde me surgiu isso, quando iria escrever sobre minhas andanças pelo Sertão, e foi o suficiente para deixar o tema das caminhadas para outro dia. Acho que já caminhei demais com as palavras da estrada.
Talvez esta descoberta do tempo com sua própria memória tenha surgido no café da manhã de hoje, com minha tia Flocely, de oitenta anos, cabelos branquinhos, suas rugas e tantas coisas vividas. Ela tem resistido bravamente às dores na coluna, diálise peritonial, duas infecções em um ano. Está aqui, lúcida e doce como sempre, e cada dia mais caladinha, quieta, modestamente gente. Rosa, seu braço direito, que sabe dos remédios, rotinas, horários, que cuida com a maior das forças, que é amor, me disse que ela ultimamente vem falando muito dos parentes, da mãe, irmãos, confundindo o mundo dos vivos e dos mortos.
“É como se eles estivessem aqui”, disse tia, com lágrimas escorrendo.
Estão mesmo, de alguma forma. Tio Zelito, vovó Zeneuda, tio Paulo, seus irmãos, já estão em outro espaço. Sua mãe Elisa, que há muitos anos também morreu, está de volta, percorrendo a casa como uma nova visitante.
Um dia, procurando velhas fotografias da família, encontrei uma anotação de tia, quando morreu sua irmã Zeneuda.
“Morreu Zeneuda, nosso último traço”.
E por essas coisas que não entendo, cada vez mais estou viajando para os lados da Chapada do Araripe, de onde viemos. Minha tia é do Exu, mas morou muitos anos no Crato, de onde vim. Estou muito próximo dela e de nossas origens, ao mesmo tempo.
Na última viagem, trouxe num saquinho um pouquinho da terra de Exu, e dei de presente. Pensei que era um presente bobo, mas reparei que dias depois, a terra estava num copo de geléia, na estante, ao lado de sua imensa coleção de corujas.
Talvez agora eu esteja entendendo o sentido das minhas caminhadas. Talvez buscasse algo que não sabia, agora encontro o que não busquei. Ultimamente, minha mãe tem ligado, falando de uma saudade maior, querendo minha presença com uma urgência. Terei que ir a Fortaleza, abraça-la e saber de sua vida. Recebo cartas de tia Teresa, depois de longos anos sem vê-la, com fotos antigas da família, vejo meus retratos com sete anos, e revejo minha jornada.
Tomar o café da manhã em meio às lágrimas da saudade de uma pessoa que se ama muito é, de certa forma, entrar nesse mundo de reencontros, perdas, despedidas.
Vivo uma despedida lenta, como o aceno de quem vai em um trem, lentíssimo, acenando e sorrindo.
Lembro agora que o trem da minha infância, que fazia o percurso do Crato para Fortaleza, se chamava “Sonho Azul”. Desde esta época, tudo que é azul me remete a coisas lindas, paisagens cheias de animais e plantas, pessoas sorrindo, como nos melhores sonhos.
Postado em Crônicas |
8 Comentários »


