Viagem solidária
Samarone Lima
São 6h22, estou no terminal do Centro do Cabo, para viajar ao Recife. O “semi-expresso”, que é mais rápido, porque vai pela BR, nem deu sinal de vida. Pego o ônibus comum mesmo, fico rezando para o sujeito que está passando a roleta não pegar a janela, na cadeira que fica logo depois do cobrador, o melhor lugar do ônibus para ler e esticar as pernonas que tenho. “Sai, sai”, fico repetindo baixinho, mas o cara se aboleta no meu lugar. Ressentido, fico do lado oposto, com minha mochila e outros apetrechos das andanças.
O ônibus sai cheio, pego meu livro do momento e começo a ler. Sei que vou cochilar, porque estou cansado, dormi pouco, estou com uma mania feia de acordar no meio da noite e ficar direto, lendo e escrevendo. Então acontece o fenômeno que muita gente de classe média não conhece - o ônibus lotado, parando rigorosamente em toda parada.
Começo a cochilar, acordo, cochilo de novo, como faz minha mãe, em tudo que é viagem. Herança de família é coisa que o sujeito carrega até cochilando.
Então acontece o fato da viagem: a chegada da grande família. Uma senhora negra, certamente a mãe de duas outras senhoras negras, cada uma com três filhos, todos também negros, um deles visivelmente irritado com algo, deve ter uns 11 anos, está com uma cara péssima. Não contei direito, mas eles juntos somam nove pessoas. Uma das mulheres leva uma criancinha nos braços e fica de pé, na minha frente. Dou uma enrolada, quero ler somente mais uma página, mas estou com o coração mole, olho para ela, pergunto se quer sentar. A mulher, claro, quer sentar.
Não estamos nem na metade do caminho, faltam uns vinte minutos para as sete da manhã, o ônibus está entupido, perdi a cadeira, é a vida.
O menino de 11 anos começa a passar mal, está meio pálido, a avó manda ele sentar. Todos fastam, ele vai para um canto, está irritado, não quer sentar, a avó é linha dura, fica repetindo “senta, menino, senta ai”, me olha assim e diz:
“Ele está com dor de cabeça direto”.
São todos bonitos, fortes, simpáticos, só o menino está assim, mas com dor de cabeça o cara não fica nada legal.
Uma moça do lado dele puxa a mão.
“Tira a mão de fora da janela, que é perigoso”.
O menino tira, então senta, a viagem se acalma. Olho para as cadeiras, tem passageiro dormindo com o filho no colo, gente escutando fone de ouvido, muitos ainda cochilam, há um rapaz ao meu lado com uma pastinha transparente, cheia de documentos, uma Carteira de Trabalho, creio que ele descolou um trabalho novo, está com uma cara boa. Ao lado do cobrador, de pé, um rapaz cochila. Sim, uma cochilada em pé mesmo, que é como a vida permite, certas vezes.
Olho para o lado. A menina que ajudou o negrinho está com a cabeça baixa, rezando um terço, com a ajuda de um terço miúdo, que a gente coloca no dedo, uma vez ganhei um desses de uma aluna.
Quase não tem conversa, é um ônibus silencioso e cansado, feito de trabalhadores brasileiros, que moram a 45 quilômetros do Recife. Surge mais uma vaga ao meu lado, a outra mulher negra, possivelmente a mãe do menino que passa mal, senta, com uma menina no colo. Vamos caminhando para sete horas, falta a Imbiribeira inteira, mais meia hora, pelos meus cálculos.
Olho para o lado. Dezenas de carros ciscam impacientes, rumo a algum lugar, desta cidade interminável, que é o Recife. Não consigo entender o motivo de haver tanta impaciência entre as pessoas que têm um carro só para elas, com ar-condicionado e som ambiente. A essa altura, esqueci da importância da minha leitura, o livro fica para depois. Em seu lugar, ficou a imagem da avó, dura e carinhosa, mandando o menino sentar, no chão do ônibus, o menino resistindo, a voz amorosa de uma passageira que não sei o nome, que usava um broche falando algo de Deus ou Jesus, não lembro, sei que era um dos dois.
Desço no Cais de Santa Rita, são 7h25, deu exatamente uma hora de viagem, pareceu mais. Vou caminhando para a escola, olhando a beleza das pontes, uns barquinhos que chegam com peixes magros. Lá na frente, encontro Pedro, meu aluno, que é sempre o primeiro a chegar. Me conta do último fim de semana em Tejipió, o bairro onde mora. Tiroteio, briga de gangues, violência policial, essa epidemia de violência que tomou conta de nossa cidade. É de doer.
Prefiro ficar com a imagem daquela família, numerosa e muito agarrada dentro de si, como se todos protegessem todos. Uma família silenciosa que foi protegida com poucos gestos, nessa silenciosa viagem matinal de todos os dias.
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