Um prêmio ao bom jornalismo, em meio à nossa matança
Samarone Lima
Ação dos jornalistas na Favela do Detran. O pai de Idalino, assassinado, acompanha a pintura do “basta”
Sempre achei meio esquisito a fissura de alguns jornalistas por prêmios, como se isso fosse a coisa mais importante da carreira. O mais importante, para mim, sempre foi a qualidade do trabalho, os compromissos éticos e sociais. Isso tudo num belo texto, claro.
Mas um prêmio sempre admirei e acalentei secretamente o desejo de ganhá-lo – o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos. Não sei, era algo meio sentimental, que eu achava um pouco o meu caminho, essas vaidadezinhas que todo mundo tem. Nunca cheguei nem perto. Inscrevi Clamor na categoria “livro-reportagem”, mas nem menção honrosa ganhou.
Ontem fiquei sabendo que o grupo de jornalistas que toca o blog PEbodycount (www.pebodycount.com.br) ganhou o Prêmio, na categoria Internet. É sobre eles a postagem de hoje.
Rodrigo Carvalo, 28 anos, João Valadares, 29, Carlos Eduardo Santos, 28, e Eduardo Machado, de 30, são jornalistas do Jornal do Commercio, e já fizeram muitas matérias sobre violência. Os homicídios, latrocínios, seqüestros, ou, como bem diz o Faces do Subúrbio, do Alto José do Pinho, “estupros, atropelamentos, assassinatos, esses são os fatos, que não impressionam, mas amedrontam”.
Eles já ganharam prêmios, são conhecidos, uma moçada jovem que tinha tudo para ficar naquele esquema bom de fazer matérias legais, mostrar a violência, textos bacanas, enfim.
Mas eles têm algo que diferencia um bom jornalista de um grande jornalista, que é o compromisso. Eles começaram a perceber que a violência em Pernambuco era muito maior do que se notificava. “A gente não tinha a real noção da matança”, como diz Rodrigo Lobo. Matança. Não existe palavra mais certa para o que vivemos.
Resolveram montar o blog Pebodycount. O nome é esquisito e às vezes até chato, mas a proposta era a seguinte: contabilizar todos os homicídios cometidos em Pernambuco, a partir de 1º de maio de 2007.
Vejam lá o Blog. De maio para cá, 1.866 pessoas foram assassinadas. Triste é saber que até o final do ano, cerca de 4.600 pessoas terão morrido. Estou falando de mortes no futuro que já sei que vão acontecer, e isso é triste, é terrível, é uma tragédia.
Todos os dias, por contra própria, sem usar a estrutura do Jornal, eles ligam para delegacias, IMLs, consultam fontes, conversam com outros órgãos de Imprensa, e atualizam o Blog. Ao meio-dia, eles atualizam os dados. Parece simples, mas não é. Todo mundo sabe que esconder dados é uma ótima forma de ir tapando o sol com a peneira.
Marcas – Em outubro, eles começaram outro projeto, intitulado “Marcas da Violência”. Durante todo o mês, eles estão indo a todos os lugares do Recife onde ocorreu homicídio, para deixar uma marca no chão, de tinta vermelha, com a palavra “basta”. Eles se acordam às 4h30 da manhã, vão por conta própria aos lugares mais ermos do Recife, onde a Imprensa só vai mesmo quando a Polícia prende um punhado de gatos pingados com uns papelotes de maconha, para mostrar serviço. Depois, eles, os presos, são exibidos com festa nos telejornais histéricos, com apresentadores que parecem gozar com mais violência.
Mais que deixar a marca no chão, eles conversam com a população, escutam sentimentos de impotência, dor, desespero. “Hoje, fomos ao Campo do 11, em Santo Amaro”, diz Rodrigo. Enquanto a pintura vai sendo feita, os jornalistas explicam o objetivo. “Eles sentem como se aquela morte tivesse alguma importância. A pessoa pode ter sido enterrada como indigente, mas foi lembrada”, diz João Valadares, um dos craques do time. A reação da população tem emocionado os quatro jornalistas, que de vez em quando são acompanhados por um craque da fotografia, o Rodrigo Lobo.
Segundo João, eles estão tentando “tirar a casca” que encobre a questão da violência em Pernambuco. Ir mais fundo, ver o sofrimento humano de perto, dar nome, encontrar rostos, semblantes, pessoas machucadas. “Queremos olhar, tocar, escutar essa gente, que não tem um computador em casa, e não acessam um blog”, explica João. De quebra, eles fazem algo que vai de encontro a um vício moderno dos jornalistas – fazer matérias por telefone, nas redações geladinhas pelo ar-condicionado.
Rodrigo lembra do caso de um pai que chamou a equipe do PEbodycount para mostrar o local exato que o filho tinha sido assassinado.
São muitas histórias que esses jovens camaradas estão vivendo. Em meio a essa nossa interminável tragédia pernambucana, a utilização da informação como forma de denúncia, de pressão, de reflexão. Não é todo jornalista que topa se acordar às 4h30 da manhã para ir às bocadas saber de mortes.
Do meu cantinho aqui na Internet, digo aos meninos: sigam, camaradas, sigam firmes nesta jornada. Tirem as cascas, mexam nas feridas. Conheçam mesmo os lugares onde nossos jovens são abatidos como lebres, nessas madrugadas de medo e espanto. Cutuquem, mexam, tirem o véu do medo, da paralisia, da hipocrisia.
Cada um de vocês representa o tipo de jornalista que acredito, a comunicação que tenho fé, e que infelizmente, está desaparecendo. Sigam neste jornalismo inquieto, atento, fuçador, que não se acomoda, que vai às ruas, que olha o povo e se emociona com suas dores.
Já desisti do Prêmio, mas ontem comemorei como se fosse meu. Mas não existe maior prêmio do que lutar pela vida, num tempo de tantas mortes.
Postado em Crônicas |
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