Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

Apresentação


Livros do Autor


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Calendário

dezembro 2007
D S T Q Q S S
« nov   jan »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

Arquivos


Usuários online


O sonho de Cuba

10 de dezembro de 2007, às 1:19h por Samarone Lima

Desde que me entendo por gente, quero conhecer Cuba, passar uns dias batendo pernas, andando sem rumo, procurando nada, a não ser pessoas e cenários. O mais próximo que cheguei da ilha foi uma noite de muito frio, em São Paulo, que cheguei com um litro de rum barato, e Gustavo adentrou com o CD novinho do Buena Vista Social Club. Escutamos aquela maravilha extasiados, bebendo goladas infernais, tragando um charuto formidável, e fomos dormir chumbados. Até hoje não sabemos qual dos dois ficou mais mamado.

Desde esta época, tenho juntado dinheiro com o objetivo intenso de passar uns dias em Havana. Quero tomar uns runs e fumar uns charutos, anotando minhas besteiras de sempre.

Uma vez, fui apresentar um trabalho num congresso em Miami, numa dessas sortes da vida, com passagem e hospedagem tudo pago, e estava a maior confusão por causa do pequeno Elian, um garoto que sobreviveu em uma balsa, e virou celebridade. De Miami para Cuba era um pulinho, mas eu não tinha muita grana, não era tão simples assim, acho que perdi mesmo foi uma boa chance de viajar por um precinho bom. São esses vacilos da vida. O menino, depois de uma batalha judicial, voltou para Havana.

Há uns três anos, cheguei muito perto de viajar. Juntei a grana, estava tudo nos conformes, mas me caiu no colo um bar quase falido, para tomar de conta, uma dessas coisas de família e de dinheiro que nunca entendi bem. O dinheiro de Cuba foi para imobiliária, funcionários, Ambev e milhares de outros cobradores, que me localizavam com uma facilidade incrrível. Fui ser dono de bar pela segunda vez na vida. Desde essa época, nunca mais passei para o outro lado do balcão, nem para pegar um abridor de garrafas, para não dar azar. Quando escuto um amigo dizer que quer ser dono de bar, mando rezar uma missa e passo dois dias dando conselhos.

Me recuperei bem, consegui vender o bar, passei a reduzir os gastos com coisas supérfluas, como sapatos, roupas, imóveis, carros, jóias, iates e noitadas, e de repente descobri que poderia sonhar novamente com a viagem. Entonces, no meio das muitas mudanças que faço na vida, o passaporte sumiu, junto com vários outros documentos.

Cheguei à situação cômica de ter dinheiro para a passagem e estadia, mas faltava o passaporte. Me avisaram para tirar outra via, mas seria a terceira, e todos os documentos necessários para a terceira via, estavam no envelope com o passaporte. É, eu admito que sou meio complicadinho mesmo, mas todo mundo tem seus defeitos. Tenho uma questão mal resolvida com documentos em geral.

Esse inferno terminou outro dia, quando fui separar livros para doar. No meio das dezenas de caixas, eu não sei nem para que tanto livro, estava lá, belíssimo e novinho em folha, o meu passaporte, verde como a floresta amazônica. Olhei-o com o carinho necessário, comemorei como se fosse um gol e senti o cheiro de Havana.

Comecei os contatos com os ex-guerrilheiros que já entrevistei, e que são meus amigos. Quero saber os caminhos de Cuba. O Zarattini, pra variar, só vai me dar as dicas na véspera da viagem, possivelmente em Código Morse, dentro de uma pasta de dentes, que nunca conseguirei decifrar.

Não sei ainda como funciona esse negócio de Lan House por lá, mas o fato é que pretendo mandar umas boas notas sobre a vida na ilha, compartilhando as descobertas com meus cativos leitores.

Iramarai ciscou, dizendo que iria, mas negou fogo, só por causa do preço da passagem. Gustavo também declinou, por questões familiares.

Mal comprei a passagem, começaram os pedidos – uma boina do Che Guevara para o Inácio, uma caixa de charutos para um amigo. Sei que alguém pediu um litro de rum, mas não lembro bem. Outro me pediu uma bandeira de Cuba, mas acho que dá para comprar pela Internet. Tudo bem, eu compro, não tem nada a ver o camarada comprar a bandeira de Cuba pela Internet, quando tem um amigo viajando pra lá nos próximos dias.

É, mas pelo que sei, tudo isso é pago, e a turma nem se liga.

Começaram também as dicas sobre o que levar. Não sabia eu que uma caixa de Bic faz o maior sucesso. Vou levar umas duzentas, então.

Não contem comigo, pois, para as inúmeras confraternizações, ceias de Natal, amigos os mais secretos e a atividade sócio-psicológica-frenética do Reveillon, que não curto há um bom tempo.

Pela arte do destino, estarei em Cuba, retornando somente ano que vem. Aceito de bom grado dicas de quem andou por lá, em tempos recentes ou remotos.

Prometo voltar.

Postado em Crônicas | 21 Comentários »