Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Em Canudos

3 de dezembro de 2007, às 19:59h por Samarone Lima

De Canudos, Bahia, e usando um computador sem varios acentos.

Esta foto foi tirada no Mirante de Canudos, onde tem uma estatua de Antonio Conselheiro. Embaixo, esta o acude Vaza Barris. Debaixo d´agua, restos de escombros do que restou de quatro batalhas.

Encontramos seu Altino Soares de Oliveira numa esquina erma, em Chorrocho, com a poeira comendo no centro, o calor derretendo o tempo. Ali, dizem, passam os onibus com os universitários, que vão para Canudos. Seu Altino puxa conversa, fumando seu cigarrinho de palha, os dedos cheios de calos da agricultural. Falamos que estamos a caminho de Canudos, ver a cidade fundada por Antônio Conselheiro, ele conta que seu avô se chama Pedro Calixto de Oliveira, foi um jagunço forte, brigou como o diabo, isso era para estar entre aspas, mas nao sei onde estao as aspas. O avo dele se esbaldou pelo mundo e nunca mais foi encontrado, depois aguardou a poeira baixar e retomou a vida, sem muito alarde. Seu pai, o de Altino, se chama Amancio, e costumava pegar restos de armas de Canudos, serrar e fazer novas armas. Ele fala de um resto de artefato da guerra, que guardou em casa, e pedimos para ver.

Ele entra em casa e traz um troço feito de aço, pesadíssimo, enferrujado, parecendo um bomba em miniatura. Foi usada pelo Exercito em Canudos, diz. Depois explica o formato e funcionamento de algumas armas, como a Lazarina, que era leve, e empregada como soca-soca. Depois, a Combrea, espingarda de controle de agulha, que para mim permanece um misterio, e finalmente a Carabina, de dois canos, que chamam tambem de Rifle quarenta e quatro, porque o teclado esta com problemas nos acentos e nos numeros. O quarenta e quatro pode ser chamado tambem de rifle papo amarelo, entre aspas. A Manu Licha era a arma que mais rompia, porque a cabeca da bala era de aco.

A conversa foi interrompida pelo onibus que vinha de Belem de Sao Francisco, entupido de universitarias. O primeiro refugou, mas o segundo nos abriu as portas, e economizamos cento e cinquenta quilomentros, creio.

No caminho, conhecemos as criaturas mais adoraveis do planeta, estudantes da Cevasf, como a Neide, da Historia, Jaqueline, Gabriela, Jaadi e Jeiza, de Letras, Adila, da Historia, e Adriana, Letras, e mais a Fernanda, de Geografia. Conversamos muito, a viagem inteira, e fico sabendo pela Neide, que estuda historia, que o acude Vaza Barris, entre aspas, foi feito pela ditadura, para encobrir a historia.

Ao entardecer, estamos em Canudos, e descobrimos que a cidade esta vivendo um pequeno frenesi, que e a peça Os Sertoes, dirigida por Ze Celso. Todos os hoteis e pousadas estao ocupados, muitos moradores alugaram quartos etc. Ficamos de bobeira, e somos salvos pelas meninas da viagem, que oferecem banho. Tomo banho na casa da Gabriela, Marai vai para outra casa, Ailton Guerra para outra.

Vamos tentar assistir a peca, que vai abordar a luta em Canudos, parte I. Converso com a produtora, digo que vou escrever textos para o Estuario, ela recebe a noticia com o desdem necessario, depois pergunta pela minha carteira de jornalista, acho um saco isso de usar carteira de jornalista para entrar nos cantos. O ingresso foi vendido de manha a um real, e a revenda chega a vinte mangos por bilhete. Quero ver a peça somente por um motivo - estão apresentando em Canudos, palco da guerra.

Iramarai e Ailton não dão muita bola para a peça. Todos estamos exaustos. Fico por ali, por ali, olhando o povo, então me chega um rapaz e oferece três ingressos por vinte e um mangos, ofereco vinte, acaba saindo por dezessete, lembrem que o teclado não tem numeros, e amanhã consertarei o texto. Na entrada, a produtora acha ruim porque comprei de cambistas, eu quase volto.

Assisti três horas de Os Sertões, fiz um esforço intelectual e afetivo sem limites para sentir algo que cheirasse a emoção, mas faltando vinte minutos para o intervalo, vi que o Sertão do Ze Celso não passa nem perto do meu. Encontramos um espanhol e uma baiana, gente cabeça, eles disseram que era preciso esperar uma cena linda no final da peça, mas fica para a próxima, em três horas, dava para ver algo lindo.

Dormimos no box de um mercado e na manhã seguinte, a feira de Canudos estava espalhada pelas ruas. A diversidade das cores, gentes, produtos, preços, me lembrou a feira que tinha aos sábados, na casa da minha avó, no Crato, e foi melhor que a peça.

Então conhecemos dois personagens impagaveis, no meu primeiro domingo em Canudos. O Antônio Mergulhador, ou Antônio da Cruz Silva, e seu Cândido Pereira da Silva dos Santos, de sessenta e três anos.

Escreverei sobre eles e sobre outras criaturas que esbarramos, durante o dia, quando achar um computador que tenha acento e numeros, porque estou ficando impaciente.

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Reverenciando Canudos

1 de dezembro de 2007, às 12:37h por Samarone Lima

De Chorrochó, Sertão da Bahia.

Algumas sincronicidades me fzeram voltar à estrada, desta vez para a terra onde Antônio Vicente Mendes Maciel, mais conhecido como Bom Jesus Conselheiro, criou um mundo à parte chamado Canudos, aqui na Bahia. Primeiro, o desejo antigo de reverenciar lugares que foram palco de lutas. Um lugar que reuniu 30 mil pessoas, em 1897, e foi sucessivamente atacado pelo Exército, em quatro grandes e sangrentos combates, até que nada restou do lugar, na última investida militar, aniquilando por completo o que era a segunda maior cidade da Bahia, atrás apenas de Salvador.

Primeiro, um encontro com Herik Hoover, produtor da peça “Os Sertões”, no meio do nada, em uma pequena cidade no interior do Ceará. Isso há mais de um mês. Ele me falou da peça, que seria encenada em Canudos, no final de novembro. Dias depois, ganhei o precioso livro do historiador Frederico Pernambucano de Melo, intitulado “A guerra total de Canudos”. Ele descreve de forma preciosa e numa linguagem saborosa, a guerra que levou ao sertão, “em etapas sucessivas, 12 mil homens da melhor tropa de linha - veteranos, em boa medida, da Guerra do Paraguai, da Revolta Armada e da Revolução Federalistas - dos quais 5 mil não regressaram”.

Caminho para Canudos a partir do sertão de Pernambuco com Iramarai e Ailton Guerra. Atravessamos de balsa até Ibó, depois caminhamos. Só depois de olhar as distâncias, descobrimos um erro crasso na jornada. As cidades da Bahia ficam a uma eternidade de distância. Para chegar em Chorrochó, onde estamos agora, tivemos que dormir num descampado, e sofremos tentando carona.

Passam milhares de caminhões pela BR 116, mas nenhum é capaz de parar. Torramos no sol, e já sem esperança de nada, com a próxima cidade a 46 quilômetros, esbarramos no Paulo, um motorista que está terminando o segundo grau e pretende fazer o curso de Letras, em Belém de São Francisco.

É final da manhã, quando Paulo chega em seu ônibus desgovernado, faltando o vidro dianteiro. Puxa assunto, diz que já trabalhou com índios e negros, quer saber o que fazemos. Para sair, temos que empurrar o ônibus, que tem bancos descolados, vidros que não abrem, espelhos arrebentados, mas faz o principal em qualquer viagem - anda.

Somos acompanhados pela Daiane, que deve ter uns 14 anos, e diz que vai morar em Salvador, ano que vem, para terminar o segundo grau, fazer “direito ou medicina”.

No caminho, o papo é bom, o vento entra selvagem pelo não vidro, até que Paulo pegunta se estamos lendo algum livro bom.

Pego um Fernando Pessoa que chegou ao acaso, um livro de bolso com o melhor de Álvaro de Campos, o que mais gosto.

Fazemos uma dedicatória, entregamos ao Paulo, que olha e passa para Daiane. Ela fica lendo, sentada na parte da frente do ônibus.

Procuro a máquina, para fotografar o ônibus sem vidro, e a menina lendo o Fernando Pessoa, mas está descarregada, e perdemos imagens lindas. Leitores, me perdoem essa minha falta de talento com as imagens. Imaginem o ônibus, por favor.

Nos despedimos de Paulo e sempre levo aquela sensação que dificilmente nos veremos novamente. Mas ele anotou meu email, quem sabe. Espero que ele seja professor de literatura, porque adoro isso.

Chegamos aqui, mas o ônibus para Canudos saiu de manhã. O próximo, só amanhã de manhã. Tentaremos carona com os universitários, que voltam de Belém ainda hoje.

Faz muito calor, estamos exaustos, mas até a tardinha, chegaremos a Canudos, que tombou, mas resiste na memória.

Vou acabar. Meu tempo na Lan House esgotou.

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