Relatos cubanos, capitulo 3 - Um taxista louco pelo futebol brasileiro, e que detesta os italianos
Samarone Lima
Aqui vai uma confissão: tenho uma dificuldade psíquica e existencial com os taxistas, em qualquer parte do mundo. No Recife, sei quando o camarada desvia de cada viela, vejo a malandragem em cada esquina, e sou capaz de matar um taxista com uma simples pergunta:
“Ôxe, e por que tu não vai pela Avenida Norte?”.
Nesta hora, o cara fica sem graça de me enrolar, e vai direto ao lugar que preciso chegar.
Quando estou fora, pergunto sempre ao taxista quanto ele cobra do lugar que estou até tal bairro, ele dá o preço, digo que só tenho a metade, e geralmente é o preço justo. Aí, entro na viagem tranqüilo, sem a tortura de achar que cada esquina estão metendo a mão no meu bolso.
Peguei o táxi no aeroporto com o senhor André, já sabendo que a corrida custaria 20 fulas. Não sei em qual esquina da viagem o sujeito descobriu que eu era do Brasil, o suficiente para que ele abrisse o verbo, elogiando nossos patrícios e esculhambando outras pátrias.
“Mas os italianos não, eles são insuportáveis, arrogantes, criam confusão por tudo. Detesto os italianos”.
Começou a fumar e me ofereceu um cigarro “Criollos”, que aceitei. Quando estou viajando para outro país, geralmente fumo, como uma forma boa de fazer amizades e escutar desabafos. Às vezes, fumar é bom, mas só às vezes.
Dei uma baforada e perguntei ingenuamente se seu André conhecia o Brasil, o suficiente para ele dizer que um cubano comum jamais vai conhecer país algum, até que as coisas mudem. A palavra “Brasil”, foi a porteira aberta para ele começar a falar da seleção canarinha. Falou com rara habilidade de Zico, Sócrates, Cerezo (seleção de 82), Pelé, Tostão e Félix (seleção de 70), e do Ronaldo, sem especificar qual dos dois. Perguntei se ele conhecia o Santa Cruz, meu time de coração em Pernambuco, ele disse que não, mas que tinha uma cidade em Cuba chamada Santa Cruz, e que me pareceu um bom presságio.
Expliquei as glórias e dores do meu clube, que acaba de ser rebaixado para a terceira divisão, ele deu uma baforada forte e me disse algo profundo, um ânimo para o coração:
“Essas grandes desgraças fazem parte dos grandes clubes”.
Dei uma baforada boa também e pensei que estava no lugar certo, na hora certa, e com o taxista certo.
Lembrei do meu amigo Inácio França, mais tricolor que a soma de todas as torcidas, que adoraria estar em Cuba. Lembrei que na minha mochila, estava com três camisas do “Mais Querido”. Por sorte, da mochila rasgada, ninguém as levou.
Cheguei em Vedado para falar com Bárbara, meu único contato em Cuba.
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