Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Relatos cubanos, capitulo 3 - Um taxista louco pelo futebol brasileiro, e que detesta os italianos

18 de janeiro de 2008, às 23:10h por Samarone Lima

Aqui vai uma confissão: tenho uma dificuldade psíquica e existencial com os taxistas, em qualquer parte do mundo. No Recife, sei quando o camarada desvia de cada viela, vejo a malandragem em cada esquina, e sou capaz de matar um taxista com uma simples pergunta:

“Ôxe, e por que tu não vai pela Avenida Norte?”.

Nesta hora, o cara fica sem graça de me enrolar, e vai direto ao lugar que preciso chegar.

Quando estou fora, pergunto sempre ao taxista quanto ele cobra do lugar que estou até tal bairro, ele dá o preço, digo que só tenho a metade, e geralmente é o preço justo. Aí, entro na viagem tranqüilo, sem a tortura de achar que cada esquina estão metendo a mão no meu bolso.

Peguei o táxi no aeroporto com o senhor André, já sabendo que a corrida custaria 20 fulas. Não sei em qual esquina da viagem o sujeito descobriu que eu era do Brasil, o suficiente para que ele abrisse o verbo, elogiando nossos patrícios e esculhambando outras pátrias.

“Mas os italianos não, eles são insuportáveis, arrogantes, criam confusão por tudo. Detesto os italianos”.

Começou a fumar e me ofereceu um cigarro “Criollos”, que aceitei. Quando estou viajando para outro país, geralmente fumo, como uma forma boa de fazer amizades e escutar desabafos. Às vezes, fumar é bom, mas só às vezes.

Dei uma baforada e perguntei ingenuamente se seu André conhecia o Brasil, o suficiente para ele dizer que um cubano comum jamais vai conhecer país algum, até que as coisas mudem. A palavra “Brasil”, foi a porteira aberta para ele começar a falar da seleção canarinha. Falou com rara habilidade de Zico, Sócrates, Cerezo (seleção de 82), Pelé, Tostão e Félix (seleção de 70), e do Ronaldo, sem especificar qual dos dois. Perguntei se ele conhecia o Santa Cruz, meu time de coração em Pernambuco, ele disse que não, mas que tinha uma cidade em Cuba chamada Santa Cruz, e que me pareceu um bom presságio.

Expliquei as glórias e dores do meu clube, que acaba de ser rebaixado para a terceira divisão, ele deu uma baforada forte e me disse algo profundo, um ânimo para o coração:

“Essas grandes desgraças fazem parte dos grandes clubes”.

Dei uma baforada boa também e pensei que estava no lugar certo, na hora certa, e com o taxista certo.

Lembrei do meu amigo Inácio França, mais tricolor que a soma de todas as torcidas, que adoraria estar em Cuba. Lembrei que na minha mochila, estava com três camisas do “Mais Querido”. Por sorte, da mochila rasgada, ninguém as levou.

Cheguei em Vedado para falar com Bárbara, meu único contato em Cuba.

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Relatos cubanos, capítulo 2 - A mochila perdida e o primeiro milagre em Havana

18 de janeiro de 2008, às 4:30h por Samarone Lima

Vou logo avisando que sou péssimo com fotos em geral

Um nervoso e preocupado funcionário da Copa Airlines, com cara de camundongo e andar apressadíssimo, anotou meus dados e prometeu encontrar minha mochila.

Sem saber, foi o primeiro dos muitos golpes de sorte que tive em Cuba. Neste caso, quase um milagre. Camundongo avisou à mulher da aduana que iria comigo até o escritório da Copa, registrar o desaparecimento de minha mochila. Devo ter sido o único estrangeiro, este ano, que atravessou aquele mar de policiais, sem que sua bagagem fosse revistada. Quando cheguei à Copa, fui dar umas cutucadas em minha pequena mochila, e percebi que tinha cometido uma grande imprudência – fiz toda a viagem com um baita canivete, amoladíssimo, dentro da minha bolsa. Logo eu, com esta vasta cabeleira e a imensa barba…

“Fique aqui, que o buscarei, logo que aparecer sua bolsa”, prometeu Camundongo.

Esse cara pensa que sou besta, foi o que pensei. Os caras já pegaram tudo e fizeram o racha, isso sim.

Exatos 29 minutos depois, Camundongo chega agitado, dizendo que minha mochila foi encontrada, mas como estava muito pesada, acabou rasgando. Já levaram a metade, foi o que pensei.

Entrei de novo na área de desembarque, e deixei imprudentemente minhas outras duas mochilas do lado de fora, em um carrinho, para a turma da aduana não me perturbar. Foi também uma das muitas loucuras que cometi em Cuba, esse negócio de deixar duas mochilas de bobeira em um carrinho, no saguão do aeroporto, sem ninguém tomando conta.

Pois aconteceu o primeiro milagre. A mochila de fato estava rasgada, mas não faltava um sabonete sequer. Foi mesmo o peso.

“Senhor, confira tudo, mas não foi culpa nossa, a sua mochila estava tão pesada, que não agüentou”, explicou Camundongo, com sua indefectível prancheta. “Está tudo certo, senhor Samarone”.

Nessa hora, lembrei de César Maia, meu amigo recifense, que adora dizer, nas mais diversas situações, mesmo que tenha acabado de passar um furacão pelo Recife:

“Está tudo certo, Samarone, tudo certo”.

Camundongo/Cézar Maia, me levou de novo à Copa e me deu dois imensos sacos de plástico, onde coloquei tudo. Agradeci dando uma caneta Bic para ele. Agora só tinha 199 para dar de agrado ao povo, e depois vi que eles nem têm essa tara toda pela Bic.

Olhei para um lado, para o outro. Tinha acabado de passar por três aeroportos, enfrentado muitas horas de vôo, uma tensão imensa, e estava simplesmente em Havana, num país socialista. Se estivesse viajando com um amigo, daria um abraço, para comemorar, celebrar, festejar. Mas estava só, me restava fazer a troca do dinheiro, para comprar uma cerveja, depois pagar o táxi até Vedado, para encontrar meu contato cubano.

Começou minha luta para entender a economia cubana, que seria explicada somente no segundo dia de viagem: 50 euros se transformaram em 64 “pesos convertibles”, conhecido como CUC, ou popularmente como “fula” (esse negócio do dinheiro, em Cuba, merece um capítulo à parte, tenham paciência, é muita informação.)

Mamei uma “Bucannero”, cerveja fortíssima, sentado no chão do aeroporto, olhando minhas bagagens, que pareciam mais as compras da Cobal.

Procurei um táxi para me levar até meu contato, que depois me levaria ao centro de Havana. Queriam me cobrar 25,00 fula, mas como aprendi com minha mãe a pechinchar até em loja de R$ 1,99, pedi desconto, arenguei, disse que era estudante, que minha bolsa tinha se rasgado, fiz um drama com o cara. Baixaram para 20 mangos.

O taxista rendeu a primeira das dezenas de histórias, mas conto amanhã.

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